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Alpaca no segredo das exportações do Peru

Os produtores de vestuário peruanos estão a apostar na fibra de alpaca com o objetivo de aumentar as exportações. A estratégia passa por exportar mais produtos de valor acrescentado e menos matérias-primas.

Com o crescimento das exportações no horizonte, a indústria de vestuário do Peru está a fomentar o uso de alpaca, uma fibra de origem animal reputada pela suavidade e durabilidade. O objetivo é impulsionar a subida das exportações, uma vez que consideram que o Peru tem recursos suficientes para sustentar esta aposta.

«Em vez de exportarmos matérias-primas, queremos exportar mais artigos de valor acrescentado» explica, ao just-style.com, Raúl Rivera, diretor de marketing da Michell & Cia, uma empresa situada em Arequipa, que produz fibra, fio e vestuário com alpaca.

O Peru tem mais de 3,6 milhões de alpacas, o que representa 80% do número total deste mamífero a nível mundial, de acordo com dados do Ministério da Agricultura. Por consequência, a estratégia pensada pelas empresas pode transformar-se em realidade, sendo que, nas últimas duas décadas, a lã fina e comprida das alpacas tem sido tradicionalmente exportada e cada vez mais utilizada para o fabrico de vestuário.

No início, os produtores vendiam lenços e camisolas para os turistas, mas agora estão a investir nesta fibra para fabricar casacos, vestidos e coletes para marcas de moda na Europa, no Japão e nos Estados Unidos. Max Mara, Kate Spade, Ulla Johson, Mara Hoffman, Ragman e Peruvian Connection são alguns exemplos.

«A medida mais recente neste sentido é fazer coleções para vender nas nossas próprias lojas no Peru e também para exportar» revela Juan Pepper, diretor comercial da Michell & Cia. A empresa tem mais de 40 lojas da marca Sol Alpaca no Peru, oito no Chile e duas na Austrália. Este ano lançou uma segunda marca, Mallkini, com duas lojas em Cusco, um destino popular turístico localizado nos andes peruanos. Está ainda prevista a abertura de mais cinco lojas até ao final do ano.

Grupo Inca, o concorrente direto da Michell & Cia, vende roupas através da marca Kuna enquanto que a fabricante e retalhista Anntarah está a comercializar a própria marca de alpaca e também outras marcas peruanas como Andina Outdoors, Ayni e Bonalla.

«Estão a surgir cada vez mais marcas que tencionam abrir cadeias de retalho locais com o objetivo de conquistar os turistas porque, segundo o Banco de Reserva Central do Peru, os gastos dos turistas estão a caminho de crescer 8% ao ano entre 2019 e 2020. Várias marcas abriram pontos de venda na China e todas elas têm como alvo os Estados Unidos», afirma Raúl Rivera.

Salto nas exportações

O impulso expansionista está a aumentar as exportações de vestuário que, em 2018, representaram quase um quarto dos 206 milhões de dólares (cerca de 188 milhões de euros) das exportações totais de alpaca – as fibras e os fios representaram a maior parte do resto –, de acordo com a PromPerú, a comissão peruana de promoção das exportações e turismo.

Em 2018, as exportações de vestuário de alpaca cresceram 16,1%, para um valor recorde de quase 48 milhões de dólares. Em 2017, o valor das exportações tinha sido de 42 milhões de dólares, para o qual contribuiu o aumento de 20,1% das vendas aos EUA, que importaram 25 milhões de dólares ou 52% do valor total. Os outros grandes mercados de vestuário de alpaca são a Alemanha e o Japão, de acordo com os dados da PromPerú.

Igor Rojas, responsável pelo departamento da indústria de vestuário na PromPerú, espera que as vantagens competitivas do Peru impulsionem ainda mais o crescimento. «Poucos países têm um cluster têxtil verticalmente integrado» como o Peru, afirma.

Juan Pepper compara a indústria peruana com outras grandes produtoras de matérias-primas, como a Austrália e a lã e a África do Sul com a lã mohair – ambos os países exportam praticamente toda a fibra que produzem. «Os outros países não foram capazes de desenvolver o que o Peru fez com a alpaca», sublinha.

O grande desafio para acelerar o crescimento das exportações é o desenvolvimento de estratégias de e-commerce para responder ao aumento das compras online. Um esforço que vai para além da construção de um site e que também engloba a escolha do melhor local para armazenar os produtos destinados à Europa e aos EUA e ir ao encontro da grande variedade de tendências de moda.

«É mais fácil enviar os fios para fora do que fabricar camisolas para um país em particular com preferências específicas», explica Pepper. Ainda assim, com os produtores no Peru equipados com as máquinas mais recentes, as exportações deverão crescer com base na economia do negócio. «Obtém-se um lucro maior do que a vender fios», conclui Juan Pepper.