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«Apesar da subida do volume de negócios, provavelmente não vamos conseguir manter os resultados»

Segundo o administrador Samuel Costa, os resultados operacionais do grupo Diastêxtil – que reúne as empresas Diastêxtil, Modelmalhas, Sonix e Pontos Singelos – deverão ser prejudicados pelo aumento dos custos, apesar de colmatados, parcialmente, pela revisão dos preços e pelos painéis fotovoltaicos colocados há mais de uma década.

Samuel Costa

Na altura quase uma «maluquice», como refere Samuel Costa, o certo é que esse investimento na energia solar está a ter um retorno mais cedo do que o esperado face às circunstâncias atuais, as mesmas que fazem com que o administrador veja o resto do ano como repleto de desafios e que aponte a consolidação como o grande objetivo do grupo Diastêxtil no futuro próximo, mas sem descurar a continuação da aposta na inovação e nas novas tecnologias, que lhe permitem ter, atualmente, uma forte componente de digitalização no desenvolvimento do produto, graças às ferramentas de design 3D, e acabamentos patenteados no currículo.

Como está a correr o ano para o grupo Diastêxtil nas três áreas de negócio – tricotagem, ultimação e confeção?

No geral, todas as empresas estão com performances idênticas ou melhores do que no ano anterior em termos de volume de vendas. Em termos de resultados, obviamente que vamos ser afetados pela questão dos custos energéticos. Apesar da subida do volume de negócios, provavelmente não vamos conseguir manter os resultados operacionais que temos tido. Mas as vendas estão a crescer e continuamos, felizmente, a crescer dentro dos atuais clientes e com clientes novos – desde meados de 2021, temos tido novos clientes nas várias empresas. Há clientes que transitam de produto acabado para as malhas, há clientes que transitam só do negócio de malhas para produto acabado. Mas temos crescido.

Estamos a falar de crescimentos de que ordem?

Devemos fechar, se tudo se mantiver como até agora, com um crescimento de cerca de 10% ou acima [em 2021, o volume de negócios do grupo foi de 44 milhões de euros]. Como temos uma estrutura que acaba por ser vertical, mas com empresas diferentes, o crescimento acaba por ser proporcional. No caso, por exemplo, da Modelmalhas, o volume de negócios cresce não só pelo aumento de vendas, mas também pelo custo da matéria-prima, porque as matérias-primas estão mais caras. Um quilo de malha, este ano, custa mais do que um quilo de malha no ano passado.

Como têm sido as diferentes realidades nos vários sectores face ao custo inflacionário de matérias-primas, transportes e energia?

Infelizmente, varia muito pouco, porque não conseguimos passar isso para o cliente, seja o cliente final, sejam outros fornecedores que trabalhem connosco, como nos casos em que fornecemos só malhas. Não conseguimos passar os aumentos que temos de forma direta. Obviamente que há custos que tivemos de passar, mas mesmo aí, não há nada em que, em alguma atividade nossa, tivéssemos aumentado o custo real. Há sempre uma margem que conseguimos absorver, obviamente roubando margem bruta, mas é uma forma de parceria e de tentarmos manter as coisas mais estáveis porque senão também deixamos de ser atrativos.

Qual a ordem de grandeza desses aumentos?

Em termos de acabamentos, genericamente, os preços subiram 30%. O preço do gás subiu 400%. Só aí temos uma grande diferença. Obviamente, também não são proporcionais e estamos a tentar absorver o máximo que conseguimos. Só fizemos essa atualização dos preços em dezembro e continuamos a manter os preços desde aí, mas também os custos do gás não mudaram assim tanto de dezembro para cá.

E as matérias-primas e os transportes?

Os transportes, em 2021, já estavam estabilizados e até a reduzir. Enquanto que, em 2019, um contentor custava uns 2.500 euros, em 2020 e início de 2021 chegou aos 17.000 euros e e agora estamos nos 12 a 14 mil euros. Mas, para todos os efeitos, estamos cinco vezes acima do que era o nosso standard.

Como perspetiva o último trimestre do ano?

Os nossos desafios são constantes. A guerra, obviamente, veio acentuar. Quando achávamos que a pandemia era péssima e tudo o que advinha da pandemia já era mau, acabámos por ter um desafio, se calhar, ainda maior. Temos de ser resilientes. É um chavão, mas a resiliência aqui, acho eu, é a palavra de ordem, porque não temos muitas formas de contornar isto. Obviamente que temos de ser otimistas e esperar que os preços estabilizem, especialmente o gás, que é o que tem mais impacto no produto acabado malha, e a energia elétrica. Mas a elétrica será mais fácil de contornar com a questão solar, no nosso caso. O gás não, não temos como.

Enquanto empresário, que medidas políticas considera serem mais prementes?

