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América boicota luxo francês?

A atitude dos consumidores americanos modificou-se realmente face aos produtos franceses. Ao ponto que, entre Fevereiro e Abril de 2003, as exportações francesas destinadas aos EUA diminuíram de cerca de 18%. Contudo, é difícil inculpar esta brusca desafeição ao que poderia ser um boicote do “made in France”, num contexto económico pouco favorável no outro lado do Atlântico. Tais são as comedidas conclusões do inquérito realizado pela French Luxury Marketing Council, uma associação de profissionais do luxo e pela Transmark Partners, um instituto de estudos americano dirigido pelo francês Yves Coléon. O estudo foi efectuado junto de uma amostra de consumidores americanos cujos rendimentos anuais excedem os 65.000 euros, com cerca de 46% do painel ganhando mesmo mais de 87.000 euros por ano. «São os consumidores de produtos de luxo os que possuem maior mobilidade e que são os mais importantes consumidores de produtos franceses», explica Yves Coléon, salientando ainda o clima de morosidade global que reina além-Atlântico. Embora o índice de confiança dos americanos tenha subido em Abril, permanece bastante abaixo do seu nível do ano passado. E a progressão da taxa de desemprego, que duplicou em dois anos, atingindo os 6,1%, corrobora muito ao que Yves Coléon diagnostica com «um clima psicológico de medo por parte do consumidor americano». Neste contexto sombrio, será que a imagem da França foi alterada, junto desta clientela abastada, pela sua posição na crise iraquiana? A resposta é afirmativa para 60% das pessoas interrogadas pela Transmark Partners, e 74% declaram desaprovar essa posição. «Os americanos estão muito marcados pelos recentes acontecimentos e apenas 30% entre eles pensam actualmente partilhar os mesmos valores que os dos franceses», salienta Yves Coléon. Além disso, 47% da amostra estima que os seus compatriotas deveriam boicotar os produtos franceses, e eles são 39% a agir assim pessoalmente. Embora os produtos franceses sejam reconhecidos como apresentando uma qualidade superior para 41% dos americanos ricos, 43% entre eles anunciam a sua intenção de transferir as suas compras de marcas francesas para marcas americanas, em geral a melhor preço. «Quando se trata de consumo de artigos de luxo, as marcas francesas são tradicionalmente mais atractivas do que as marcas americanas, principalmente em vinhos, perfumaria, gastronomia e turismo», explica Yves Coléon. «Em épocas normais, isto é positivo para estes segmentos, mas actualmente coloca-as no colimador. Em contrapartida, esta distinção é menos sensível para os cosméticos, a moda e a joalharia». O estudo interessa-se de perto ao sub-segmento dos 40% das pessoas interrogadas, que consideram os produtos franceses como os mais atractivos. Estes melhores clientes do luxo francês figuram entre os mais privilegiados: metade deles apresentam rendimentos anuais superiores aos 87.000 euros e mais de 60% realizaram mais de quatro anos de estudos. Porém, segundo Yves Coléon, esta população, da qual se poderia esperar a fidelidade mais incondicional, combatem firmemente o “made in France”. Metade deles declara ter a intenção de se voltar para as marcas americanas, enquanto que apenas 40% continua a preferir os produtos franceses. «A ideia de que o sentimento anti-francês viria da América profunda é, então, falsa. Esse sentimento vem também dos meios com maior cultura», salienta Yves Coléon. Por fim, a Transmark Partners debruçou-se sobre a percepção, nos EUA, dos patrões franceses ou muito ligados à França. As suas reacções vieram corroborar as dos consumidores americanos, pois 80% entre eles reconhece existir uma ligeira baixa do seu volume de negócios e 16% uma queda nítida das sua vendas. Entre as principais causas do abrandamento as actividades, a actual conjuntura económica e o elevado desemprego ocupam a primeira posição, à frente do boicote dos produtos franceses e a crise dos mercados financeiros. A desvalorização do dólar aparece apenas depois de todos estes factores. A ruptura entre os americanos e os franceses parece, por conseguinte, bem real. «Não devemos subestimar os efeitos, além de que a metade desses patrões de empresas confessaram o seu pessimismo a curto prazo», previne Yves Coléon. Ele próprio procura relativizar o impacto, afirmando que muitos americanos ignoram a origem real das marcas. «Mas existe um núcleo duro, de 15 a 25% dos consumidores de produtos de luxo, onde vai ser difícil fazer evoluir esses sentimentos. Os produtos mais vulneráveis são aqueles que estão mais associados à imagem francesa e facilmente substituíveis por produtos americanos», declara. Daí os esforços recentes do governo francês com vista a estimular as vendas de produtos franceses nos EUA. Neste contexto, o ministro delegado do Comércio Externo francês – François Loos – acaba de apresentar em Nova Iorque várias medidas de apoio à exportação, como o reforço da presença francesa nos salões profissionais americanos e da vigilância comercial nos quatro sectores-chave: os bens de consumo, as biotecnologias, os mercados públicos e o turismo.