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Albano Morgado mantém apostas

A pandemia abrandou mas não parou a empresa especialista na produção de lanifícios. A Albano Morgado esteve sempre a trabalhar, mantém em curso o projeto de construção da nova tinturaria e, apesar da incerteza, tem regressado às feiras e aos negócios em diferentes mercados.

Baltazar Lopes

«Com muita dificuldade, muitas incertezas e indecisões», reconhece Baltazar Lopes, a Albano Morgado tentou manter alguma normalidade dentro da anormalidade trazida pelo Covid-19, sobretudo nos primeiros tempos. «Optámos por trabalhar em espelho: metade dos trabalhadores ficava uma semana em casa e a outra ia trabalhar. Em abril, trabalhámos seis horas por dia e com metade das pessoas para conseguirmos entregar tecidos», explica o administrador da empresa.

Às restrições resultantes da situação de saúde, acresceu o impacto da falta de consumo. «Tivemos muitas suspensões e reduções de encomendas – sobretudo reduções, algumas de 50%», admite Baltazar Lopes. «Vivemos dois meses a gerir suspensões, reduções e produções com muita cautela, para não produzirmos coisas que depois não teríamos a possibilidade de entregar», revela ao Portugal Têxtil.

Uma situação que tem melhorado e atualmente «já conseguimos estar a trabalhar com alguma normalidade e estabilidade», assegura o administrador, que está convicto, no entanto, que «este vírus vai mudar o mundo. Aquela normalidade, a forma como vivíamos até surgir a pandemia, não vai voltar. O mundo vai mudar e a nossa forma de viver e de comercializar vai alterar, obviamente».

Regresso às feiras

Neste momento, contudo, há «uma vontade de voltar ao normal» e as vendas online por parte de alguns dos clientes da empresa têm contribuído para manter a produção, assim como os mercados do Norte da Europa. «A Alemanha, a Holanda, a Dinamarca e a Suécia são países que me parece que estão a recuperar bem – tenho esperança nesses mercados», aponta Baltazar Lopes. O mesmo acontece com o mercado inglês, embora este seja uma incógnita em muitos aspetos. «Estive com um cliente inglês que está preocupado com o Covid mas, ao mesmo tempo, está também preocupado com as consequências económicas do Brexit e a possível desvalorização da libra», explica.

Apesar de ter uma importância crescente, o digital tem as suas limitações, considera o administrador da Albano Morgado. Embora tenha participado no Digital Show da Première Vision, que substituiu a edição física da feira de tecidos parisiense, Baltazar Lopes considera que a interação pessoal é essencial – algo que comprovou nas feiras físicas que fez já no segundo semestre, nomeadamente a Fabric Days, na Alemanha, a Milano Unica, em Itália, e o Modtissimo, em Portugal. «O toque é essencial na escolha dos tecidos. Tive exatamente essa demonstração por parte dos clientes», refere. «O digital obviamente é importante e ainda irá ganhar maior importância, as vendas online sem dúvida que vão crescer mais, mas na escolha dos materiais têxteis, para ver e comparar, as feiras são, de facto, essenciais», salienta.

Nestas feiras, a Albano Morgado apresentou uma nova coleção, pensada para o outono-inverno 2021/2022, onde a lã e a sustentabilidade são as protagonistas. «80% da nossa coleção é 100% lã», assegura Baltazar Lopes. A matéria-prima de eleição apresenta-se igualmente em misturas com fibras nobres como caxemira, alpaca e pelo de camelo. Há ainda «uma linha de reciclados e depois temos uma linha também de produtos que designamos por Ecolife, que não têm qualquer produto químico. Criámos ainda uma nova linha só com cores da natureza, a Nature Line», enumera o administrador.

Renascimento em 2021

A preocupação com o meio ambiente reflete-se igualmente no projeto para a nova tinturaria, que, por fatores externos à empresa, ficou em stand-by durante os meses do confinamento, mas que já retomou. «Não desistimos do projeto da tinturaria, é obviamente para continuar. Poderá ser a um ritmo diferente, mas vamos continuar, até porque na questão ambiental, é necessário todos darmos um contributo e a tinturaria traz esse contributo para o ambiente», sublinha, adiantando que permitirá um menor consumo de energia e água. «Com o próprio método de tinturaria iremos ter uma rentabilidade muito maior», destaca Baltazar Lopes.

Para 2020, as expectativas são de queda do volume de negócios, que em 2019 ultrapassou os 5 milhões de euros. Assumindo-se como otimista, o administrador da Albano Morgado, que emprega cerca de 80 pessoas, não fecha os olhos à incerteza, mas mostra-se positivo. «Acho que a crise não será muito acentuada e não se irá prolongar por muito tempo, mas é só esperança. Não temos dados, é tudo muito novo, estamos todos a aprender e as empresas também», afiança. Ainda assim, Baltazar Lopes acredita que «este inverno vai ser difícil, mas 2021 vai ser um ano de renascimento».