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Algodão sob pressão

A guerra comercial entre os EUA e a China está a provocar uma queda dos preços do algodão e a alimentar a instabilidade no mercado, numa altura em que a produção ainda se encontra em crescimento mas prevê-se uma retração do consumo provocada pelo abrandamento da economia mundial.

Desde que a China implementou uma taxa retaliatória de 25% sobre as importações de algodão americano em julho do ano passado, as suas importações a partir dos EUA caíram 44%, o equivalente a 868 mil fardos. A Cotton Incorporated afirma, na sua análise mensal do mercado, que «nos 10 meses de dados de comércio que estão disponíveis desde então, tem havido um afastamento definitivo dos EUA. As importações chinesas de todas as localizações aumentaram 80% (com base em peso) em termos anuais» até abril.

Segundo a Cotton Inc, os países com colheita mecânica que não os EUA foram os que mais beneficiaram em termos de volume. As importações chinesas do Brasil e da Austrália subiram 1,5 milhões de fardos em termos anuais no período – mais 396% e 153%, respetivamente. Fortes aumentos foram igualmente registados em países com colheita manual – as importações chinesas da Índia subiram um milhão de fardos, ou 325% no período em termos anuais, e os envios de outras fontes, sobretudo da África Ocidental, somaram mais 550 mil fardos, ou 108%.

«A situação comercial entre os EUA e a China continua a ser uma fonte central de incerteza para o mercado do algodão», sublinha a Cotton Inc na sua Monthly Economic Letter. «Estes dois países representam não só o maior exportador e importador de fibra de algodão, mas também o maior exportador e importador de vestuário e as duas maiores economias mundiais», acrescenta.

Ameaças não desapareceram

Os EUA vão ainda aumentar as taxas sobre as importações de vestuário da China, mas no mês passado Trump ameaçou aumentar as taxas em todos os bens provenientes da China que não estejam cobertos pelos aumentos anteriores. A Cotton Inc destacou que isso incluirá as importações americanas de vestuário e têxteis-lar provenientes da China.

As ameaças de atingir todas as importações americanas provenientes da China foram inicialmente feitas no verão passado e nos quase 12 meses desde que essas ameaças foram feiras, o ritmo de aumentos da China, que já abrandou por razões micro e macroeconómicas, tem sido mais espaçado, embora o país continue a ser o principal fornecedor.

Nos primeiros quatro meses de 2019, as importações americanas de vestuário a partir da China subiram 2% em volume, tendo-se mantido estagnadas em valor em termos anuais.

«Para além dos efeitos diretos que a disputa comercial tem nos mercados mundiais de fibras e vestuário, há também consequências macroeconómicas indiretas», reporta a Cotton Inc. «Se os aumentos de taxas forem alargados para cobrir todos os bens de consumo importados da China, os preços no retalho dos EUA podem aumentar e a procura em todas as categorias de produto pode cair. Da parte dos EUA, isso significa encomendas mais pequenas dos retalhistas. Para a China, isto sugere encomendas mais pequenas para os produtores. Com os produtores chineses a servirem como uma fonte de procura mundialmente, isso pode representar menos procura por matérias-primas e bens intermédios em todo o mundo e alimentar um ciclo vicioso de abrandamento do crescimento económico», acrescenta.

Preços em queda

Quanto ao efeito nos preços do algodão, a volatilidade parece ser inevitável. A maior parte dos preços de referência baixaram no último mês, com os preços chineses a descerem acentuadamente.

Os valores para os contratos de julho foram voláteis mas ficaram entre os 0,65 dólares e os 0,70 dólares por libra no último mês, indica a análise. O A Index, um índice dos preços médios mundiais, caiu no início de maio, mas tem estado mais estável nas últimas semanas, mantendo níveis entre os 0,76 dólares e os 0,81 dólares por libra.

Nos EUA, os preços situaram-se, em média, nos 0,61 dólares por libra na semana passada, de acordo com o Departamento de Agricultura, o que significa uma descida face aos quase 0,64 dólares da semana anterior e aos 0,90 dólares há um ano atrás.

O International Cotton Advisory Council (ICAC) indicou num relatório recente que «o mercado do algodão continua a enfrentar incerteza provocada pelo escalar da guerra comercial entre os EUA e a China, com os preços sobre pressão adicional devido a uma projeção de aumento dos stocks mundiais».

O ICAC referiu que, embora haja alguma esperança que representantes dos EUA e da China sejam capazes de apaziguar o conflito no final deste mês, quando estiverem juntos na Cimeira do G20 no Japão, o governo americano recentemente anunciou que vai apoiar com mais 16 mil milhões de dólares os seus agricultores, potencialmente indicando planos para um impasse prolongado.

«Os preços sofreram com a escalada das taxas, caindo para o valor mais baixo da época de 0,76 dólares por libra a 14 de maio. Embora o consumo mundial deva subir 1%, a produção deverá aumentar 7%, com o aumento resultante nos stocks mundiais a exercer mais pressão descendente nos preços», assegurou o ICAC.

Além da procura por algodão poder ser afetada por uma previsível desaceleração da economia mundial, a oferta também está a diminuir. O mais recente relatório do Departamento de Agricultura dos EUA reviu ligeiramente em baixa as previsões para a produção mundial e utilização pelas fiações na próxima época 2019/2020 – a produção baixou 137 mil fardos, para 125,2 milhões de fardos, enquanto a previsão de consumo diminuiu 660 mil fardos, para 125,3 milhões de fardos.

Para a época 2018/2019, que acaba em breve, as estimativas de produção mundial aumentaram e as de utilização das fiações diminuíram. Isso aumentou as previsões para os stocks finais mundiais em 2018/2019 em 1,1 milhões de fardos, para 77,5 milhões de fardos, e resultou num aumento correspondente dos stocks iniciais de 2019/2020.

Em conjunto, a pequena diminuição na produção relativamente à utilização pelas fiações e um aumento nos stocks iniciais em 2019/2020 levou a uma revisão das expectativas dos stocks finais, que deverão aumentar e, segundo o ICAC, «exercer mais pressão deflacionária sobre os preços».