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Agenda patriótica

Com as sanções internacionais e o crescente nacionalismo a fomentarem um ambiente propício ao investimento doméstico, o governo russo lançou uma estratégia que pretende reforçar a moda local através de subsídios, sinergias e apoio.

Com as sanções internacionais e o crescente nacionalismo a fomentarem um ambiente propício ao investimento doméstico, o governo russo lançou uma estratégia que pretende reforçar a moda local através de subsídios, sinergias e apoio.

 

A Rússia atravessa atualmente um dos seus momentos mais patrióticos. Na eminência da intervenção armada na Síria, o índice de aprovação de Vladimir Putin aumentou recentemente para um valor recorde de 90%. Nos melhores restaurantes de Moscovo e São Petersburgo, os chefes de cozinha revisitam os pratos tradicionais russos, recorrendo a alimentos exclusivamente nacionais. Esta tendência tornou-se muito mais comum devido às sanções internacionais impostas ao país.

 

No reino da moda, a Rússia demonstra, agora, uma clara vontade de apoiar a sua indústria local. Pela primeira vez na história recente, várias organizações governamentais revelam diversos programas de desenvolvimento para a indústria. Alguns foram anunciados nos primeiros nove meses de 2015, mas na Mercedes-Benz Fashion Week Russia, que teve lugar no mês passado, em Moscovo, foram reveladas mais medidas.

 

Estas incluem o apoio e divulgação de jovens designers, proporcionando, simultaneamente, espaço de trabalho e subsídios aos fabricantes para a produção. Em São Petersburgo, estão disponíveis empréstimos a juros baixos para as pequenas empresas de moda com sede na cidade.

 

A segunda maior cidade russa tem sido, até ao momento, o centro deste novo impulso, embora Moscovo permaneça, indiscutivelmente, a capital da moda nacional. Existe um esforço nacional concertado que pretende estabelecer a ligação entre os designers do país e os fabricantes locais e São Petersburgo adquire cada vez mais preponderância nesta rede. De facto, um evento-satélite organizado pela Mercedes-Benz, denominado St. Petersburg Fashion Day, tem agora lugar na cidade.

 

«São Petersburgo sempre foi reconhecida pelo seu contributo para a moda – desde sempre», reforça Elgiz Kachaev, presidente da comissão para o empreendedorismo e desenvolvimento do mercado consumidor do município de São Petersburgo. Mas «ultimamente temos vindo a apoiar a indústria de várias novas formas, incluindo o apoio a designers locais e atribuição de vários subsídios», acrescenta.

 

Na principal rua de compras de São Petersburgo, a Nevsky Prospect, o governo da cidade alugou recentemente um espaço para 35 novos designers. Este projeto promocional, denominado Showroom #35, envolve um investimento público de milhões de rublos, indica Kachaev, mas o objetivo final é superior. O governo pretende que os designers adquiram mais têxteis russos e ampliem a sua produção em território doméstico, revela.

Atualmente, muitos designers russos dependem de unidades de produção domésticas, de pequena dimensão, e importam, frequentemente, matérias-primas do estrangeiro.

A designer Natali Leskova, de São Petersburgo, admite ser difícil encontrar fabricantes locais em território russo, destacando a «falta de especialistas na área [como costureiras, cortadores, relações-públicas e gestores de vendas] e problemas com tecidos», pelo que opta por importar tecidos de Itália, França e Ásia. No entanto, o apoio do governo «está a melhorar a cada ano», refere Leskova, citando o patrocínio governamental que lhe permitiu assegurar um stand numa feira durante a Semana de Moda de Milão, em setembro, que foi particularmente útil para o seu negócio.

O mercado da moda (vestuário, têxteis e calçado) é o segundo maior mercado russo, apenas superado pelo mercado alimentar, com um volume de cerca de 46 mil milhões de dólares, de acordo com um estudo realizado pela Romir Research e pelo Conselho de Moda Russo. As várias entidades do sector acreditam que a sua escala representa uma oportunidade de expansão da indústria nacional.

Atualmente 70% a 75% dos produtos têxteis, incluindo vestuário e acessórios vendidos na Rússia, são de produção estrangeira, afirma Alexander Shumsky, presidente e fundador da Mercedes-Benz Fashion Week Russia. Cerca de metade destes são importados ou distribuídos no mercado negro, acrescenta.

Paralelamente, os dados apresentados pelo governo indicam que 65% dos russos são, agora, favoráveis à compra de bens de consumo russos. Os números foram revelados no âmbito de uma parceria anunciada durante a recente semana de moda entre o governo russo, marcas russas e a AliExpress, uma unidade da gigante de comércio eletrónico Alibaba, que é amplamente utilizada na Rússia. Esperam incluir até 100 marcas no site, com a marca “Made in Russia”, acompanhada da bandeira tricolor.

«Acreditamos que haverá um aumento significativo da procura por mercadorias russas vendidas através de lojas sediadas na Internet», indica Viktor Evtukhov, secretário de Estado e vice-ministro da indústria e comércio da Federação Russa.

