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América Central otimista com Trump

Ao contrário dos vizinhos mexicanos, a eleição de Donald Trump para a presidência dos EUA mergulhou a indústria têxtil e vestuário da América Central num clima de otimismo. Países como a Guatemala, Honduras e El Salvador acreditam que vão beneficiar da política anti-China e anti-México da nova administração.

A América Central pode beneficiar da renegociação do Nafta do presidente-eleito dos EUA, Donald Trump, de acordo com responsáveis locais, que estão otimistas em relação a um aumento das exportações de vestuário, já que muitas encomendas na China podem ser deslocalizadas para a região.

«Bebemos algumas tequilas porque estávamos com muito medo do TPP», brinca Alejandro Ceballos, presidente da Vestex, a associação da indústria de vestuário da Guatemala, quando questionado pelo just-style.com sobre como o seu país e a América Central vê a chegada do presidente-eleito Trump à Casa Branca. «Toda a gente tem dificuldade em perceber Trump, mas ele tem um lado que Obama nunca teve: ele é um empresário e não um político. Ele sabe como funciona o comércio mundial», acredita Ceballos.

Ao contrário do México, onde Donald Trump é visto como um “filme de terror” com ameaças de cancelar ou modificar o Acordo de Comércio Livre da América do Norte (Nafta), na Guatemala é visto como um salvador da indústria que no ano passado temia um forte golpe com a aprovação da Parceria Transpacífico (TPP).

Mas agora que o magnata do imobiliário prometeu sair do acordo e não fez ameaças de pôr fim ao DR-Cafta – o Acordo de Comércio Livre da América Central e República Dominicana, que liga a Guatemala, El Salvador, Honduras, Nicarágua, Costa Rica e República Dominicana com os EUA, o maior consumidor mundial de vestuário – a indústria espera bons tempos.

Especificamente, Ceballos prevê que as exportações de vestuário sob o DR-Cafta aumentem 10% para cerca de 9 mil milhões de dólares (aproximadamente 8,7 mil milhões de euros) este ano – revertendo um declínio de 2,2%, para 8,15 mil milhões de dólares, no final de outubro. Trump quer punir os países que contribuem para o défice comercial dos EUA, como a China e o México, onde afirma que muitos empregos americanos se perderam nos sectores de produção de automóveis e outros, destaca Alejandro Ceballos.

Uma região a florescer

Por consequência, a América Central, que importou 23,2 mil milhões de dólares dos EUA em 2015 e só exportou 9,2 mil milhões de dólares (em vários sectores) e fabrica menos produtos industriais que o México, deverá poder florescer, acrescenta o presidente da Vestex. «A América Central importa a maioria do fio dos EUA, muito mais do que o México, e não temos uma base industrial ou produtos para exportar», explica Ceballos. «O Cafta é bom para os EUA, que já envia duas vez mais do que o que nós exportamos», acrescenta.

No entanto, os EUA têm um défice nos têxteis e vestuário com os seis países que fazem fronteira com o México. No ano até outubro de 2016, o país enviou 1,5 mil milhões de dólares em fio e 893 mil dólares em tecido para a região, um aumento de 6,5% e 8%, respetivamente. Pelo contrário, a América Central enviou 8,1 mil milhões de dólares em vestuário para clientes como o Wal-Mart, JC Penney, Amazon e VF Corp.

Alejandro Ceballos afirma que um «fluxo emergente» de encomendas chegou após a vitória de Trump, sobretudo porque muitos importadores que estavam a aumentar as compras ao Vietname e à Ásia em geral para beneficiarem do TPP fizeram uma inversão e rapidamente retomaram as encomendas à América Central. «Queriam parecer bem» após Trump ter escolhido o bilionário dos têxteis Wilbur Ross como Secretário do Comércio para gerir a sua agenda anti-China. Isso irá provavelmente ter impacto na estratégia do Vietname de comprar matérias-primas baratas à segunda maior economia mundial, que é vista como estando a ajudar a desenvolver a indústria do país para se tornar no segundo maior fornecedor de vestuário dos EUA.

Ceballos espera agora que muitas encomendas à China regressem à América Central e, juntamente com o reforço da economia dos EUA, impulsionem a procura por vestuário básico e vestuário em malha, calças e blusas que a América Central produz.

