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África luta pela sobrevivência

Embora o continente tenha sido, até agora, menos afetado do que outros pelo novo coronavírus, a indústria têxtil e vestuário africana está igualmente a atravessar dificuldades, provocadas, sobretudo, pelo cancelamento de encomendas.

Etiópia

Na Tunísia, o vice-presidente da Fédération Tunisienne du Textile et de l’Habillement (FTTH), Nafaa Ennaifer, alertou para a situação. «O grande problema é a liquidez porque os clientes cancelaram encomendas [entre estações]», afirmou ao just-style.com, adiantando que os produtores compraram matérias-primas dispendiosas que podem não ser usadas. «Por exemplo, uma empresa detida por italianos que fornece vestuário em malha para a Hugo Boss e a Replay desembolsou 9 milhões de euros em fio», ilustrou.

Ennaifer mostrou-se ainda profundamente preocupado com a mão de obra da indústria. «Há uma questão real de responsabilidade social para com os nossos trabalhadores. Atualmente, apenas lhes podemos pagar o salário de março – depois disso, estão efetivamente desempregados», explicou.

A indústria têxtil e vestuário é o segundo maior sector de exportação da Tunísia, a seguir à eletrónica, representando uma quota de 22% do total. O país contabiliza cerca de 1.600 empresas nesta indústria, que empregam 160 mil pessoas, de acordo com o site Afrik 21, que, segundo os dados da Agence de Promotion de l’Industrie et de l’Innovation, exportaram 7,68 mil milhões de dinares tunisinos, equivalente a 2,43 mil milhões de euros, em 2019.

Tunisia

Algumas empresas do país converteram a sua produção para fabricar máscaras sociais. Segundo Hosni Boufaden, presidente da FTTH, as máscaras estão a ser produzidas com as matérias-primas disponíveis no mercado local, serão reutilizáveis e laváveis até 20 vezes. Já o preço será fixado pelo Ministério da Indústria, não contemplando margem de lucro nem para os produtores, nem para os retalhistas, de acordo com o jornal Tunisie-Tribune.

Milhões de prejuízo

O mesmo cenário encontra-se no Egito. As fábricas de vestuário do país revelaram que os cancelamentos ligados à crise de Covid-19 estão a atingir milhões de dólares e muitos estão a reduzir a sua capacidade em resposta.

Um inquérito realizado no final de abril pela Better Work, que lançou, no início de março, um programa no Egito como parte de um projeto da Organização Internacional do Trabalho (OIT), concluiu que dois terços dos produtores egípcios reduziram a sua capacidade devido à anulação de encomendas. Apesar dos prejuízos resultantes desta situação estarem a acumular-se, cerca de um terço das empresas inquiridas ainda espera recuperar dentro de três meses, mas a maioria estima que o tempo de recuperação seja de 12 meses ou mais.

Egito

Na Etiópia, um inquérito da OIT a 20 gestores de empresas têxteis e vestuário, realizado de 1 a 3 de abril, sugere que a taxa de utilização da capacidade produtiva baixou 30% no primeiro trimestre de 2020 em comparação com o mesmo período do ano passado e quase metade das 20 empresas inquiridas reportou o cancelamento ou redução de encomendas na sequência do surto de vírus. Destas empresas, duas começaram a produzir artigos alternativos para responder à escassez de encomendas.

Marrocos dedica-se às máscaras

Depois do primeiro caso positivo de Covid-19 a 2 de março, Marrocos tomou medidas drásticas para conter o contágio. Em abril, parte da indústria têxtil e vestuário do país converteu-se para produzir máscaras e prepara-se agora para exportar.

O país decretou o confinamento obrigatório a 20 de março, na altura com apenas 79 casos positivos do novo coronavírus, tendo encerrado os aeroportos a 15 de março. No início de abril, a indústria têxtil – que, no final de 2019, empregava mais de 185 mil pessoas em mais de 1.600 empresas e representava 15% do PIB de Marrocos – foi mobilizada através da associação sectorial AMITH – Association Marocaine des Industries du Textile et de l’Habillement para converter alguns dos seus membros à produção de máscaras, com o objetivo de atingir uma capacidade de 4 milhões por dia em meados de abril.

«Embora a maior parte dos nossos membros esteja a trabalha gratuitamente agora, é um bom exemplo de solidariedade da indústria têxtil marroquina», reconheceu Jalil Skali, vice-presidente da AMITH.

A 6 de abril, o Governo anunciou a obrigatoriedade de utilização de máscaras para toda a população. Agora, com as necessidades do mercado marroquino satisfeitas, a indústria do país está a preparar a exportação, notícia o jornal francês La Croix.

Marrocos

Sete milhões de máscaras não-reutilizáveis e um milhão de máscaras em tecido saem todos os dias das fábricas marroquinas, certificadas pelo Imanor – Institut Marocain de Normalisation.

Só na empresa Micagricol estavam a ser produzidas, em meados de abril, 600 mil máscaras diárias, com o sócio-gerente Abdelaziz Alazrak a esperar aumentar esse valor para um milhão de máscaras, avança o Courrier International. «Uma parte das nossas máquinas eram usadas para produzir sacos em não-tecido para substituir os sacos em plástico. Essas máquinas são agora usadas para fabricarem máscaras de proteção com um processo 100% marroquino», assegurou.

Já as máscaras em tecido estarão «sempre à venda no mercado marroquino», garantiu Mohammed Boubouh, presidente da AMITH, citado pelo La Croix. «Atualmente estão certificadas 32 empesas, que produzem um milhão de máscaras em tecido por dia. Esta produção deve praticamente duplicar daqui a duas semanas», anunciou no início de maio. «Desde que o mercado marroquino esteja plenamente satisfeito e tenhamos luz verde do Governo, poderemos exportar», admitiu o presidente da AMITH.

Uma mudança antecipada ainda para maio, antevendo-se que face à escassez de máscaras, Marrocos seja procurado por clientes da Europa, África e América. Em Marrocos, acredita o presidente da AMITH, «o mercado de máscaras será duradouro».