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«Acredito muito nas parcerias e nas sinergias»

Sem baixar os braços perante as dificuldades, que limitaram a criatividade e a atividade dos designers, Alexandra Moura continua a ver nas parcerias com a indústria uma fonte inesgotável de inspiração e não só.

Alexandra Moura

Depois da coleção para a Decenio, que chegou ao mercado no primeiro confinamento, a designer assumiu mais recentemente um vínculo com a Sanjo, marca para a qual criou dois modelos de ténis, um dos quais já à venda.

Com uma equipa de quatro pessoas, a que se somam colaboradores esporádicos, nacionais e internacionais, Alexandra Moura tem os olhos postos além-fronteiras, onde tem vindo a somar clientes em mercados como a Ásia. A presença na Semana de Moda de Milão, onde apresentou um padrão original em primeira-mão, tem igualmente contribuído para este desbravar de novos caminhos, com a edição de setembro, em formato vídeo, a não ser exceção.

Como surge o vídeo apresentado no Portugal Fashion em outubro último?

O vídeo foi feito em Milão, gravado na Semana de Moda oficial, sendo que depois foi transmitido via digital e, portanto, o que estamos a apresentar é precisamente esse momento, que, no fundo, foi o momento oficial da coleção ter vindo a público. No Portugal Fashion trouxemo-lo numa forma mais de instalação, quase como aquelas caixas negras dos museus para se ver um documentário. E trouxemos também o nosso novo padrão, que é algo que nasceu nesta coleção. Foi criar um espaço, que é nosso, onde a pessoa podia estar a ouvir a música e a sentir o vídeo, como se estivesse a ver o desfile.

De que forma descreve esta coleção para a primavera/verão 2021?

Como todo o mundo está na mesma sintonia, acho que isto fez-nos olhar um bocadinho para dentro. Aliás, já é um processo meu, desde sempre, virar-me para dentro, e esta coleção foi o culminar e o expoente máximo desse olhar para dentro. Em vez de procurar ou de ir buscar influências noutras situações, fui precisamente olhar para dentro da marca, tive esse tempo e ao ter esse tempo fui ao substrato da marca, à sua essência, àquilo que fomos detetando como sendo o verdadeiro ADN da marca e as peças e detalhes que nos traduzem. Se eu tivesse que explicar o que esta marca é enquanto roupa, diria que esta coleção está bem representada a esse nível. Fomos revisitar a modelagem, os stocks de tecidos, os detalhes e trazer isso tudo com uma nova imagem, com o refresh necessário para o que estamos a viver hoje e para aquilo que são hoje as minhas necessidades. Mas é tudo muito assente no que é o substrato da marca, daí a própria coleção se chamar Substrato.

É daí também que nasce o novo padrão?

O padrão surge porque era algo que sentíamos que a marca precisava. Já que foi o momento de nos virarmos para dentro e de olhar para o passado da marca, através do próprio logótipo e do nome da marca trouxemos um padrão para o futuro – saiu esta amálgama conceptual de letras, que contém o nome e gera quase um monograma.

No âmbito dos materiais, o que distingue estas propostas para a próxima estação quente?

[©Portugal Fashion/Ugo Camera]
Fomos revisitar tudo, inclusive o próprio espólio de matérias-primas, de materiais que já fizeram parte de outros momentos da marca e trouxemo-los novamente para esta coleção.

Trata-se de um upcycling?

É um upcycling, é ir de alguma forma àquilo que estava parado e dar-lhe uma nova vida em vez de ir investir em coisas novas. Acho que isso foi importante porque foi um reforço – no fundo, sem que as pessoas saibam, quase só nós dentro da marca é que sabemos, estão aqui inúmeros momentos da marca desde 2002, que foram reinterpretados de uma forma completamente nova. Foi um exercício extremamente gratificante para nós, mas muito trabalhoso também.

Que dificuldades sentiu por estar a trabalhar numa altura de pandemia?

Tudo o que é a parte criativa, tudo o que foi fazer os meetings, reuniões criativas, falarmos, discutir ideias, discutir estratégias, fizemos a partir de casa. Obviamente que a parte de meter as mãos na massa, de ir mexer nos moldes, de reinterpretar, de ir aos tecidos, tudo isso fez muita falta e só o pudemos fazer quando nos foi proporcionado, a todos nós, o desconfinamento.

