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África lucra com China

Os países africanos exportadores de vestuário estão a lucrar com o aumento dos custos de mão de obra na China, assim como com a mudança dos padrões de consumo globais, atraindo, com os seus baixos custos de produção, as marcas ao continente.

Ainda que os obstáculos sejam evidentes, as empresas acreditam que o crescente número de fábricas construídas a partir do zero, respeitando as regulamentações internacionais, venha impulsionar o desenvolvimento da indústria no continente africano.

«A importância de África está a crescer no mundo», reconheceu Oliver Zieschank, economista da International Textile Manufacturers Federation (ITMF), à margem do evento Destination Africa B2B, que teve recentemente lugar no Cairo e acompanhado pelo portal Just-style. «Se o investimento chegar, existe a possibilidade de agarrar a oportunidade de mercado criada pelas mudanças que estão a ocorrer na China – com uma crescente classe média e salários mais altos –, uma lacuna a ser preenchida por outras regiões», acrescentou.

Já na sua segunda edição, o evento foi organizado pelo governo egípcio, pelos conselhos de exportação e pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) com vista a promover África como uma nova plataforma para a indústria.

Aumento dos custos

Ainda que a China continue a ser a maior produtora de vestuário do mundo, seguida pelo Bangladesh, os empresários africanos observam que, na China, os custos de produção estão em crescendo, à medida que o PIB per capita aumenta.

Além disso, a aquisição chinesa de maquinaria encontra-se em declínio, passando de 76% das compras globais entre 1995 e 2005 para 58% até 2016, segundo Jaswinder Bedi, presidente do Conselho de Promoção das Exportações do Quénia.

África está bem posicionada devido aos custos salariais mais baixos, que variam de 60 dólares (aproximadamente 51 euros) por mês na África Oriental a 100 dólares no Egito. A vantagem competitiva do continente é ainda incrementada pelos acordos de livre comércio com os EUA e com Europa, bem como pela proximidade dos mercados europeus.

«Não podemos provar que os compradores estão a sair da Ásia mas, a partir de 2016, houve um crescimento da procura pelo aprovisionamento de proximidade, com foco em África», reconheceu Dhyana Van Der Pols, CEO da Nash International.

Interesse crescente

Alguns potenciais compradores marcaram presença no evento Destination Africa B2B precisamente por essa razão.

«Estou aqui por causa do sourcing, porque a China tornou-se muito cara e a qualidade do Bangladesh e do Paquistão não é a melhor. Já trabalhamos com a Tunísia e a Turquia, por isso estamos aqui para conhecer outras oportunidades», explicou Giacomo Romoli, da Guess Europe.

A alternativa

O otimismo de Jaswinder Bedi foi reiterado por vários oradores do evento. «Acho que é bastante simples, não há outra alternativa razoável para a Ásia. A capacidade da China é absorvida internamente e, ainda que o Bangladesh esteja a planear expandir-se, encontra-se bastante lotado», admitiu Roy Ashurst, consultor da Comissão de Investimento Etíope.

Ashurst preve que as exportações de vestuário da Etiópia aumentem de 150 milhões em 2016 para os mil milhões de dólares em 2018, impulsionadas pelo desenvolvimento das novas cidades industriais e pelos negócios com grandes clientes, como o conglomerado LVMH – que já se aprovisiona no país.

No evento estiveram presentes executivos e entidades promotoras de destinos de sourcing como Egito, Etiópia, Nigéria, Tunísia e Madagáscar.

«O nosso maior desafio é a promoção, uma vez que as empresas sabem onde estamos no mapa, mas não o que produzimos ou confecionamos», apontou Irchad Houssein, COO of Madagascar Garments.

A maior cooperação e a melhor logística são, também, essenciais. «Existe um potencial enorme na complementaridade entre o norte e o sul de África dentro da cadeia de valor, para fiação, tecelagem, ultimação e confeção. Precisa de haver uma transferência de know-how», defendeu Samir Ben Abdallah, presidente do Professional Clothes and Clothing Group.

A cooperação será ainda fundamental para reduzir os prazos de entrega, que atrairão os clientes da moda rápida, destacou Roy Ashurst, que enfatizou ainda o potencial das novas unidades produtivas africanas erguidas de acordo com as regulamentações internacionais. «A conformidade é um grande problema à escala global», sublinhou.