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Algodão em mudança – Parte 1

O comércio mundial de algodão, que ainda opera com base em apertos de mão e confiança, para admiração dos operadores mais rígidos noutros mercados de matérias-primas, pode perder muito do seu estilo “clube de cavalheiros” devido a uma onda de falta de pagamento por parte das fiações. Os negociantes estão a rever práticas com séculos que se baseavam em promessas de pagamento em vez de depósitos de dinheiro – com qualquer disputa resolvida calmamente através de arbitragem – e agora estão a tomar, ou a considerar tomar, ações legais para parar a maré de falta de pagamento de contratos causada pela elevada volatilidade dos preços que afeta a indústria desde 2011. O National Cotton Council (NCC) estima que contratos no valor de mil milhões de dólares (746,77 milhões de euros), ou 7%, dos 14 mil milhões de dólares do mercado mundial de algodão podem estar em falta de pagamento. Muitos dos acordos têm sido rasgados, já que foram assinados quando os preços estavam a subir para os valores recorde de 2,20 dólares por libra em março de 2011. Em muitos casos, a batalha para assegurar fornecimento significou que as fiações concordaram pagar preços recorde, embora a entrega da fibra fosse apenas contratada para um ano depois. Quando os preços colapsaram para menos de um dólar, as fiações que se debatiam com margens esmagadas e fraca procura afastaram-se desses negócios com preços altos a uma taxa sem precedentes. Joe Nicosia, diretor de algodão na trading Louis Dreyfus, a maior negociante mundial de algodão, está a ameaçar submeter processos legais contra os clientes que reneguem os contratos e está agora a forçar alguns compradores a fazerem depósitos. «A arbitragem não é o último recurso. É uma fase intermédia. Há imposições legais», indicou numa entrevista à margem da conferência Cotton Beltwide, a maior reunião de agricultores dos EUA. «Levaremos as pessoas a tribunal», acrescentou. Nicosia não nomeou quem estava na sua mira, mas a mensagem foi clara. «Não vamos esquecer, não vamos deixar de perseguir. Vamos perseguir política e legalmente», afirmou Nicosia, que é visto como o porta-voz não-oficial da comunidade de negociadores de algodão. Peso financeiro Recorrer a processos judiciais dispendiosos e demorados com a esperança de apreender bens como compensação é um passo dramático para a indústria. A estratégia não é usada de forma abrangente há décadas e ir para tribunais estrangeiros é raro, afirmam pessoas ligadas ao mercado. Enquanto agentes entre os agricultores e as fiações, os negociantes foram muito atingidos por quebras de contrato. Ficar com depósitos ou pedir garantias de bancos ou empresas-mãe de alguns clientes pode ajudar a retomar a confiança. Isso é considerado mais seguro do que letras de crédito, que têm sido o método tradicional de garantia. Alguns negociantes conseguiram pedir depósitos de 5% a 10% de fiações na Ásia, afirma Jordan Lea, presidente e coproprietário da empresa de negociação de algodão Eastern Trading, na Carolina do Sul. Os negociantes estão também a fazer muito mais diligências sobre novos clientes, afirmam fontes ligadas ao negócio. Ainda assim, uma mudança nas práticas seria difícil de introduzir nos EUA, onde as fiações de pronto-pagamento iriam hesitar com os pedidos de depósitos. Também deveria aumentar o fardo financeiro de muitas empresas que estão já com dificuldades de liquidez devido às grandes variações de preços, que afetaram a procura por fibras naturais. Fiações no Bangladesh, que têm o maior número de faltas de pagamento desde 2011, foram muito afetadas quando as linhas de crédito foram retiradas com os preços a diminuírem para menos de metade dos picos de março de 2011, indicou Muhammad Ayub, presidente da Associação de Algodão do Bangladesh. Os produtores de vestuário também cancelaram as encomendas na altura das variações dos preços, indicam fontes das fiações. «Os devedores são vítimas das circunstâncias», considera Ayub. Esta não é a primeira vez que a indústria fica em dificuldades com o excesso de capacidade, margens baixas e cancelamento de contratos. E muitas fiações também honraram os seus contratos, incorrendo em enormes perdas, ou negociaram novos termos com os seus fornecedores. Embora as fiações sejam um dos focos de problemas para a forma tradicional de negociar algodão, os agricultores também não estão isentos de culpa, como revela a segunda parte deste artigo.