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Ao ritmo do clima

As matérias-primas utilizadas pelo sector de luxo são, frequentemente, provenientes de áreas geográficas restritas, particularmente suscetíveis às mudanças climáticas. Isto suscita, cada vez mais, a preocupação das entidades do sector, despoletando iniciativas que pretendem analisar estas transformações.

O grupo Kering – o grupo de luxo proprietário das marcas Gucci, Saint Laurent, Alexander McQueen, Balenciaga, Stella McCartney, Sergio Rossi, entre outros nomes de destaque – mostra-se preocupado com o impacto das mudanças climáticas sobre as marcas de luxo.

As empresas de moda dependem fortemente da produção agrícola para a obtenção de matérias-primas, o que poderá colocá-las em maior risco de efeitos comerciais adversos decorrentes das mudanças do clima. Neste contexto, o grupo estabeleceu uma parceria com a organização Business for Social Responsibility (BSR) para analisar as alterações climáticas e identificar prioridades nesta área para o sector.

Embora a discussão sobre as mudanças climáticas tenha sido recebida com críticas no passado, a NASA e um Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas afirma que as «evidências científicas sobre o aquecimento do sistema climático são inequívocas. A tendência de aquecimento global atual é de particular importância, porque na sua maioria é, muito provavelmente, induzido pelo ser humano e tem evoluído a um ritmo sem precedentes nos últimos 1.300 anos», pode ler-se no site da NASA sobre as mudanças climáticas atuais.

Estas são algumas das ideias destacadas no contexto do relatório produzido pelo grupo Kering e a BSR.

O fator cadeia de fornecimento

«As empresas devem compreender as suas cadeias de fornecimento e concentrar-se em apoiar os sistemas de produção das suas matérias-primas, de forma a que sejam mais resistentes face aos contratempos e volatilidade provocadas pelas mudanças climáticas», afirma o relatório.

As matérias-primas essenciais, utilizadas no sector de luxo, incluem a caxemira, couro, seda, algodão, vicunha e pele de ovelha e carneiro.

Escassez de matérias-primas

«A quantidade e a qualidade das matérias-primas serão cada vez mais afetadas pelos impactos das mudanças climáticas, criando riscos significativos para os negócios», destacam o grupo Kering e a BSR. «As mudanças climáticas estão já a reduzir a disponibilidade de matérias-primas utilizadas no sector de moda de luxo e continuarão a fazê-lo. O impacto das mudanças climáticas irá, provavelmente, escalar ao longo do tempo e conduzir a uma redução na qualidade das matérias-primas, fomentando riscos de negócio significativos para o sector de luxo».

Regiões em risco

«A mudança climática afetará muitas das regiões-chave de produção de matérias-primas de luxo, com algumas geografias mais vulneráveis do que outras», segundo o relatório. «As matérias-primas que se encontram geograficamente limitadas, como a vicunha, são particularmente vulneráveis».

As vicunhas são naturais do Chile, Peru, Bolívia, Equador e Argentina, na eco-região de Puna, nos Andes Centrais, e habitam locais de altitude elevada, situados entre 3,2 a 7 quilómetros acima do nível do mar – uma área especialmente suscetível às alterações climáticas.

Paralelamente, o algodão extrafino e a caxemira enfrentam riscos significativos devido ao «âmbito geográfico limitado das regiões de produção e a sua dependência face aos sistemas naturais», apontam o grupo Kering e a BSR.

Em busca de soluções

«As soluções na base da cadeia de aprovisionamento podem fornecer uma infinidade de benefícios sociais, ambientais e de negócios», afirma o relatório.

As dicas do relatório incluem a diminuição do uso de energia, água e produtos químicos no design e produção, a redução da energia e combustíveis utilizados em operações e logística, a adoção de fontes renováveis alternativas e direcionamento dos investimentos para a aquisição de empresas e fornecedores «resistentes às alterações climáticas».