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África floresce na produção de vestuário

As potencialidades na produção de vestuário de África estão finalmente a dar frutos, depois de anos de potencial adormecido. Motivado, em parte, pelo desejo das empresas em diversificar a estratégia de produção à luz da guerra comercial entre os EUA e a China, juntamente com as limitações e riscos de outros países fornecedores, um grupo de nações africanas esta a emergir como uma opção viável no mapa do aprovisionamento.

A importação de vestuário de países da Africa Subsariana por parte dos EUA aumentou 17,97% para 659,71 milhões de dólares (cerca de 575 milhões de euros), até julho, quando comparado com igual período de 2017, de acordo com o OTEXA – Office of Textiles & Apparel do Departamento de Comércio. Estes números resultam, em parte, do AGOA – African Growth and Opportunity Act. Margaret Waithaka, diretora da promoção comercial e do AGOA no polo de investimento e comércio da África Oriental, revela que o vestuário é o produto não petrolífero mais exportado sob a alçada da AGOA nos sete estados da África Oriental que este programa apoia. «O nosso centro tem vindo a trabalhar com o sector privado, as associações comerciais, os organismos de certificação e Governos nacionais para expandir as exportações ao mercado global e, particularmente, aos EUA, sob a AGOA, que concede um acesso livre de impostos a 6421 linhas tarifárias, incluindo vestuário, têxteis-lar, artigos de viagem e calçado», explica Waithaka.

Steve Lamar, vice-presidente da American Apparel & Footwear Association acredita que África «vai tornar-se mais importante como destino de sourcing nos próximos anos». «Há muito tempo que sentimos isso, numa indústria que está sempre à procura de algo novo… Há poucos lugares que ainda não estão explorados. Quando se olha para Africa, há um muito potencial por descobrir», afirma Lamar. Além disso, está o «surpreendente caos no aprovisionamento que a guerra comercial com a China esta a causar». «Há muitas empresas que, atualmente, dizem coisas como “falei durante anos sobre diversificar, agora tenho mesmo de o fazer”. As empresas estão a tentar desenvolver estratégias de compra mais vastas, que estão a deslocar a produção e as cadeias de aprovisionamento da China para outros lugares. Sempre que conversamos com empresários, os países africanos são mencionados», acrescenta.

Steve Lamar sublinha que, enquanto a produção africana ainda é emergente em muitos sentidos, há grupos de vários países que começam a estabelecer-se. O responsável também constata que, embora os números sejam muito pequenos, por exemplo, «o Vietname foi outrora um pequeno fornecedor e o Bangladesh também já foi pequeníssimo», ambos são agora locais fundamentais para a produção de vestuário de vários países.

Egito lidera, Etiópia é a estrela

Em termos de tamanho e experiência, o Egito (ver Egito cultiva o renascimento do algodão) lidera enquanto fornecedor continental, com as importações de vestuário do país do norte de África por parte dos EUA a aumentarem 16,33%, até 480,18 milhões de dólares. No que diz respeito a potencial e ritmo de crescimento, a Etiópia é a estrela, com os EUA a importar mais 106,69% de produtos, atingindo os 55,02 milhões de dólares este ano (ver «Etiópia atrai novos investimentos»). «A Etiópia, na década passada, implementou um plano de promoção de investimento agressivo tendo como foco os investidores asiáticos nos têxteis e vestuário», revela Margaret Waithaka. «Esta promoção coincidiu com o desenvolvimento de grandes parques industriais com as infraestruturas necessárias para a produção de têxteis e vestuário, juntamente com uma política de apoio para desenvolver uma indústria têxtil com base no algodão. Isto atraiu o interesse de grandes compradores como a PVH Corp. e a H&M que, mais tarde, estabeleceram serviços de aprovisionamento na Etiópia», esclarece.