[©Portugal Fashion/Ugo Camera]
Aí pudemos voltar ao atelier, ao armazém, a uma série de sítios que antes não podíamos porque estávamos fechados em casa e isso também foi obviamente limitador em termos criativos, não termos as coisas para mexer. Somos uma marca que precisa muito de trabalhar o busto, trabalhar o molde, trabalhar a matéria-prima, fazer exploração e isso fez muita falta. Mas fomos dando a volta à situação, em casa, para termos o trabalho mais ou menos adiantado para quando pudéssemos voltar para o atelier e assim conseguirmos apresentar esta coleção em Milão.

Que feedback obteve dessa presença em Milão?

Foi um feedback muito positivo. Aliás, no próprio dia do lançamento do vídeo, no dia 28 de setembro, foi uma enxurrada de clippings e de coisas a acontecer, portanto, o que senti foi que houve, de facto, muita gente atenta. Se calhar este frenesim de andar de semana de moda em semana de moda, que às vezes tira tempo às pessoas, estando elas obrigadas a estar em casa de alguma forma, e sendo só clicar num link para ter acesso às marcas, criou um feedback muito positivo. Foi o que sentimos.

Está igualmente a promover uma parceria com a Sanjo. Como nasceu esta parceria?

Acredito muito nas parcerias e nas sinergias e acho que só com sinergias é que crescemos. A realidade é essa. E nesta questão de parcerias, uns têm um know-how criativo, outros têm um know-how técnico ou ambas as coisas. O que importa é que nós não temos o know-how todo sozinhos e quando nos juntamos com alguém, o trabalho só pode ganhar muito mais força. Desde há muitos anos que acredito nisso e finalmente agora a própria indústria também está aberta a isso – antes não estava tanto. A Sanjo obviamente era uma marca que tínhamos que tocar porque nesta questão das parcerias temos andado numa busca muito grande do que são marcas icónicas portuguesas. Como trabalhamos o internacional, temos muito orgulho e muito gozo em levar marcas nacionais para fora, em vermos que no Japão alguém está a usar não só a nossa marca mas uma parceria que fizemos com alguém português. Isso dá-nos mesmo força e entusiasmo e claro que a Sanjo era obrigatória. Ainda por cima, o calçado é uma coisa extremamente essencial para nós – normalmente tudo o que acontece num desfile, desde acessórios a calçado, é criado por nós – portanto fazia sentido ter um grande parceiro. E acho que a Sanjo teve a visão e tem o know-how para esta parceria. E estou super feliz com o produto final.

Em que se traduziu essa colaboração?

Agora temos um modelo em preto e em branco. Logo a seguir vai ser lançado outro, que foi também mostrado no desfile. Mas neste momento estamos a dar destaque a um modelo, até por causa de todo o statement do próprio padrão que nasceu nesta coleção. Tudo isto foi muito planeado de forma a fazer sentido, porque acho importante que as coisas façam sentido e não sejam confusas – confusão já existe no mundo naturalmente.

[©Portugal Fashion/Ugo Camera]
Estamos super contentes, quer nós, quer a Sanjo, estamos cheios de força, cheios de motivação para que esta parceria se consolide ainda mais e possamos fazer coisas ainda mais incríveis daqui para a frente, porque o feedback tem sido incrível também. O interesse da própria parceria já está solidificado e já temos coisas completamente trancadas que vão acontecer. A vontade de ambas as partes é que as coisas continuem e cresçam.

Antes tinha já apesentado outra parceria, dessa feita com a Decenio, que chegou ao mercado em abril, em pleno confinamento. Como correu em termos de vendas?

A coleção sai precisamente quando começa o confinamento, portanto não tivemos a conjuntura nada a nosso favor, mas não foi por isso que parámos. Tivemos todos os meetings possíveis e imaginários dentro da própria marca e também com a Decenio e criámos imensas coisas para trabalhar o digital. Criámos um editorial dentro da casa de diferentes manequins, fizemos montagens da coleção com histórias digitais para recriar conteúdos e a coleção foi lançada em plena pandemia a nível online. E posso dizer que estávamos à espera que tivesse sido pior, porque o contexto estava mesmo assustador e toda a gente tinha reticências em estar a comprar roupa, mas ainda assim houve corajosos que compraram roupa e que ainda hoje continuam a ir comprar a coleção online e também fisicamente, porque existem duas lojas em Lisboa, e, portanto, as coisas estão a acontecer.

