Início Notícias Têxtil

Algodão do Turquemenistão mancha têxteis turcos

A ITV da Turquia está a ser instigada a atentar à origem do algodão usado, na sequência de um novo estudo que a revela dependente do algodão turquemeno, cultivado geralmente com recurso ao trabalho forçado e infantil.

Um webinar organizado pela Anti-Slavery international, pela Responsible Sourcing Network e pela Turkmen News revelou que o algodão colhido nas plantações do Turquemenistão, que muitas vezes recorre ao trabalho forçado e infantil, percorre toda a cadeia de aprovisionamento até aos produtos acabados disponíveis globalmente.

A chamada de atenção para este país da Ásia Central surge também pelo facto do Turquemenistão ser o sétimo maior produtor e exportador de algodão a nível mundial. Os campos cultivados são propriedade do Estado, que decida a quantidade e o espaço onde o algodão será cultivado, e arrendados por agricultores. Em 2019, o objetivo foi cultivar mais 1,05 toneladas de algodão e, no corrente ano, a meta é mais 1,25 toneladas.

Ruslan Myatiev, editor do Turkmenistan News, a habitar nos Países Baixos na qualidade de refugiado político, explicou que o Governo estabeleceu valores irrealistas para a quantidade de algodão que deve ser entregue pelos agricultores, o que faz com que, na maior parte das vezes, as metas não sejam cumpridas e o agricultor receba uma penalização monetária. A qualidade do próprio algodão, a quantidade insuficiente de sementes ou fertilizantes e problemas com pragas podem condicionar os valores, reduzindo as quotas do agricultor. Estas medidas do Governo são a principal causa do trabalho forçado, visto que os agricultores se sentem pressionados para atingir os objetivos, pelo que as autoridades regionais também atribuem milhares de funcionários públicos como médicos, professores e funcionários de bancos e hospitais, para a colheita manual do algodão.

«Até que 80% dos bolbos do algodão tenham florescidos, os agricultores não efetuam a colheita com máquinas nas plantações com receio de danificar os bolbos, o que pode resultar num lucro menor», afirma Ruslan Myatiev. «No final de setembro ou outubro, as ceifeiras já podem entrar. Depois de terminarem, os agricultores negoceiam, com os chefes militares, o envio de soldados para colher o restante. Eles pagam em dinheiro e aproveitam a mão de obra barata», revela.

Ligações com a Turquia

A maior parte do algodão colhido nestas plantações segue depois para a Turquia, o sexto maior produtor têxtil mundial. Segundo Chloe Cranston, gestora de negócios e recursos humanos da Anti-Slavery International, a Turquia e o Turquemenistão têm uma ligação muito próxima, datada já de várias décadas e que originou joint-ventures entre empresas turcas e empresas turquemenas detidas pelo Esstado. Na prática, a indústria têxtil do Turquemenistão possui 22% de empresas estrangeiras, das quais 20% são turcas, o que converte a Turquia na principal investidora do sector no país.

A Calik Holding, um conglomerado têxtil e de outras indústrias é um desses investidores, de acordo com Chloe Cranston que refere que apesar da empresa integrar a Better Cotton Initiaitive, que proíbe o trabalho forçado, e alegadamente não adquirir algodão ao Turquemenistão, a Gap Pazarlama, subsidiária da Calik, está aberta e orgulhosa da relação com o país.

A Gap Pazarlama é a principal importadora de algodão do Turquemenistão e foi a primeira a vender e promover artigos produzidos nas fábricas de têxteis e vestuário denim no Turquemenistão em mercados internacionais. Os seus principais mercados de exportação de fios são a Europa e o Bangladesh.
Em 2017, das exportações de tecidos 100% algodão do Turquemenistão, 79% foram para a Turquia, seguida pela Rússia, com 18%, para o Peru. Das exportações de algodão cru, a Turquia recebeu 84%, seguindo-se o Paquistão e a Índia, com 9,65% e 2,9%, respetivamente.

«O Turquemenistão não está nos radares das marcas porque é um país pequeno. Mas como grande parte do algodão vai para a Turquia, há muita exposição das marcas internacionais, na sequência da produção que é realizada no país. Neste momento, não podemos dizer que nos sentimos confortáveis com o fato de que nenhum algodão do Turquemenistão seja cultivado sem trabalho forçado», destaca Patricia Jurewicz, fundadora e vice-presidente da Responsible Sourcing Network e cofundadora do grupo de direitos dos trabalhadores da Cotton Campaign. «Não há oportunidade para dissidentes [e] jornalistas foram presos por reportar sobre a colheita de algodão. E realmente descobrir o que está acontecendo é muito perigoso», garante.

Proibição de importação pelos EUA

No ano passado, a Customs and Border Protection (CBP) dos EUA emitiu uma ordem de proibição de importação de qualquer algodão e produtos de algodão provenientes do Turquemenistão, uma medida que, aponta Patricia Jurewicz, diminuiu a utilização da matéria-prima nas cadeias de aprovisionamento do país, mas ressalva não pode ser estabelecida uma correlação direta.

Marcas como a Adidas, Gap Inc, H&M, Marks & Spencer e Nike assinaram o Turkmen Cotton Pledge, um acordo onde se comprometem a não utilizar algodão do Turquemenistão até que o trabalho forçado seja totalmente abolido. Atualmente, são já 89 as insígnias que aderiram à iniciativa,

«Estamos a incentivar as marcas e as retalhistas a agir. Se a alfândega encontrar uma remessa que chega aos EUA com suspeita de ser algodão do Turquemenistão, esta pode ficar retida na fronteira. Se a marca não conseguir provar que o produto foi fabricado sem trabalho forçado ou não tem algodão do Turquemenistão, o artigo pode ser destruído ou voltar para trás, o que financeiramente é um risco», revela Patricia Jurewicz.

A Cotton Campaign está a desenvolver a YESS Mission – Yarn Etihcally and Sustainably Sourced, que tem como objetivo criar um programa para eliminar o algodão produzido com trabalho forçado na indústria de fiação. Em março foi lançado um novo programa para ajudar os produtores de fios a não comprar algodão cultivado com trabalho forçado.

«[O programa] será focado numa parta da cadeia de aprovisionamento que sabemos que é um pouco opaca: os produtores de fio. Aqui, o algodão proveniente de vários países mistura-se e é preciso rastrear a nação de origem nesse nível de fiação. Mesmo a Turquia, que tem direitos de trabalho fortes, mecanização e está a cultivar mais algodão, pode estar a trazer algodão do Turquemenistão e a misturá-lo com o algodão turco sem que se consiga perceber», explica a cofundadora da Cotton Campaign. «Também estamos a estudar um programa que se aplicaria às empresas têxteis além das fiações, para que nenhuma produtora de têxteis utilize fios provenientes do Turquemenistão», acrescenta Patricia Jurewicz.