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África do Sul atrai retalho

Apesar da degradação da situação económica no país, causada por um excesso de endividamento dos consumidores, menor procura por matérias-primas e desvalorização do rand, a África do Sul continua a ser atrativa para os grandes retalhistas internacionais, como prova o novo centro comercial Mall of Africa.

Milhares de consumidores fizeram fila no passado dia 28 de abril na abertura de um dos maiores centros comerciais na África do Sul, instalado num subúrbio de classe média entre Joanesburgo e Pretória. O Mall of Africa tem 300 lojas, incluindo marcas como a Zara, H&M, Cotton On e Starbucks. O centro comercial pretende atrair o crescente número de jovens consumidores na economia mais desenvolvida de África, que tem prosperado com a procura por matérias-primas.

Mas a abertura surge numa altura em que a economia está a piorar com o aumento das taxas de juro e dos preços a pressionarem o consumo, ao mesmo tempo que a procura por exportações como ouro e outros metais está em queda. A incerteza política também afetou o câmbio do rand, tornando as importações mais caras e os investidores nervosos.

As vendas a retalho mantiveram-se robustas, contudo, ultrapassando as expectativas em fevereiro, e os retalhistas no centro comercial mostram-se otimistas. «Vemos muito potencial na África do Sul e em África… Esta é a terceira loja flagship que abrimos em seis ou sete meses», revela Amelia-May Woudstra, relações públicas na H&M South Africa. «Vamos abrir mais três lojas para o final do ano», acrescenta.

Os centros comerciais brotaram um pouco por toda a África do Sul, criando milhares de empregos. Mas estão a surgir num cenário de crescentes níveis de dívida. Quase metade de todos os sul-africanos ativos em termos de crédito, o equivalente a 9,9 milhões de pessoas, estão sobreendividados, segundo a empresa de aconselhamento de dívida Debt Rescue, e o número vai aumentar à medida que as taxas de juro e a inflação sobem, enquanto a economia abranda.

As vendas a retalho cresceram 4,1% em termos anuais em fevereiro, mas deverão abrandar.

O Tesouro espera que a economia aumente 0,9% este ano, uma descida face ao crescimento de 1,3% em 2015, e o banco central do país deverá aumentar as taxas de juro para lidar com a inflação que tem sido causada por um aumento dos salários, desvalorização do rand e aumento dos preços dos produtos alimentares depois da pior seca em décadas.

O banco subiu o valor de referência das taxas para empréstimos em 200 pontos base nos últimos dois anos e os analistas antecipam um aumento das taxas até ao final do ano, acima dos 7% atuais. «O aumento das taxas de juro e dos salários mais baixos vão limitar a capacidade dos empregados de gastarem. Uma má notícia para a venda de produtos de preços mais altos, como automóveis e mobiliário. É provável que os retalhistas tenham dificuldade em conseguir um crescimento real nos próximos meses», indica Mike Schüssler, economista-chefe na Economists.co.za.

Isto pode ser uma má notícia para os centros comerciais como o Mall of Africa, instalado no subúrbio de Midrand, onde vivem muitos dos consumidores da nova classe média, a cerca de 20 quilómetros da sua rival mais próxima.

«Os bons centros comerciais vão ter bons resultados, mas há o risco de que tenha havido demasiada construção na África do Sul. Há muito espaço de retalho na África do Sul. Será que faz falta mais um centro comercial deste tamanho na África do Sul? Não tenho a certeza», afirma Reuben Beelders, gestor de portefólio da Gryphon Asset Management.

Mas com os mercados maduros a abrandar, os retalhistas estão à procura de qualquer localização que ofereça um retorno maior. A Zara abriu a sua primeira loja na África do Sul em 2011, seguida da cadeia australiana Cotton On, da britânica Topshop e da Forever 21 e, mais recentemente, da H&M.

A Cotton On indicou no final de abril que a África do Sul é o mercado com o crescimento mais rápido do grupo e pretende duplicar o seu negócio no país nos próximos três anos, para 350 lojas. «As nossas operações na África do Sul registaram um crescimento a dois dígitos todos os meses desde que abrimos a nossa primeira loja em 2011. A região é a principal contribuidora para atingir o nosso objetivo de crescimento de 20% ao ano», revela Johan van Wyk, country manager do grupo Cotton On na África do Sul.

Atraídos pelas promoções da inauguração das suas marcas mundiais favoritas, os consumidores no novo centro comercial não mostraram sinais de preocupação. «Parece que este centro comercial vai ser um sucesso, apesar das coisas não estarem assim tão bem», confirma Christa Noi, de 25 anos, gestora de escritório em Joanesburgo.