Início Notícias Moda

Afinal quão poluente é a indústria da moda?

O objetivo de tornar a indústria da moda mais limpa afigura-se como uma tarefa intimidante, sobretudo tendo em conta que é difícil determinar quão poluente é a indústria da moda. Contudo, todos os estudos apontam para a necessidade de melhorar a eficiência, tanto da água como da energia e dos materiais.

[©Hippo]

Lewis Perkins, presidente do Apparel Impact Institute (Aii), equipara o «objetivo intimidante» da indústria da moda de alcançar emissões zero a «construir um avião enquanto estamos a voar».

No lançamento do “Roadmap to Net Zero”, um novo relatório que procura reunir a colaboração necessária para reduzir para metade as emissões de carbono do sector até 2030 e eliminá-las até 2050, como recomendado pela atualizada Carta da Indústria da Moda para a Ação Climática das Nações Unidas, Perkins assumiu, citado pelo Sourcing Journal, que «temos muito que fazer para começar».

Juntamente com o World Resources Institute (WRC), a Aii identificou várias «intervenções» ou «alavancas» que podem conduzir a mais de 60% das reduções necessárias para limitar o aumento da temperatura global a 1,5 ºC acima dos tempos pré-industriais, incluindo maximizar a eficiência dos materiais, escalar materiais e práticas sustentáveis, melhorar a eficiência energética, acelerar o desenvolvimento de materiais de “próxima geração”, fazer a transição para eletricidade renovável e eliminar o carvão na produção.

Só uma mudança de 50% para uma fonte de energia térmica e elétrica com emissões carbono zero pode poupar 105 milhões de toneladas de equivalente de dióxido de carbono. Mudar para 100% energia renovável em toda a produção dos níveis 1 a 3 pode eliminar 424 milhões de toneladas.

À medida que o medo e a urgência em torno da crise climática continuam a crescer, marcas, retalhistas e fornecedores enfrentam uma pressão crescente para descarbonizar as suas cadeias de abastecimento. Há três anos, apenas uma dúzia de empresas de vestuário e calçado tinham aprovado metas baseadas em ciência ou assumido compromissos para os definir. Hoje, são mais de 100.

«Sabemos o que temos de fazer, mas não sabemos como lá chegar, e por isso decidimos trabalhar em conjunto para divulgar este roteiro para reunir o melhor que sabemos sobre como a indústria pode cumprir estas metas ambiciosas», revelou Michael Sadowski, consultor da WRI e coautor do relatório. «E é um bom timing com a COP26, porque vemos todos estes compromissos e está mesmo na hora de agirmos».

Dados diferentes

Utilizando dados da Higg Co, da Sustainable Apparel Coalition e da Textile Exchange, o relatório avaliou as emissões da indústria da moda em 2019 em pouco mais de uma gigatonelada de equivalente de dióxido de carbono, ou seja, cerca de 2% da produção anual de gases com efeito de estufa do mundo. Embora a estimativa seja consideravelmente inferior ao intervalo entre 4% e 10% sugerido por estudos anteriores, Sadowski afirmou que ninguém pode realmente «ter a certeza» de quão poluente é o sector, porque diferentes análises podem usar conjuntos de dados ou pressupostos díspares.

No entanto, se nada for feito, a Aii e o WRC estimam que as emissões da indústria irão aumentar para 1,6 gigatoneladas até 2030, o que está «bem fora» do objetivo de conseguir a redução de 45% necessária para limitar o aquecimento a 1,5 graus Celsius.

[©Flickr]
«Os dados são imperfeitos e, portanto, a nossa estimativa deve ser vista como uma direção», referiu. «Mas acreditamos que, usando dados da Higg e da Textile Exchange, estamos a usar dados amplamente aceites que são mais utilizados pelos participantes do sector [e] que vão melhorar com o tempo, [uma vez que] o [Materials Sustainability Index] e o Facility Environment Module estão pensados para serem melhorados à medida que os fornecedores medem as pegadas ambientais dos seus materiais e processos», acrescentou.

«É um pouco óbvio de constatar, mas sem dados primários a 100% provenientes de todas as instalações fabris do planeta, não há como obter o número real que todos querem», sublinhou Perkins. «Mas a melhor forma de lá chegar é continuar a apostar nas ferramentas que temos que recolhem esses dados primários», indicou.

