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Alta-costura sonha e segue

A crise segue o seu curso mas as grandes marcas internacionais de alta-costura voltaram a propor o luxo máximo nos desfiles para o Outono/Inverno 2009-2010 que acabam de terminar em Paris. Entre as colecções apresentadas o destaque vai, obrigatoriamente, para o desfile “quase milagroso” da Christian Lacroix. De acordo com os especialistas de moda, todos os colaboradores do estilista trabalharam de graça, de forma a conseguirem realizar esta colecção memorável, que mostrou uma paleta de cores bastante escura, em tons de preto e azul-marinho. «Estas são cores bastante bonitas de se trabalhar e estou bastante satisfeito por ter sido capaz de enfrentar uma potencial tragédia, de forma tão positiva», salientou Lacroix. Este desfile, mencionado como um dos melhores pelo "The New York Times" e muitas revistas especializadas em moda, terminou entre lágrimas e com a plateia (cerca de 250 convidados) num grande abraço colectivo com o estilista. Já a Armani Privé voltou a ocupar um lugar privilegiado nos desfiles da Cidade-luz ao apresentar uma elegante colecção repleta de cristais Swarovski. O Palais de Chaillot foi o cenário escolhido pelo criador italiano para mostrar as suas novas propostas, entre as quais predominou uma estética metálica, complementada por colares e brinco prateados. A colecção inteira foi dominada por uma paleta de cores em tons neutros, prateados, azuis e negros. Em particular, Giorgio Armani pegou nalguns elementos da moda masculina e tornou-os mais femininos, transformando-os assim em elegantes peças de alta-costura, que mantêm o glamour e a modernidade que as clientes da marca tanto apreciam. Misturando os seus exclusivos designs, com peças de lingerie, John Galliano, director criativo da Christian Dior, apresentou vistosos vestidos e «visuais por metade», como o próprio fez questão de explicar. «Aproveitei a paranóia da crise para apresentar um conceito sensual, quiçá levado ao extremo, que proporcionou assim a apresentação de uma colecção de roupa interior combinada com exclusivas peças». No entanto, esta metáfora sobre a crise foi apenas uma questão de aparência, visto que as vendas da Dior em Londres alcançaram – ao contrário do que se esperava – um aumento de dois dígitos. Esta edição da Semana de Moda de Alta-Costura de Paris não poderia também deixar passar em branco um dos acontecimentos mais mediáticos das últimas semanas. Com feito, Eric Tibusch fez uma inesperada homenagem póstuma a Michael Jackson. Inesperada porque o seu objectivo era apenas o de celebrar o regresso do “rei da pop” aos palcos, através de casacos com fechos, calças justas, cintos diversos e blusas transparentes. Quanto ao “kaiser” Lagerfeld apresentou a colecção da Chanel, num final de tarde – horário escolhido pelo próprio. Ao som da cantora inglesa La Roux, desfilaram pela passerelle modelos envergando vestidos com a parte de trás mais longa do que a da frente, em proporções diversas, ou com uma espécie de cauda plana sobreposta. Vistos de frente, a silhueta junto ao corpo de algumas peças lembrava a de vestidos chineses. «A semelhança com o vestido chinês (cheongsam) não parece ser coincidência. A alta-costura tem vindo a lutar para sobreviver e as casas de elite parisiense querem ganhar corações, mentes e carteiras dos abastados clientes chineses, que parecem estar agora a preencher a lacuna deixada pelos americanos», referiu o jornal inglês “The Guardian”. Gustavo Lins, o único brasileiro presente no certame, propôs uma colecção apurada e serena, mantendo os temas de criações anteriores, com inspiração na arquitectura e no minimalismo de cores e detalhes de linhas assimétricas. «é a síntese de tudo o que fiz desde o princípio a partir de quimonos, do vestuário masculino, da porcelana», explicou o estilista. Numa Semana de emoção e sofisticação, ficou a impressão de que a alta-costura se aproxima cada vez mais do pronto-a-vestir e vice-versa. Mas contínua a permanecer a diferença básica de uma e de outra, isto é, a alta-costura faz peças com exclusividade, com requintes de costura e detalhes sofisticados, como bordados à mão. Já o pronto-a-vestir é produzido de forma industrial. No entanto, na passerelle, essas diferenças parecem cada vez mais ténues.