Já disse que gosta muito de parcerias. Há alguma área em particular que lhe falta trabalhar?

Há muitas! Confesso que quando estou a criar, não sei se foi por ter vindo das ciências, vejo-me a criar moda mas ao mesmo tempo parece que estou a ver outras coisas a acontecer na minha cabeça, desde objetos, joalharia, tudo, até porque penso nessas coisas como complementos da marca. Também já tivemos uma loja e mesmo para a própria loja muitas das vezes pensava “o que gostava que estivesse aqui para a decorar?”. São coisas de outras áreas mas que, de alguma forma, entram no meu universo ou no meu modo criativo, portanto, posso dizer que muitas coisas podem entrar nesse universo de parcerias.

Em matéria de negócio, como afetou a pandemia a Alexandra Moura enquanto marca?

Acho que todos fomos afetados. O simples facto de termos ficado em casa e da moda não ser um bem essencial, afetou todos e obviamente que todos tivemos quebras de vendas. Mesmo a nível do próprio showroom, ainda conseguimos fazer o de homem em janeiro e ainda conseguimos ter vendas de homem, mas de senhora, por exemplo, foi mais complicado. Depois do desfile em Milão ter sido cancelado, ainda fomos para o showroom em Paris, mas muitos compradores já não estavam a viajar e, portanto, foi um bocadinho mais complicado nesse sentido.

[©Portugal Fashion/Ugo Camera]
Mas não sei se é por sermos marcas mais pequenas e muito resilientes e habituadas a muitas adversidades, e também ao facto de vivermos em Portugal, que nos faz ultrapassar os obstáculos. É mais um momento anormal nas nossas vidas, então vamos ultrapassá-lo. Claro que houve, a nível de negócio, momentos para repensar e o online, se já tinha importância, teve agora ainda mais.

Em termos geográficos sentiu mais impacto em algum mercado específico?

Foi tudo um bocadinho generalizado. O que posso dizer é que o mercado asiático, como eles são tão ávidos de informação e de moda e como também a nossa marca não é mass market, é de nicho, esse público ainda continua a comprar, ainda continua a querer as coisas. Portanto, sente-se que eles estavam com sede de voltar a uma certa normalidade para continuar aquilo que eles são e que os caracteriza também.

Quanto a segmentos, homem e mulher, como tem sido a evolução?

A marca tem um maior peso na coleção, em percentagem, de coordenados de senhora, mas o que andamos a sentir é que o mercado de homem está em franca expansão e está a ser super aliciante trabalhar o homem. Neste momento, o homem está mesmo com vontade de usar, de arriscar, de ser individual na sua identidade, e está a ser muito gratificante trabalhar o homem. Atualmente acaba por ser um meio/meio, mas estamos a sentir o homem a crescer, a explodir.

Que metas estabelece para a marca, a curto e médio prazo?

Esta coleção obviamente vai ser muito trabalhada a nível digital e vamos tentar que a nível do online se aprofunde. Estamos com o nosso showroom de Paris, que também está a ser online, mas não sabemos resultados porque o online trouxe uma lentidão diferente de quando é aquela Semana de Moda em Paris, em que os compradores vão naquele dia e só têm aquele dia. Aqui as coisas estão a ser muito mais longas. Mas vamos continuar a trabalhar isso claramente. Como gabinete criativo, trabalhamos e adereçamos vários projetos, estamos com vários projetos em mãos para trabalhar até ao final do ano e outros vão surgir no próximo ano.

Alexandra Moura [©Portugal Fashion/Ugo Camera]
Queremos continuar a trabalhar a internacionalização porque a nossa marca é muito bem recebida lá fora – sentimos que já está a haver uma maior recetividade à marca e uma maior curiosidade, mesmo nacionalmente, mas o nosso foco é muito o internacional e é nisso que vamos continuar a trabalhar. E esperemos que tudo corra bem para em fevereiro estarmos novamente em Milão, seja presencial seja digitalmente, e continuarmos o nosso caminho a traçar com a coleção a solidificação e a consolidação lá fora mas também a abraçar os nossos projetos todos, que nos estimulam muito ao longo do ano.

Esses projetos são na moda?

São na moda, mas com diferentes clientes e diferentes situações dentro da moda. Mas também acho que podem surgir coisas fora da moda.