A falta de informação de qualidade também não deve impedir a indústria de sinalizar focos de emissão ou de trabalhar para mitigar o seu impacto.

«O que é realmente interessante é que se olharmos para todos esses relatórios, a ação que dizem à indústria para assumir é a mesma», salientou Emily McGarvey, que lidera a estratégia e o envolvimento dos stakeholders na Aii. «Dizem para olharem para a eficiência, para as energias renováveis e para os materiais preferíveis. E, como tal, isso não deve ser perdido, mesmo que os números possam ser diferentes na base», acrescentou.

O que é importante, considera Emily McGarvey, é que a indústria trabalhe em conjunto para aumentar os investimentos. «Uma coisa que ficou claro para mim é que não há uma solução mágica; não há uma alavanca que se possa puxar e, por isso, seja nisso que nos podemos concentrar. Não é como se estivéssemos numa organização e nos focássemos nas renováveis ou estamos numa organização e vamos focar-nos em materiais. Temos mesmo de nos concentrar em todas as alavancas», sublinhou.

Ainda assim, a Aii está a concentrar atualmente os seus esforços de melhoria da água, energia e produtos químicos em fábricas com processos a húmido, como fábricas têxteis, por uma boa razão. Mais de metade (52%) das emissões de carbono de uma cadeia de abastecimento são geradas pelo nível 2, ou produção de materiais, de acordo com o relatório anual da organização de 2020, publicado em outubro. Segue-se o nível 4 (extração de matérias-primas), com 34%, o nível 3 (processamento de matérias-primas), com 15%, e o nível 1 (montagem de produtos acabados), com 9%.

Investimentos rentáveis

Um estudo recente que a Aii produziu em colaboração com o think tank financeiro Planet Tracker concluiu que um investimento único para melhorar a pegada ambiental das instalações de processamento a húmido pode reduzir o uso da água em 11,5% e a produção de gases com efeito de estufa em 10,8%, além de poupar uma média de 369.500 dólares (cerca de 322.763 euros), com um período de retorno inferior a 14 meses.

Muitas vezes fáceis de implementar, mudanças como a instalação de contadores, a reutilização de águas residuais e de águas de arrefecimento, a manutenção dos captadores de vapor e a melhoria do isolamento podem gerar reduções significativas no consumo de água e de energia e nas emissões de gases com efeito de estufa, o que equivale a uma poupança de 6,1 mil milhões de dólares por ano, refere o estudo. Com base num período de pagamento de 10 anos e num investimento médio de 455.000 dólares por instalação de processamento a húmido, o valor atual da poupança ultrapassa os 25 mil milhões de dólares, acrescenta.

Ao mesmo tempo, a falta de consciência, acesso ao conhecimento, os instrumentos de financiamento e a pressão regulatória e dos consumidores significam que tais melhorias se arrastaram, criando uma «enorme oportunidade» para os investidores assumirem a liderança, acredita Catherine Tubb, analista sénior de investimentos da Planet Tracker e autora do estudo.

[©Max Pixel]
«É muito fácil falar de riscos, mas como é que fazemos com que as pessoas invistam? É através de oportunidades e da capacidade de ganhar dinheiro. Estas oportunidades realmente boas, com prazos de retorno muito rápidos, são, na verdade, uma oportunidade para os mercados financeiros», refere ao Sourcing Journal.

As marcas e os retalhistas também podem ajudar a colmatar a lacuna, através da emissão de obrigações com rótulo ESG, tais como obrigações ligadas à sustentabilidade ou outras obrigações verdes, sociais ou sustentáveis. Podem cultivar relações a longo prazo com os fornecedores para lhes permitir assegurar o financiamento, bem como impulsionar uma transparência ambiental «ativa e consistente» das suas operações e dos seus fornecedores.

«Esta é uma oportunidade real para fazer dinheiro com risco muito baixo», acredita Catherine Tubb. «Água, energia, produtos químicos, resíduos — estão todos interrelacionados. Se quiser reduzir a quantidade de água que utiliza, poderá ter de aumentar a quantidade de energia. Se quiser reduzir a quantidade de produtos químicos que usa, tem de aumentar a quantidade de água. Por isso, de repente torna-se um problema muito mais multifacetado. E acho que a indústria financeira não compreende isso ainda, [mas] acho que estão a chegar lá», conclui.