A PVH Corp. foi selecionada como uma das duas vencedoras do prémio da Secretaria de Estado dos EUA para Corporate Excellence de 2018, uma iniciativa que reconhece as empresas norte-americanas que mantêm os padrões elevados em termos de responsabilidade social e corporativa. A PVH recebeu o premio Sustainable Operations como investidor líder na unidade de produção de vestuário com soluções de ponta instaladas em Hawassa, na Etiópia. «Estamos numa posição única para causar um impacto positivo em lugares de todo o mundo», reconhece Emanuel Chirico, presidente e CEO do PVH Corp. «Um desses lugares é a Etiópia, onde demoramos cerca de cinco anos a criar uma indústria de produção de vestuário sustentável e vertical», aponta.

Estima-se que o Parque Industrial de Hawassa resulte na criação de 60 mil postos de trabalho, dentro de poucos anos, e contará com maquinaria de última geração, voltada para práticas amigas do ambiente. A Zero Liquid Discharge, estação de tratamento de resíduos do Parque, recicla mais de 90% das águas residuais produzidas, o que ajuda a preservar o Lago Hawassa, que serve o sistema de abastecimento de água à comunidade e é o centro do ecossistema local. «A Etiópia tem grandes potencialidades para oferecer uma solução integrada de aprovisionamento de vestuário, que, com uma mão-de-obra acessível, poderá ultrapassar custos historicamente altos na logística e uma força laboral inexperiente», considera Margaret Waithaka. «Estão em vista outros parques indústrias para Kombulcha e Dire Dawa», adianta.

Tanto Waithaka como Lamar realçam que há outros países africanos a fazerem-se notar. Os envios de mercadoria a partir do Quénia subiram 16,44%, para 212,69 milhões de dólares até julho, enquanto as exportações do Lesoto aumentaram 8,05%, para 164,41 milhões. Já os envios do Madagáscar cresceram 27,74%, para 106,2 milhões de euros e os de Marrocos 65%, para 77,08 milhões. Numa escala mais reduzida, as exportações da Tanzânia aumentaram 1,58%, para 22,27 milhões, enquanto as do Gana cresceram 70,26%, para 7,6 milhões de dólares.

Margaret Waithaka admite que o crescimento do Madagáscar teve que ver com o seu restabelecimento como exportador competitivo elegível pela AGOA, em 2014. O Madagáscar já exporta com sucesso para a Europa e a expansão até aos EUA foi relativamente fácil, devido à mão de obra economicamente viável e aos seus trabalhadores com qualificações superiores. «Apesar deste sucesso geral, alguns indicadores sugerem que certos exportadores de vestuário da África Oriental podiam estar numa posição melhor», acredita Waithaka. «Alguns países de maior dimensão e com mais experiência estão a deparar-se com esta competitividade e as suas exportações têm estagnado e até, em alguns casos, descido. A nivelação destas exportações revela a necessidade de os maiores protagonistas destes países reconhecerem qual a sua proposta mais atrativa para os compradores dos EUA e identificarem o comprador que está disposto a comprar não ao preço mais baixo, mas o que está disposto a pagar um valor melhor», assegura.

EUA já reconhece valor africano

A administração de Donald Trump já tomou nota do potencial de África em termos de comércio. Na sequência de um estudo entregue ao Congresso no final de junho, o representante do comércio dos EUA, Robert Lighthizer, avançou que a administração quer agir rapidamente para iniciar conversões sobre um acordo de livre comércio que vá alem do AGOA. «O AGOA criou uma estrutura importante para o nosso envolvimento económico ao longo das últimas duas décadas, mas, em 2025, quando a expirar, terá um quarto de século de idade e não podemos prever o que irá acontecer nessa altura», referiu.

Deste modo, Lighthizer avisou que se deve «aproveitar o momento» e procurar um novo e inovador acordo «para o futuro das trocas comerciais entre os EUA e África». «O acordo deve reconhecer que a África Subsariana é muito diferente em 2018 do que era em 2000, quando o AGOA foi criado. Acreditamos que existem países em África que estão prontos para seguir em frente, de beneficiários do AGOA para parceiros do acordo de livre comércio com os EUA», admitiu.

Entretanto, a comissão para implementação dos cordos têxteis aumentou as taxas nas importações livres de impostos e quotas de artigos de vestuário e tecidos agregados de países terceiros sob o AGOA. Para vestuário elegível exportado de países do AGOA para os EUA, as taxas vão subir 1,3% no ano fiscal de 2019, em relação ao valor deste ano.