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África do Sul a uma só voz

Há uma consciência crescente entre os retalhistas sul-africanos sobre a necessidade de colaborarem mais estreitamente com a indústria têxtil e vestuário do país, como forma de impedir o fortalecimento dos gigantes da moda globais neste que é o mais lucrativo mercado do continente africano.

As importações de vestuário de baixo custo produzido na China quase aniquilaram as confeções sul-africanas, mas o sector começou a recuperar depois do governo ter investido mais de 149 milhões de dólares na melhoria das linhas de produção e em tecnologia de ponta.

No entanto, a maior parte do vestuário vendido na África do Sul por marcas locais como The Foschini Group, Truworths, Mr Price e Edcon é produzida no continente asiático. A indústria têxtil e vestuário (ITV) sul-africana prevê um aumento da concorrência proveniente de marcas globais como a Zara e H&M, à medida que estas se expandem num mercado cujo valor aumentou para mais de 15 mil milhões de dólares no final de 2014, face a 8 mil milhões de dólares em 2001.

Figurando entre os consumidores mais conscienciosos face às marcas do continente africano, os agregados familiares sul-africanos despenderam uma média de 5,3%, ou 42 dólares, do seu rendimento mensal em vestuário e calçado em 2014, um valor superior à média gasta com a educação, fixada em 27 dólares mensais, revelou o Gabinete de Pesquisa de Mercado da Universidade da África do Sul. Nas cidades empobrecidas do país, habitadas por uma maioria negra, as tendências de moda são uma presença assídua no quotidiano das populações.

«Se formos capazes de trazer matérias-primas necessárias à fabricação de produtos altamente procurados mais rapidamente do que os restantes concorrentes, isso é benéfico para o nosso negócio, para a indústria produtora local e para os nossos clientes», afirma Graham Choice, diretor do centro de produção e design da Foschini.

Fast fashion

A Zara estreou-se na África do Sul há quatro anos e detém hoje seis lojas. A cadeia australiana Cotton On descreveu o país como o seu mercado de mais rápido crescimento, enquanto as marcas britânicas Top Shop e Forever 21 se estabeleceram recentemente no território.

A H&M irá inaugurar uma nova loja no próximo mês. Com 4.700 metros quadrados, o outlet localizado no centro comercial V&A Waterfront, na Cidade do Cabo, será um dos maiores da cadeia sueca, que planeia inaugurar um outro espaço em Joanesburgo em novembro.

A Inditex, que estreou o conceito de uma constante produção de novos estilos em fábricas próximas aos seus principais mercados – batizado fast-fashion – expede novas peças de vestuário provenientes de fornecedores localizados em Portugal, Turquia e Espanha. A H&M, que produz a maioria das suas peças de vestuário na Ásia, deverá adotar uma abordagem similar.

«Os sinais de que seremos capazes de conquistar quota de mercado estão lá, mas temos de mudar», afirma Justin Barnes, presidente da B&M Analysts, que aconselha o governo e a indústria do vestuário da África do Sul.

Como forma de defenderem a sua quota de mercado, os retalhistas sul-africanos devem aproveitar a rapidez a que os fornecedores locais podem colocar as roupas no mercado, sustentam os analistas.

O Grupo Foschini pretende cooperar mais estreitamente com os fornecedores locais e cerca de 65% do seu vestuário feminino é agora confecionado na África do Sul.

Algumas fábricas sul-africanas podem colocar vestuário novo em loja no prazo de 32 dias e a maioria pretende estreitar o limite máximo de 42 dias, embora este ritmo seja ainda lento face ao adotado pelo mercado da fast-fashion.

A Inditex afirma que, em alguns casos, dependendo da disponibilidade de tecidos e da complexidade da produção da peças de vestuário, consegue efetuar todo o processo, do design à loja, em menos de duas semanas.

Fundamentos preferenciais

A África do Sul tem ainda cerca de 900 fábricas de vestuário, pouco mais de metade do número estimado de 1.600 unidades de produção registadas no pico da indústria em 1996.

De 2010 a 2014, a produtividade aumentou 36%, enquanto o número de funcionários empregados na indústria têxtil, vestuário, calçado e couro subiu para 88.657 nos 12 meses terminados em março de 2015, face a 87.386 no ano anterior. Este valor está ainda muito longe do pico de 228.000 postos de trabalho contabilizados em 1996, antes das importações chinesas terem começado a afetar a produção local.

Porém, ao atuais aumentos salariais na China e uma moeda local mais fraca, que alcançou um mínimo histórico de 14 rand para um dólar em setembro, começam a favorecer a produção de vestuário na África do Sul. «Fundamentalmente, a moeda mudou a paisagem por completo. A tendência de longo prazo indica que esta deverá enfraquecer e, dado esse facto, os retalhistas querem estar predispostos a um ambiente no qual são beneficiados e não sancionados», explica Abdul Davids, diretor de pesquisa da Kagiso Asset Management.

Não tendo em conta as despesas de transporte e tarifas de importação, uma fábrica sul-africana produz uma t-shirt de algodão por pouco menos de 2 dólares, em comparação com 1,12 dólares na Turquia e 50 a 80 cêntimos do dólar na China, aponta Davids.

A maioria dos contratos estabelecidos com fábricas de vestuário asiáticas é efetuada em dólares americanos, impulsionando a competitividade relativa das fábricas sul-africanas quando o dólar valoriza.

As marcas globais poderão eventualmente sentir-se tentadas a aprovisionarem-se localmente. A H&M, que pondera já adquirir vestuário produzido na Etiópia, afirmou não ter planos para fabricar na África do Sul, mas não descarta essa possibilidade no futuro. Quando questionada sobre uma eventual produção em fábricas sul-africanas, a Inditex disse apenas que o seu vestuário é fabricado por fornecedores mais adequados, independentemente do mercado final.

Neste momento, os fabricantes de vestuário sul-africanos esperam que mais retalhistas do país recorram à produção doméstica como forma de fortalecer a posição das entidades internas face às grandes marcas globais. «O pior já passou, para nós e para a indústria, e estamos a avançar, impulsionados pela fast fashion. Este é um momento entusiasmante», conclui Sam Schaffer, diretor da Rotex Fabrics, uma fábrica têxtil na província do Cabo Ocidental, o coração de indústria de vestuário da África do Sul.