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América Latina de mãos atadas

O processo de impeachment de Donald Trump e a crescente instabilidade política que se faz sentir na América Latina têm vindo a prejudicar as encomendas e a congelar investimentos. As exportações de têxteis e vestuário da região podem não ter atingido os objetivos mínimos previstos para 2019.

«Esperávamos um crescimento de dois dígitos de, pelo menos, 10% especialmente após o nosso desempenho no ano passado», quando algumas marcas da indústria da maquila (regime especial para empresas exportadoras), como a Target e a Fruit of the Loom, cresceram 12% em volume de negócios, admite Alejandro Ceballos, presidente da Vestex (Associação do Vestuário e Têxteis da Guatemala).

A Vestex monitoriza as exportações para o mercado americano sob o tratado de livre comércio entre os EUA, República Dominicana e América Central (DR-CAFTA, na sigla original), que oferece uma zona de livre comércio, reduzindo ou eliminando as taxas alfandegárias entre os países membros. «Tem sido um ano desapontante, [cujos resultados] não são benéficos para o crescimento da nossa economia e do trabalho», reconhece Ceballos.

Durante os primeiros nove meses do ano, as remessas do DR-CAFTA subiram 7,36% para 8,6 mil milhões de dólares (7,66 mil milhões de euros), em volume de negócios, e 2,43% para 2,99 milhões de metros quadrados (SME) – em 2018, estes dados chegaram aos 12% e 9% respetivamente, um nível recorde para o sector.  No final de 2019, os analistas da América Central antecipavam ganhos de 7% em metros quadrados.

Guatemala é exceção à regra

Quando o presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou, pela primeira vez, a imposição de tarifas alfandegárias, formalizando uma guerra comercial com a China, os produtores de vestuário procuraram antecipar o aumento dos custos, extrapolando os pedidos de encomenda. «Tinham demasiado stock nos armazéns [para satisfazer a procura americana], portanto cancelaram encomendas, que começaram a diminuir em abril», assevera o presidente da Vestex.

Este fenómeno pareceu não ter efeito sobre a Guatemala, onde se comercializa algum do vestuário mais caro dentro do bloco DR-CAFTA. As exportações do país aumentaram 8,5%, em volume de faturação, com as remessas de tecido a subir 15%, devido à procura de poliéster por parte de outros países da América Central. Estes dados excedem as previsões de crescimento de 9% para 2019. «A Guatemala está a aproveitar os custos da mão de obra mais reduzidos da Nicarágua. Oferecemos o pacote completo, enviando amostras e posteriormente os tecidos para ali produzir vestuário, de modo a que possam ser reencaminhados para os EUA», explica Alejandro Ceballos.

Instabilidade afasta marcas

Apesar da Guatemala ter conseguido fugir à aparente depressão da economia da América Latina, as perspetivas para os países da região continuam a não ser otimistas, nomeadamente ao nível do investimento. De facto, o presidente da Vestex revela que os produtores estão a antecipar investimentos de cerca de 100 milhões de dólares este ano. Contudo, o futuro incerto da administração de Trump e a instabilidade política crescente que se faz sentir desde o México à Patagónia causaram a estagnação das marcas, o que se pode refletir numa inversão do valor do investimento previsto.

É o caso da empresa de vestuário da Coreia do Sul Sae-A Trading, que planeava construir uma fiação de 200 milhões de dólares na Guatemala durante o verão e acabou por não avançar com o projeto. E da empresa Li & Fung, sediada em Hong Kong, preparada para rever as suas fontes de sourcing, devido aos tumultos que afetam a Nicarágua e na América do Sul.

Contudo, o presidente da Vestex argumenta que «ninguém quer tomar uma atitude [definitiva] até perceber o que vai acontecer com o impeachment de Trump». Alejandro Ceballos evidencia ainda que o ambiente reflete o «medo» generalizado, após os distúrbios violentos no Chile de cidadãos que exigiam melhores serviços sociais e o fim da desigualdade. Cinco semanas de protestos e vandalismo provocaram a morte de 26 pessoas e mais de 13 mil feridos – o que constituiu o «melhor indicador [para comprovar a instabilidade política da região]», aponta Ceballos.

A par do Chile, estiveram as revoltas igualmente mortais na Bolívia, onde a saída do antigo presidente Evo Morales quase despertou uma guerra civil, acompanhadas por um descontentamento geral também na Colômbia e no Equador, criando um ambiente de tensão e insegurança entre as marcas, muitas das quais estão a atrasar investimentos de curto prazo.

«No próximo ano, acontecerá o mesmo», antecipa o presidente da Vestex. «É um ano de eleições nos EUA e mais volatilidade advirá daí. Mas vamos depender do consumidor americano. Os americanos estão a receber bem e a trabalhar, mas não estão confiantes na economia».