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Alfaiataria de última geração

Numa altura em que a moda masculina parece estar rendida ao casual, a alfaiataria tradicional tem-se esforçado por acompanhar as mutações do guarda-roupa de um consumidor cada vez mais dinâmico, urbano e em busca de conforto.

À medida que a moda masculina – e a própria sociedade – vai evoluindo a um ritmo acelerado, as marcas e retalhistas tradicionais posicionadas no segmento enfrentam novas pressões, que passam por continuar a inovar e acompanhar as exigências do consumidor, analisa o WGSN.

Menswear rendido ao casual

De acordo com um relatório recentemente divulgado pelo Euromonitor, os homens estão a gastar duas vezes mais em alfaiataria do que gastavam em 1998. No ano passado, as receitas deste segmento cresceram 5%.

Esta alfaiataria masculina moderna tem sentido a forte influência do sportswear.

À medida que o streetwear e o activewear foram amadurecendo, as marcas expandiram-se para novas categorias para atrair mais consumidores. Uma dessas categorias foi a alfaiataria.

O novo vestuário de trabalho

Nos últimos anos, o pilar formal do vestuário de trabalho tem vindo a ceder, considerando o impacto dos estilos de homens como Mark Zuckerberg (ver Vestidos para o sucesso).

Em 2016, o JPMorgan Chase, membro da velha guarda e conhecido pelo seu ambiente de trabalho tradicional, abraçou um código de vestuário casual. A Goldman Sachs seguiu o exemplo em 2017, resultando num ambiente mais descontraído, adaptado a uma força de trabalho milenar.

No entanto, a imagem cuidada mantém-se crucial na relação com clientes, por exemplo, pelo que a alfaiataria continua a ter lugar neste tipo de funções.

Com o derrubar de algumas barreiras do vestuário de trabalho e a emergência do estilo casual acabaram por ficar reunidas as condições para um guarda-roupa de trabalho novo e híbrido.

«O relaxamento dos padrões de vestuário de trabalho contribuiu para o fato “casual”», afirma Josh Peskowitz, da boutique de luxo Magasin. Tecidos inesperados como o veludo são acompanhados por calçado casual e acessórios como cachecóis para criar um visual clean, mas mais casual.

Marcas diretas ao consumidor

As startups têm vindo a infiltrar-se no menswear com modelos de negócio disruptivos.

Estas marcas prometem um produto de qualidade com preços até 50% mais baixos do que os praticados no retalho tradicional.

Passando das calças a uma coleção completa de alfaiataria, a Bonobos inaugurou mais de 40 espaços de retalho em quatro anos, próximos dos centros financeiros das cidades, colmatando a lacuna entre o online e o offline.

A Ministry of Supply também nasceu online, mas, desde então, entrou no espaço de retalho tradicional, conseguindo uma visão 360º do mercado.

Já a Hugh & Crye tem uma coleção com 12 tamanhos, projetados para lisonjar qualquer tipo de silhueta. Sem um espaço físico, a H&C recorre a pop-ups para alavancar as vendas.

Fato, aluga-se

Quando os sócios Andrew Blackmon e Patrick Coyne lançaram a The Black Tux (ver O futuro da alfaiataria), em 2013, tinham como principal objetivo vestir os homens para um evento de gala prescindindo da visita a um alfaiate. O plano era atualizar o fato masculino e o seu aluguer, oferecendo coordenados de alta qualidade ao cliente e colocando o foco no fitting. A The Black Tux prometeu fazer tudo isto como retalhista online, o que significava que os homens poderiam alugar vestuário formal entre cliques.

Atualmente, a empresa cobra cerca de 95 a 145 dólares (aproximadamente entre os 89 e os 136 euros) pelo aluguer de fatos e smokings, dependendo do design, enquanto o aluguer de looks completos, que incluem artigos adicionais como camisa, sapatos de couro, laço ou gravata, varia entre os 150 e os 215 dólares.

Mais recentemente, a The Black Tux revelou um algoritmo novo e melhorado de fitting que reivindica prever exatamente o ajuste de um fato, apenas com base nas medidas que os clientes disponibilizam online. O segredo? A inteligência artificial aliada aos dados recolhidos nos últimos anos de atividade da empresa.

Alfaiataria de ponta

Muitos avanços produtivos parecem ter sido retirados das páginas da ficção científica.

Ainda não se chegou lá, mas o cenário começa a parecer possível no território da tricotagem 3D, que usa fio para produzir uma peça completa, tridimensional.

Em vez do rígido produto de plástico criado por uma impressora 3D – bom para calçado, mas não tão bom para vestuário –, esta tecnologia produz camisolas, casacos e qualquer outra peça em malha.

Algumas empresas estão já a usá-la, como a Ministry of Supply, com sede em Boston, que instalou permanentemente a tecnologia na sua loja na cidade de Newbury.

A Ministry of Supply está a começar com apenas uma peça, um blazer, (embora a malha e o peso o aproximem mais de um cardigan) com planos para expandir a oferta mais tarde.

Os clientes são capazes de personalizar a cor e os botões, embora ainda tenham de escolher dentro da gama de tamanhos da Ministry of Supply. Demora cerca de 90 minutos a tricotar e, de seguida, o blazer é lavado e seco. A peça custa 345 dólares, um pouco mais do que os 285 dólares do artigo não personalizado online.

Pelo menos em teoria, os benefícios são claros: a impressão 3D permite que os consumidores personalizem os artigos de acordo com as suas especificações, atendendo à crescente procura de produtos personalizados. Permite que as lojas tenham menos stocks, uma vez que uma peça só é criada quando há um cliente pronto a comprá-la, o que significa menor risco de descontos e stock parado. Além disso, a tecnologia transforma o retalho numa experiência, fazendo com que os consumidores queiram visitar as lojas físicas e construir uma conexão pessoal com estes espaços, em vez de fazerem compras online.