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Aliança franco-italiana na moda

Sobre o xadrez mundial da moda, cada vez mais competitivo e globalizado, a França e a ItÁlia procuram estreitar as suas relações. Embora cada um dos países, igualmente ricos em termos de criatividade e herança, continue a observar o seu vizinho com bastante admiração e alguma cobiça. Não nos devemos preocupar com a saudÁvel concorrência que existe entre os nossos dois sistemas, que são líderes no sector da moda», advoga Paolo Zegna, presidente do Sistema Moda Italia (SMI). Pelo contrÁrio, devemos estudar acções comuns». Os franceses invejam à ItÁlia a sua fileira industrial ainda completa, flexível e reactiva. Por seu lado, os italianos suspiram pela posição única de Paris como palco internacional da moda. Trunfos estes que também se complementam e tornam essa aliança poderosa. A França e a ItÁlia são os dois líderes do pronto-a-vestir feminino em termos de criação. Juntos somos o coração da moda europeia», afirma François-Marie Grau, delegado-geral da Union Française des Industries de l’Habillement (UFIH). A cooperação franco-italiana não é um fenómeno novo. A jusante, a Fédération Française de la Couture e a sua homóloga italiana, a Camera Nazionale della Moda (CNM), trabalham conjuntamente hÁ mais de oito anos. é um casamento de amor, mas também é um casamento de razão», sustenta Mario Boselli, presidente da CNM e um dos mais diligentes promotores do eixo Milão-Paris na moda. Juntos, podemos resistir às pressões americanas e oferecer uma imagem coerente da moda europeia». O salão de tecidos Première Vision não teria a mesma notoriedade sem a importante participação das empresas italianas. No luxo, a Altagamma e o Comité Colbert construíram igualmente pontes. é também emblemÁtico o factor dos dois grandes grupos do luxo francês – LVMH e PPR – possuírem no seu portfólio marcas italianas – Fendi no LVMH e Gucci no PPR – e criadores italianos – Stefano Pilati na Yves Saint-Laurent (PPR) e Riccardo Tisci na Givenchy (LVMH). De igual modo, as relações tendem a estreitar-se no plano comercial. De acordo com os dados tratados pelo Institut Français de la Mode (IFM), a ItÁlia foi a primeira e segunda fornecedora da França em termos de têxteis e de vestuÁrio em 2007, enquanto que a França foi a segunda e terceira fornecedora da ItÁlia em vestuÁrio e têxteis respectivamente. Também a montante hÁ uma aproximação, atípica, entre os dois países. Face à concentração do seu sector na Europa, a Federation Nationale du Moulinage et de la Texturation e a Associazione Italiana dei Torcitori e dei Fili Artificiali e Sintetica decidiram unir forças e reunir-se três a quatro vezes por ano para elaborar estratégias comuns. Penso que o facto de trabalharmos juntos vai permitir-nos enriquecer mutuamente e revitalizar as nossas associações que, ao longo dos últimos anos, perderam fôlego e credibilidade», revela Simona Pesaro, presidente da Associazione Italiana dei Torcitori e dei Fili Artificiali e Sintética. As prioridades de trabalho dos dois organismos, à escala europeia e mundial, são a defesa de uma rotulagem de origem – “Made in Paneuromed” –, a conservação dos instrumentos de defesa comercial no plano internacional e o reconhecimento da torção e da texturização como operações que acrescentam grande valor ao produto. A grande força da indústria têxtil e de vestuÁrio italiana face à sua homóloga francesa não tem promovido grandes aproximações a este nível entre os dois países. Neste âmbito, a França tem estreitado mais os laços com a vizinha Alemanha, que tem um perfil mais semelhante ao nosso em termos de dimensão», refere Thierry Noblot, delegado-geral da organização da Première Vision. No domínio dos salões também se intensificam as cooperações. A Eurovet, organizadora do Salon International de la Lingerie entre outros, e a Mare di Moda-Intimo di Moda querem estreitar as suas relações. Ainda é demasiado cedo para falar de um acordo, mas a relação é cordial e hÁ uma verdadeira vontade de colaboração de ambas as partes», reconhece Claudio Taiana, presidente do certame italiano que tem lugar anualmente em Cannes. Mas hÁ a possibilidade que a Mare di Moda participe nos eventos internacionais da Eurovet, nomeadamente em Xangai. A Fédération Française du Prêt-à-Porter Féminin acaba de anunciar a criação, conjuntamente com a Fiera di Bologna e Massimilio Bizzi, proprietÁrio dos salões milaneses White, de um novo salão, baptizado “Link.it, Link.fr”, dedicado às actualizações do “pronto moda”. Este, que terÁ quatro edições anuais – duas em Paris, ao mesmo tempo que o salão Prêt à Porter Paris, e duas em Bolonha – pretende atrair marcas francesas e italianas, assim como de outros países, especialistas em vestuÁrio feminino, masculino, infantil e de acessórios. O conceito “Link” poderÁ depois ser exportado para os EUA e a Ásia. Esta não é a primeira “ancoragem” da federação francesa em ItÁlia: hÁ um ano atrÁs tinha jÁ promovido a sua aproximação à Alta Roma, o organismo que gere os desfiles romanos de alta-costura. Todos estes laços não são, todavia, suficientes, para esconder os pontos de desacordo entre os dois países. Na questão da rotulagem de origem, italianos e franceses defendem posições opostas. Compreendemos que, tendo em conta o peso da sua indústria, os italianos queiram penalizar as importações. Mas, pela nossa parte, não acreditamos que a rotulagem de origem possa favorecer a indústria europeia», explica François-Marie Grau. O tema da contrafacção, apesar dos esforços de cooperação entre a Fédération Française de la Couture e a Camera della Moda, também faz ranger os dentes dos franceses. No entanto, na hora da mundialização, os players da moda italiana e francesa parecem dispostos a ultrapassar as pequenas diferenças e a unir forças, nomeadamente na frente da promoção internacional nos mercados emergentes como, por exemplo, a China. HÁ aqui muito a fazer. As nossas indústrias deveriam apresentar-se em conjunto como duas pérolas do sistema moda sobre estes novos mercados», conclui Paolo Zegna.