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AEP dá palco à sustentabilidade

Dedicado à Indústria e Sustentabilidade, o Congresso Portugal Empresarial sob a chancela da AEP abordou temas como a competitividade, a capacidade de inovação e a transição energética. No final, atribuiu cinco prémios, dois dos quais a empresas da ITV: a TMG e a Mundotêxtil.

Paulo Ferreira, João Matos Fernandes, Ana Tavares e João Freitas

O Congresso Portugal Empresarial, realizado pela AEP na última sexta-feira, reuniu um conjunto de políticos, empresários e especialistas na Exponor para debater temas como a reindustrialização e a sustentabilidade. «A Associação Empresarial de Portugal pôr como tema central do seu congresso a sustentabilidade é um sinal de mudança», acredita Ana Tavares, coordenadora da agenda estratégica para a sustentabilidade e economia circular do CITEVE, que esteve presente no segundo painel do congresso, dedicado precisamente ao desafio da sustentabilidade.

Mais do que estratégias, que já existem, Ana Tavares considera que a sensibilização da população, e das empresas, será o mais importante. «Estas questões de sustentabilidade, independentemente de estarmos a falar da transição energética, da economia circular, de questões de reciclagem, etc., começam e acabam em nós», referiu, acrescentando que «estas conversas são importantes, mas mais importante é o que vem a seguir, é que haja uma forma prática de aplicar os conceitos da estratégia de sustentabilidade dentro das nossas organizações».

Ao Portugal Têxtil, a coordenadora da agenda estratégica para a sustentabilidade e economia circular do CITEVE sublinhou que «estamos a entrar numa fase distinta, a da aplicabilidade prática. E é aí, muitas vezes, que se cometem erros, porque continuamos a discutir e a querer aplicar mecanismos que, de alguma forma, são assentes em pressupostos globais, quando cada empresa tem os seus desafios específicos. Portanto, acho que o que é, efetivamente, relevante é cada organização olhar para dentro da si e perceber quais são as mudanças específicas que tem que tomar».

E as mudanças têm de ser urgentes, não para salvar o planeta, mas para nos salvarmos, salientou João Matos Fernandes, ex-Ministro do Ambiente. «Quem anda há 30 anos a dizer que quer salvar a Terra é um disparate. Não se preocupem que a Terra não precisa do nós para nada. Pode até nenhum de nós estar cá e não haver oxigénio. Vai continuar a haver Terra. Mas se nos queremos salvar, temos que necessariamente reduzir as emissões carbónicas que enviamos para a atmosfera cada dia», afirmou, voltando a frisar, como fez já em diversas intervenções, que ambiente e crescimento económico não têm de ser «faces opostas de uma mesma moeda», sobretudo em Portugal. «Tendo nós a felicidade de termos água, sol e vento para produzir 100% da eletricidade que consumimos, não consigo entender nenhuma razão para importarmos o que nos faz mal e é mais caro. E é esta manifestamente a grande conclusão que a guerra nos mostrou», considera, acrescentando que para processos industriais com maior intensidade energética, será

Elisa Ferreira

necessário recorrer a gás. «Não tendo nós gás natural e tendo nós a possibilidade de criar e produzir gases renováveis, uma vez mais deve ser essa a nossa aposta», referiu, lembrando que recentemente Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, falou na criação de um “banco de hidrogénio”.

Uma nova forma de ver a indústria europeia

Também Elisa Ferreira, Comissária Europeia para a Coesão e Reformas, expôs, na sua intervenção, os riscos atuais, como as alterações climáticas, e a exigência de «rever em profundidade o nosso modelo de consumo e de produção e pensar, de uma forma mais estratégica, as nossas economias», enfatizando a premência cada vez maior do chamado Pacto Verde para a Europa, ou Green Deal, que tem como objetivos poupar energia, substituir os combustíveis fósseis por energias renováveis, mas também encurtar as cadeias de valor e, dessa forma, reduzir a dependência europeia. «Há uma panóplia de áreas onde claramente a UE mudou radicalmente de atitude e diz “nós queremos desenvolver estrategicamente estas áreas, são essenciais para a nossa sobrevivência”», apontou, dando como exemplos as baterias, o hidrogénio “verde” ou os artigos para a área da saúde.

