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Água em risco

Recurso essencial a toda a cadeia de produção, do cultivo de fibras aos processos de enobrecimento, a água é cada vez mais escassa em alguns territórios, colocando um desafio adicional às empresas da indústria têxtil e vestuário.

[©Unsplash/Naja Bertolt Jensen]

A produção têxtil, incluindo o cultivo de algodão, consome cerca de 93 mil milhões de metros cúbicos de água todos os anos, um valor que representa cerca de 4% da água doce utilizada mundialmente, de acordo com os números apresentados pela Ellen MacArthur Foundation no estudo A New Textiles Economy, de 2017. Só o cultivo de um quilo de fibras de algodão necessita de até 4.300 litros de água, dependendo das condições meteorológicas, e o tingimento e acabamentos dessa quantidade pode representar um gasto adicional de 125 litros de água.

Além do consumo elevado, a indústria têxtil e vestuário está conotada com a poluição dos recursos hídricos, com o Banco Mundial a estimar que 20% da poluição por águas residuais industriais em todo o mundo tem a sua origem neste sector. Algumas dessas substâncias são biocumulativas e classificadas como persistentes, o que significa que uma vez no meio ambiente, irão aí permanecer. Segundo a Ellen MacArthur Foundation, até 200 mil toneladas de corantes, com um valor comercial de mil milhões de dólares, perdem-se em efluentes todos os anos devido a ineficiências nos processos de tingimento e acabamento.

Atualmente, muitos dos principais países produtores de algodão enfrentam uma grande pressão em termos de disponibilidade de água, incluindo a China, a Índia, os EUA, o Paquistão e a Turquia.

[©Unsplash/Markus Spiske]
Na China, 80% a 90% dos fios, tecidos e fibras sintéticas à base de petróleo são produzidos em áreas com pouca disponibilidade de água, pelo que «o maior desafio será avaliar a água de que a indústria têxtil depende em regiões com escassez. Isso tem sido identificado por investidores como um risco elevado de disrupção do negócio», aponta a Ellen MacArthur Foundation.

Mundo sem fronteiras

Um relatório de riscos ambientais de setembro de 2021 da Moody’s revela mesmo que a gestão hídrica está entre os principais riscos ambientais no continente asiático. «A Ásia está, geralmente, mais vulnerável a riscos de gestão de água que outras regiões», aponta, acrescentando que os investidores se confrontam com «questões como o acesso a água abundante ou água purificada e riscos de reputação e de regulamentação relacionados com os efeitos a jusante da utilização de água, incluindo a oferta, poluição e saneamento». A Moody’s lembra ainda que «sectores intensivos na utilização de água, como a indústria mineira, agricultura, têxteis, semicondutores e energia térmica e hidroelétrica, dependem de uma gestão de água adequada para a sua produtividade», adiantando que entre as 25 economias que analisou na região, 10 têm uma exposição muito negativa ou altamente negativa aos riscos de gestão hídrica, incluindo a Índia, o Paquistão, o Bangladesh e a China.

Mudando de continente, as preocupações são semelhantes. Um relatório recente da Water Witness International revela que a produção de vestuário está a danificar os rios africanos na sequência de descargas poluentes das águas residuais industriais. O estudo, que analisa mais pormenorizadamente a situação de países produtores como a Etiópia, Lesoto, Madagáscar e Maurícias, cita um relatório da UNCTAD (Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento) que afirma que «a indústria têxtil em África produz potencialmente metais tóxicos, agentes de branqueamento e poluentes atmosféricos que causam contaminação do solo e da água, afetando a saúde pública». Os motivos são sobretudo as descargas de efluentes e águas residuais sem tratamento ou com tratamentos realizados em infraestruturas desadequadas ou com falta de manutenção. «Encontrámos provas de impactos significativos, sobretudo em termos de poluição industrial não controlada por parte do sector e a sua interação com o acesso sustentável à oferta de água potável, saneamento e higiene para trabalhadores e comunidades. Embora quase não existam dados quantitativos em relação à performance dos produtores de têxteis e vestuário em África, encontrámos provas credíveis e estudos de caso ilustrativos de uma performance inaceitável», garante a Water Witness International.

Plano da UE

Na Europa, a preocupação com a gestão da água tem ocupado as políticas da União Europeia, que este ano lançou o Plano de Ação Poluição Zero, com metas para 2030 e 2050, que prevê a revisão da diretiva de tratamento de águas residuais urbanas em 2022, com o objetivo de reduzir a poluição no que diz respeito, por exemplo, aos nutrientes e aos poluentes emergentes, como os microplásticos e os micropoluentes, num processo que decorrerá em paralelo com a atualização das listas de substâncias problemáticas para as águas de superfície e subterrâneas, que esteve em consulta pública no ano passado. «Tendo em conta a Diretiva Água Potável recentemente adotada, a Comissão Europeia assegurará que os Estados-Membros promovam um consumo de água sustentável e eficiente, desincentivem a poluição da água e apresentem uma fatura da água socialmente justa a todos os utilizadores e poluidores da água – a indústria, a agricultura e os consumidores domésticos –, utilizando da melhor forma as receitas em prol de investimentos sustentáveis. Apoiará igualmente um melhor controlo e prevenção ou redução da poluição causada por substâncias fundamentais nas águas de superfície e subterrâneas», explica a Comissão Europeia.

 

[©Unsplash/Tim Mossholder]
As próprias Nações Unidas têm procurado chamar a atenção para a questão da água, com dois dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável direcionados para a água. No objetivo 6, a meta é garantir a disponibilidade e gestão sustentável da água potável e do saneamento para todos, apontando especificamente para, até 2030, «melhorar a qualidade da água, reduzindo a poluição, eliminando o despejo e minimizando a libertação de produtos químicos e materiais perigosos, reduzindo para metade a proporção de águas residuais não tratadas e aumentando substancialmente a reciclagem e a reutilização, a nível global». Já o objetivo 14 pretende proteger a vida marinha, nomeadamente através da prevenção e redução significa da poluição marítima de todos os tipos até 2025, especialmente a que advém de atividades terrestres, incluindo detritos marinhos e a poluição por nutrientes.

Questões que têm preocupado a fileira moda, com a indústria têxtil e vestuário, ou de áreas a ela ligadas, a procurar desenvolver novas tecnologias, processos e métodos mais eficientes, e menos poluentes, ao nível da água, inclusivamente em Portugal.