A par dos desfiles de estilistas locais reconhecidos, como Alena Akhmadullina e Bessarion (em Moscovo) e Slava Zaitsev (em São Petersburgo), os programas decorridos na Semana da Moda deram aos designers locais uma significativa visibilidade.

A Rússia atravessa um período económico conturbado. O exportador de energia tem sido duramente afetado pela queda do preço do petróleo e pelas sanções impostas após os conflitos relativos à Crimeia e Ucrânia. Em dólares, o rublo vale cerca de metade do que valia há apenas dois anos e o Fundo Monetário Internacional prevê que a economia deverá encolher 3,8% em 2015.

O consumo de bens de luxo por parte dos russos em mercados internacionais tem sido gravemente afetado, revela Luca Solca, analista na Exane BNP Paribas, mas a despesa interna do sector está relativamente saudável.

«Em setembro, o consumo russo caiu 40% em termos anuais, em comparação com um aumento de 18% dos gastos mundiais dos turistas. Anteriormente, os russos representavam 4% do mercado mundial de bens de luxo, metade dos quais adquiridos no exterior. Creio que é justo dizer que esse valor deve ter reduzido para um total de entre 2% a 3% e que a maioria, cerca de 80%, serão atualmente adquiridos na Rússia», explica.

Solca acrescenta que as marcas russas têm melhores oportunidades de venda no seu mercado doméstico, já que a distribuição é hoje uma desvantagem menor do que era no passado.

Enquanto outras figuras da indústria russa recebem positivamente algumas das novas iniciativas, poucos parecem confiantes sobre o seu impacto a longo prazo.

Anka Tsitsishvili, cofundadora e proprietária da loja moscovita IndexFlat, afirma que, até agora, a moda local existe devido à admiração do consumidor e não à ação do governo. «Se trabalharem arduamente e tiverem ideias novas, existem muitos lugares nos quais os jovens designers podem procurar apoio», sustenta Tsitsishvili, apontando para o conceito da sua boutique, que disponibiliza, exclusivamente, artigos feitos por designers emergentes, provenientes da Rússia e outros países da antiga União Soviética, como a Geórgia e o Cazaquistão.

Tsitsishvili considera que o apoio do governo ainda é escasso e que é necessário estabelecer uma «produção séria de elevada qualidade na Rússia, bem como acordos que facilitem o transporte para outros países. O interesse pelos nossos designers está a crescer e existem lojas fora da Rússia e [de outros antigos estados soviéticos] que gostam das nossas coleções, mas não estão certas da qualidade russa e existem dificuldades de logística».

Na aclamada loja-conceito Babochka, localizada em São Petersburgo, a diretora-geral Hatulia Avsadjanashvili confessa ser uma apoiante entusiasta dos designers russos – mas não apenas porque estes são naturais do seu próprio país ou confecionam em território doméstico. A par de variadas marcas internacionais de destaque, como Valentino, Chloé, Céline, apenas uma pequena minoria – Alexander Terekhov, Vika Gazinskaya e Walk of Shame – são russas.

«Quando incluo designers russos no meu mix de produto, não os distingo pela sua nacionalidade. Nunca faria isso. Incluo-os porque criaram coleções contemporâneas e interessantes, que combinam bem com outros designers. Creio, também, que muitos têm o talento para vender no exterior, pelo que espero e acredito verdadeiramente que a Rússia irá desenvolver a sua própria indústria têxtil», afirma Avsadjanashvili.

De acordo com o testemunho de funcionários do governo e dos organizadores do evento, um dos maiores obstáculos a superar é, simplesmente, o estabelecimento da ligação entre os designers e as unidades de produção existentes, sensibilizando-os para as necessidades mútuas.

«Temos fábricas bem equipadas em todo o país. O Conselho de Moda Russo [fundado no ano passado] está a trabalhar arduamente para estabelecer uma ligação entre os designers e essas unidades», revela Shumsky, acrescentando que os designers tentam, por vezes, fazer demasiado por si próprios e desconhecem a existência de fabricantes de elevada qualidade noutras áreas da Rússia, fora de Moscovo ou São Petersburgo. E acrescenta: «estes fabricantes russos necessitam da força criativa que os designers podem providenciar. Eles possuem as suas marcas próprias mas não são particularmente bem-sucedidos, pelo que poderiam realmente beneficiar da parceria criativa».

Anna Kozlova, uma das designers da marca moscovita SOL’ Designers, considera que esses encontros são cruciais. «No decorrer da semana anterior, participamos numa mesa redonda organizada pelo Ministério da Indústria e Comércio russo, no âmbito da qual designers se reuniram com produtores. Foi um passo importante», acredita.

Independentemente dos efeitos negativos decorrentes das sanções internacionais junto de alguns players da indústria da moda russa, há quem acredite que os recentes acontecimentos positivos poderiam nunca ter ocorrido caso a indústria não tivesse sofrido os efeitos desta pressão.

«Efetivamente, as sanções criaram muitas oportunidades a nível local», sublinha Shumsky. «Muito recentemente, os fabricantes não estavam interessados ​​nos designers russos e o governo também não estava interessado em apoiar esta indústria. Isso está a mudar muito rapidamente», conclui.