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António Manuel de Sousa tem marca nova

A empresa especialista em acessórios de pescoço está a apostar em matérias-primas sustentáveis e a ponderar a utilização de mais tecidos portugueses para as suas gravatas. Com o negócio principal ainda em pausa, a António Manuel de Sousa continua a trabalhar nas máscaras e lançou a HatDoc, uma marca específica para toucas.

Ana Lisa Sousa

A «pequena empresa familiar», como descreve a sócia-gerente Ana Lisa Sousa, pode ser reduzida em tamanho, com os seus 10 trabalhadores, mas os projetos são cada vez mais. Embarcando na onda verde que tem transformado a indústria de moda em todo o mundo, a António Manuel de Sousa está a avançar na sustentabilidade ambiental e a oferecer, pela primeira vez, gravatas mais “amigas do ambiente”.

A escolha recaiu sobre um tecido da Lemar que usa Sequal, uma fibra produzida através da reciclagem de plástico recolhido no mar. «Os tecidos reciclados são uma estreia para nós», reconhece Ana Lisa Sousa. «Já começa a haver tecidos reciclados, mas ainda não é uma necessidade, o mercado ainda não procura. Para nós pode ser o início de um novo ciclo», explica a sócia-gerente ao Portugal Têxtil.

Um ciclo que não só terá materiais mais sustentáveis, como poderá levar a uma redução da pegada de carbono no transporte, nomeadamente com as compras em Portugal. «Na parte da gravataria compramos tudo em Itália – são eles que normalmente têm tecidos para gravatas. A partir do momento em que começamos a ver que, a nível nacional, já temos propostas em que as metragens não são muito grandes, que é algo que também é importante para nós, acho que é interessante estarmos a meter uma parte de reciclados na nossa produção e reforçar o “made in Portugal», afirma Ana Lisa Sousa.

Estas gravatas com tecidos reciclados estiveram em destaque também no iTechStyle Green Circle, nos passados dias 23 e 24 de setembro no  Modtissimo, onde foram usadas para produzir um vestido desenhado pelo Manifesto Moda. «Tínhamos curiosidade em participar no Green Circle e este ano conseguimos», revela a sócia-gerente. O projeto acabou por ser «uma agradável surpresa, porque não é fácil construir uma peça de roupa com base em gravatas. Adoramos», confessa.

O negócio dos acessórios de moda formais – como gravatas, laços e coletes –, que são o core business da António Manuel de Sousa e da sua marca própria Vandoma, está, contudo, praticamente parado desde o início da pandemia. «A gravata não está na moda já há muitos anos, mas sempre defendi o nicho de mercado. Temos clientes que fazem questão de usar a gravata, mas são nichos», admite Ana Lisa Sousa. O Covid-19 deu mais um golpe, já que todos os eventos formais, como casamentos ou comunhões, típicos do verão, não aconteceram. «A parte da exportação [que correspondeu a cerca de 30% dos cerca de 700 mil euros de volume de negócios no ano passado] parou também – os clientes viram-se forçados a fechar os negócios, portanto as encomendas ficaram todas adiadas», indica.

HatDoc é nova aposta

A empresa virou-se, por isso, para outros nichos, nomeadamente as máscaras – que atualmente têm já certificação de nível 2 e de nível 3, em diferentes modelos e para adulto e criança – e as toucas para os profissionais de saúde. «Nas máscaras pegámos em tecidos vintage de gravatas que tínhamos em stock e conseguimos aproveitar desenhos que dificilmente voltariam a sair em gravatas. Daí as nossas máscaras serem diferentes – são estampadas, coloridas, têm bonecos, flores,…», conta Ana Lisa Sousa. «Entretanto, houve médicos que me pediram para desenvolver toucas. E porque não? Temos os tecidos e achámos engraçado registar a marca, porque em Portugal não existe nenhuma empresa que trabalhe as toucas», acrescenta.

Nasceu assim a HatDoc, com toucas em poliéster, o que lhes confere resistência e permite que sejam lavadas a 60 ºC, pensadas para serem usadas por médicos, dentistas, veterinários e outros profissionais. Os diferentes modelos, que tal como as máscaras usam tecidos estampados, podem ser adquiridos online, quer através do website da marca, quer na loja online da Vandoma. «Há muita gente que trabalha as toucas cirúrgicas, mas aquilo que vemos nas séries e filmes americanos é algo que não existe muito aqui. Nós conseguimos toucas clássicas, lisas, com pintas, com bonecos, temos tudo. E, mais uma vez, é usar o stock, aquilo que temos dentro de portas, porque isso é que é negócio para nós», salienta Ana Lisa Sousa. Além disso, permite «a venda direta ao público. Numa loja online, as pessoas fazem o pagamento e nós só temos que enviar, portanto, não precisamos de comerciais, não precisamos de uma estrutura de venda, é fácil», destaca.

Retoma lenta

A empresa tem igualmente mantido o contacto com os clientes habituais, não através das feiras profissionais, que eram um dos veículos privilegiados, mas pelas vias possíveis, como o telefone e a Internet. «O facto de termos o contacto direto dos clientes ajuda muito. Vamos estando em contacto e suprimindo algumas, poucas, necessidades eles vão tendo», aponta a sócia-gerente.

A nova coleção, mais pequena, tem sido ocasionalmente apresentada, consoante os clientes, e há alguma esperança na retoma do mercado, que permita compensar a quebra do volume de negócios que, face a 2019, ficou reduzido a metade. «Neste momento, a nossa faturação está 50% abaixo. Não me posso queixar porque, felizmente, temos o trabalho com as máscaras, mas não é o que queremos», assume Ana Lisa Sousa. «Acho que poderemos vir a recuperar, porque isto é tudo muito incerto. Poderá haver uma retoma no mês de novembro, por exemplo, se os clientes estrangeiros precisarem de artigo», acredita.