Paulo Portas

Paulo Portas, atualmente professor de geoeconomia e relações internacionais na Nova SBE, reforçou, contudo, a necessidade de se abordar a “desglobalização” de uma forma cautelosa.  «Ter mercados abertos é a melhor forma de ultrapassar uma crise. Mas fragmentar a globalização é um risco enorme. Em vez de fazer negócios com os meus clientes, faço negócios com os meus amigos. E isso significa perder negócio. Não temos, em Portugal, grande vantagem em que a economia mundial fique dividida em dois blocos políticos, os EUA e a China», frisou.

Também António Rios Amorim, presidente da Corticeira Amorim, duvida da capacidade da Europa de «fazer o que deixou de fazer», afirmando que «na indústria, tenho dificuldade em imaginar que a gente traga para a Europa o que fomos subcontratar à China».

António Costa, Miguel Gil Mata, António Rios Amorim e Pedro Siza Vieira

Já no que diz respeito a Portugal, Miguel Gil Mata, CEO da Sonae Capital, considera que a especialização deve ser a estratégia. «Não podemos disparar para todo o lado», considera, acrescentando que «temos de ser capazes de prescindir de algumas boas escolhas para focarmos a nossa energia e recursos em escolhas muito boas. Só assim podemos aspirar a ter alguma escala em algum nicho», acredita.

Pedro Siza Vieira, ex-Ministro da Economia, considera, no entanto, que «vai continuar a haver reindustrialização na Europa».

Associação reclama mais apoios

Apoiar as empresas nesse processo é, porém, fundamental, sobretudo face à situação atual, considera Luís Miguel Ribeiro, presidente da AEP, que no seu discurso de abertura enumerou os desafios que as empresas enfrentam neste momento, onde se incluem

Luís Miguel Ribeiro

constrangimentos nas cadeias de distribuição, aumento do preço das matérias-primas, dos transportes e da logística e uma forte instabilidade no sector energético, que tem agravado os preços dos combustíveis, da eletricidade e do gás natural. «Nas empresas, destaco, em particular, o impacto na indústria transformadora, por ser um sector duplamente exposto: quer pelo peso que representa no consumo energético da economia portuguesa, quer pela concorrência global e feroz que enfrenta por ser, por excelência, um sector de bens transacionáveis internacionalmente», realçou.

As medidas apresentadas pelo Ministro da Economia e do Mar, António Costa e Silva, no dia anterior «correspondem a preocupações que temos vindo a apresentar, mas são manifestamente insuficientes e estão desajustadas face à urgência da sua implementação. Deviam também fazer parte deste conjunto de medidas, apoios à capitalização e uma redução da carga fiscal excessiva, face à folga orçamental existente», apontou Luís Miguel Ribeiro.

Prémios para a ITV

Numa «simbólica, mas muito merecida homenagem aos empresários», como descreveu Luís Miguel Ribeiro, a AEP atribuiu ainda, no final deste congresso, cinco prémios a empresários e empresas que, na perspetiva da associação e do júri – composto por José António Barros, presidente da mesa da assembleia-geral da AEP, Alberto Castro, presidente do conselho fiscal da AEP, Miguel Pinto, presidente do conselho consultivo da AEP, António de Sousa Pereira, reitor da Universidade do porto, Isabel Braga da Cruz, presidente do centro regional do Porto da UCP, e Luís Portela, presidente da Fundação Bial – se destacam no tecido empresarial nacional.

Helena, José e Ana Pinheiro

Dois desses prémios foram para empresas da indústria têxtil e vestuário: o prémio carreira para empresas foi atribuído à TMG, enquanto o de exportação e internacionalização foi entregue à Mundotêxtil. «Ficámos extremamente contentes, como é óbvio», afirmou, ao Portugal Têxtil, Ana Pinheiro, administradora da empresa de têxteis-lar, que acredita que os bons resultados ao nível da exportação e internacionalização se devem «ao trabalho que andamos a fazer nestes anos todos, um trabalho muito intenso junto dos clientes, e à reputação que a Mundotêxtil tem e que sentimos que tem sido um fator decisivo para que alguns clientes, que tinham procurado outros fornecedores, tenham voltado, em 2022, a comprar na Mundotêxtil».

Luís Amorim Martins, da Conduril, recebeu o prémio carreira empresário, a Amorim Cork levou para casa o prémio empresa sustentável e a Palbit foi galardoada com o prémio inovação PME.