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Algodão amargo

A indústria têxtil foi duramente atingida pela crise económica mundial. O declínio das exportações e a contracção da procura mundial levou à queda da facturação e à redução dos resultados operacionais de muitas empresas e à falência de outras tantas um pouco por todo o mundo. Se os sinais de retoma mundial trouxeram ao sector alguma esperança, o actual aumento das matérias-primas, em particular do algodão, volta a preocupar os empresários. O preço do algodão tem vindo a aumentar continuamente nos mercados mundiais desde o início do ano transacto. Os aumentos de preço do algodão já ultrapassaram os 15%, sendo que os últimos dados publicados, em Novembro de 2009, fazem antever a continuidade desta escalada de preços. Os preços do algodão são, assim, uma preocupação central neste início de ano devido ao desequilíbrio existente em alguns mercados com a procura a suplantar a oferta. As colheitas expectáveis também parecem ser inferiores à de anos anteriores, o que colocará ainda mais pressão nos preços desta matéria-prima fundamental para a indústria têxtil. Na indústria têxtil indiana, por exemplo, onde a procura de artigos têxteis e de vestuário voltou à normalidade e as empresas já têm a sua capacidade de produção ocupada com encomendas, espera-se que a procura de algodão suba 9%. A procura desta matéria-prima por parte dos principais produtores têxteis mundiais conduzirá, inevitavelmente, a uma escalada de preços, com impacto nas margens de rentabilidade das empresas. A juntar-se ao aumento da procura estará a diminuição da produção mundial, que deverá decrescer cerca de 5%. Quase todos os principais países produtores desta fibra natural – China, EUA, Brasil e índia – sofrerão quedas na sua produção anual. Deste modo, a variação positiva nos inputs produtivos poderá levar a um aumento dos preços dos produtos têxteis a nível mundial como forma das empresas do sector protegerem as suas margens. Esta situação seria normal em circunstâncias de mercado mais favoráveis, o que poderá não acontecer numa altura em que o poder dos retalhistas e a situação ainda incerta de alguns mercados de consumo poderá levar as empresas a reduzir as duas margens ou assumir margens negativas, piorando assim a difícil situação financeira em que muitas se encontram. As empresas de maior dimensão e com as diversas fases do processo produtivo integradas deverão ter mais alguma facilidade em passar este aumento de custos aos seus clientes. No caso dos players de menor dimensão, este aumento poderá ditar definitivamente a sua sorte ou levar a uma quebra muito significativa na sua situação financeira.