Tendo em conta a proximidade da região, «temos tido encomendas de reposição, mas penso que agora vamos ter as maiores» nas quais a China está especializada, acrescenta o presidente da Vestex.

Jesus Canahuati, proprietário da produtora de malhas Elcatex, das Honduras, concorda que Donald Trump vai beneficiar a região. «Nós trazemos emprego para os EUA», afirma o empresário, que lidera o plano de desenvolvimento “Honduras 2020” para criar um grande centro de produção de sintéticos. «Trump não gosta do Nafta porque ajuda o México a roubar empregos aos EUA», explica.

As exportações das Honduras podem ganhar 5% a 7% em 2017, depois de terem caído 3% em 2016, revela Canahuati. «Todos os encerramentos de lojas nos EUA afetaram-nos, incluindo a Sports Authority, Wal-Mart, Gap e Macy’s», refere. Contudo, devido ao aumento das encomendas dos EUA e a algumas novas aberturas de fábricas nas Honduras agendadas para o próximo ano, os envios devem aumentar significativamente, acredita.

A Fruit of the Loom, Gildan e Delta aumentaram os seus investimentos para impulsionar a produção nas Honduras.

Resposta à altura

Com algumas estradas esburacadas e uma pequena infraestrutura portuária, os observadores consideram que o aumento esperado das encomendas vai causar dores de cabeça. «Não temos infraestruturas suficientes», confirma Alejandro Ceballos ao just-style.com. «As nossas estradas são muito lentas e temos poucos e pequenos portos e aeroportos», sublinha.

A falta de portos e infraestruturas para barcos significa que os contentores que se dirigem a Miami a partir da Guatemala custam cerca de 4.000 dólares em comparação com 1.000 dólares quando partem da China para Long Beach, na Califórnia.

O plano de Donald Trump para expulsar 3 milhões de imigrantes com registo criminal dos EUA (alguns dos quais podem ser da América Central) pode diminuir o envio de remessas, que no caso da Guatemala ascendem a 8 mil milhões de dólares – cinco vezes os 1,5 mil milhões de dólares que o país recebe das exportações de vestuário. «Se as remessas caírem, as exportações terão de aumentar», afirma Ceballos, destacando que a região tem de privatizar as infraestruturas para as aumentar e modernizar.

Trump pode ajudar nesta área, espera Ceballos, acrescentando que as enormes necessidades de vestuário dos EUA irão encorajar o presidente-eleito a mobilizar financiamento para expandir a capacidade de produção da América Central.

Esta região deverá ainda beneficiar da ameaça do novo presidente dos EUA de impor uma taxa de 35% sobre as exportações de têxteis e vestuário do México. «O México nunca jogou limpo», acusa Ceballos, acrescentando que o país manteve, de forma injusta, a América Central nas trevas. «Eles vendem mas não querem comprar nada e quando queremos exportar para lá, eles têm um milhão de barreiras ao comércio que torna impossível para as empresas da América Central entrar no mercado», lamenta-se o presidente da Vestex.

Alternativa ao México

Patricia Figueroa, presidente da Camtex, a associação de têxteis e vestuário de El Salvador, está igualmente otimista. «Tem havido receio de que o Trump elimine o Cafta, mas [Wilbur] Ross já assegurou que isso não vai acontecer», refere. «Os compradores vão começar a ver-nos como uma alternativa mais interessante ao México», além da Ásia. «Podemos ter uma mudança interessante», acrescenta.

Contudo, as alfândegas da América Central são conhecidas por serem lentas e pouco eficientes, com grandes burocracias a contrabalançarem os ganhos resultantes da proximidade geográfica, aponta Figueroa. «Um grande desafio é melhorar as alfândegas para mover os bens, as amostras e as séries curtas de forma mais rápida e mudar a mentalidade dos responsáveis», explica, concordando que esta ineficiência pode provocar congestionamentos à medida que surgem novas encomendas.

Os governos têm também de dar segurança aos investidores de que o seu dinheiro está seguro. «Tem de haver uma certeza real sobre as regras do jogo e que estas não serão sujeitas aos impulsos do político do dia», conclui Patricia Figueroa.