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Algodão contaminado

O Estado Islâmico controla, atualmente, a produção de algodão sírio, preocupando alguns fabricantes, apesar do risco reduzido de vestuário associado à ação dos extremistas islâmicos alcançar as passerelles e os guarda-roupas mundiais.

Depois da apreensão de petróleo e campos de grão como forma de financiar a sua ofensiva, os militantes do Estado Islâmico (EI) assumiram o controlo de «três-quartos da produção de algodão» na Síria, um exportador relativamente importante antes da guerra, revelou Jean-Charles Brisard, especialista em financiamento de grupos extremistas.

O algodão sírio é um problema para as conceituadas casas de moda parisienses. Um comprador de coleções de alta-costura afirmou, sob condição de anonimato, que se tornaram muito cuidadosos relativamente à origem dos seus tecidos. «O nosso fornecedor enviou-nos regularmente peças de tecido sem etiqueta de origem, pelo que pedimos aos nosso ateliers que não tocassem nas peças até que tivéssemos todos os certificados necessários», explicou o comprador.

As empresas estão conscientes do impacto de um conflito de relações públicas na indústria do vestuário, especialmente após o desabamento da fábrica Rana Plaza, no Bangladesh, que matou 1.138 pessoas. As marcas estrangeiras associadas à unidade de produção foram acusadas de não exigirem condições de trabalho seguras.

A principal preocupação no respeitante ao conflito do algodão sírio assenta na possibilidade de este entrar nos mercados internacionais através de grossistas turcos, que o compram a preços reduzidos aos combatentes.

As regiões controladas pelo EI na Síria estão localizadas perto da Turquia, o segundo e terceiro principal fornecedor de tecidos e de vestuário, respetivamente, da União Europeia, de acordo com dados compilados pela UIT, uma associação têxtil francesa.

A Turquia, importadora de algodão para a fabricação de vestuário, reúne entre os seus principais fornecedores «os Estados Unidos, a Grécia, o Uzbequistão, o Egipto e, historicamente, a Síria», aponta Emmanuelle Butaud-Stubbs, diretora da UIT.

As exportações de algodão sírias com destino à Turquia aumentaram na década de 1990 e início de 2000, mas caíram desde 2008. De acordo com especialistas do sector, o EI tem efetuado, recentemente, o envio de algodão bruto para a Turquia, cultivado nas regiões de Raqqa e Deir ez-Zor, que são responsáveis por um terço da produção síria.

EI vende algodão em bruto
A Turquia recusou-se oficialmente a aceitar este algodão, por razões não divulgadas, possivelmente devido à pressão de Washington, segundo fontes da indústria.

Os militantes do EI começaram a vender o algodão em bruto a intermediários, que o transportam para os centros de processamento localizados em áreas sob o controlo do regime do presidente sírio, Bashar al-Assad. O processamento e exportação de algodão são um monopólio estatal na Síria.

Devido ao conflito, «é difícil ter uma imagem do que está a acontecer no terreno», afirma José Sette, diretor-executivo do Conselho Consultivo Internacional do Algodão (ICAC, na sigla inglesa), um grupo que reúne países produtores e consumidores de algodão.

O conflito de quatro anos conduziu a uma quebra da produção de algodão No período anterior à guerra, a Síria produzia cerca de 600.000 toneladas por ano, tendo decrescido, desde então, para 70.000, das quais 3.000 são oficialmente exportadas.

Sette adiantou que, no entendimento do ICAC, a maior parte de algodão sírio é utilizada pela indústria têxtil do país, não havendo disponibilidade para exportação. E, o algodão sírio que chega à Turquia fá-lo, provavelmente, através de vias não oficiais, acrescentou.

Porém, mesmo assumindo que toda a produção de algodão sírio tem como destino a Turquia, um cenário «altamente improvável», diz Sette, isso representaria apenas cerca de 5% do algodão utilizado no país.

«Parece extremamente injusto manchar a reputação da indústria têxtil turca com base num número tão pequeno e sem fundamento», sustenta Sette. «Considerando todos os elementos, a proporção de produtos acabados de algodão importados em França a partir da Turquia, confecionados com algodão cultivado em campos controlados pelo Daesh, beira o zero», revela, por sua vez, Emmanuelle Butaud-Stubbs.