Creio que reduzir a carga fiscal, não para a empresa diretamente, mas que, pelo mesmo valor que as empresas pagam hoje, entregássemos mais valor líquido às pessoas que trabalham connosco. É frustrante para nós distribuirmos um prémio e as pessoas ficarem sem metade dele. Nas horas extra melhorou agora um bocadinho, mas, se conseguíssemos, pelo mesmo valor que temos hoje, entregar mais rendimento líquido às pessoas que trabalham connosco, só isso já seria uma boa medida e seria interessante para nós, porque, infelizmente, muito dinheiro que gastamos não chega a quem queremos premiar e, no fundo, não temos controlo de para onde é que ele vai, porque é taxado e são impostos.

Como é composto atualmente o grupo?

Temos a Diastêxtil, a Modelmalhas, a Sonix e a Pontos Singelos. E temos uma unidade de confeção na Tunísia.

No total, quantas pessoas empregam em Portugal?

Cerca de 500 pessoas.

Em termos de exportação, qual é a quota direta?

Em produto acabado, em peça, 100% de exportação. Em serviços, temos 20% na tinturaria para fora do grupo, mas é mercado nacional. Na Modelmalhas, atualmente, não chega a 20% de exportação.

Quais são atualmente os principais mercados de exportação?

Neste momento, é a Europa, essencialmente os Países Baixos. Reduzimos alguma coisa no Reino Unido, se bem que, agora, temos mais alguns clientes novos, e temos a Alemanha. Também temos os EUA.

Como estão a comportar-se esses mercados?

Nos EUA, neste momento, acho que a nossa maior oportunidade é a questão da paridade do dólar, porque, para eles, acaba por ser mais vantajoso. Mas, em termos gerais, e independentemente da geografia, a tendência é tentar deslocar da Ásia para mercados mais próximos, se bem que têm custos inerentes a isso que poucos clientes estão disponíveis e/ou têm capacidade de suportar.

Mas tem sentido algum efeito positivo do nearshoring?

Sim. Há essa vontade de deslocar para cá. Algumas zonas da China acabaram por ser banidas e há clientes que estão proibidos de comprar, nomeadamente os americanos. E, depois, também, indiretamente, vai afetar os clientes de outras geografias que vendem no mercado americano porque, depois, não podem exportar para lá. E, mesmo na questão da atratividade de preço, hoje em dia não é tão atrativo. Um dos poucos benefícios que temos neste momento é os custos de transporte também se reverterem contra os nossos clientes que querem comprar na Ásia. Fazendo um equilíbrio de tudo, passamos a ser mais competitivos e acabamos por, como é tradicional, ser mais flexíveis e conseguirmos entregar com lead times mais curtos, séries mais pequenas também, e aí acaba por ser uma oportunidade para nós. Se não tivéssemos o custo da matéria-prima a crescer tanto, e agora, se calhar, mais até a energia, estaríamos bem melhor, porque era uma boa oportunidade.

Investiram em painéis fotovoltaicos há alguns anos. Já tiveram o retorno desse investimento?

Sim. Começámos em 2011 com painéis, na altura duas unidades mais pequenas, e alguns painéis substituímos porque já se justificava em termos de eficiência de produção. Obviamente, o que é expectável do payback seria 10 anos, mas com o aumento da energia, acabamos por conseguir um retorno mais cedo. Honestamente, o nosso foco não era a questão do payback do investimento propriamente dito, mas sim reduzirmos a dependência que tínhamos de outras energias e termos a certeza de que temos, realmente, energias limpas. No caso da Sonix, por exemplo, retirando a tinturaria, que obviamente tem consumos energéticos muito altos e tem a questão do gás, toda a unidade de produção é autónoma via solar.

No total, quanto investiram em energia fotovoltaica?

Diria 750.000 euros nos últimos 11 anos.

Que papel tem hoje a sustentabilidade ambiental dentro do grupo e como se equilibra com a sustentabilidade económica?

Tentamos ser o mais eficientes possível. Monitorizamos consumos de energia máquina a máquina, por exemplo. A nossa indústria não nos permite sermos mais neutros porque há coisas que advêm da própria indústria e são poluentes, mas temos essa consciência e tentamos fazer o nosso papel. Daí a questão do investimento em energias renováveis, que foi muito mais pela vertente da responsabilidade do que do investimento per si.

Nota alguma mudança de paradigma no consumidor?

Acredito que poderá mudar bastante, apesar de não ser isso que vai resolver os problemas globais de stocks de peças acabadas, não vendidas ou o que seja – é a questão do desenvolvimento do produto. Nos desenvolvimentos é quando se fazem menos produtos assertivos, é onde há mais tentativas falhadas. Tudo isso eram coisas que eram praticamente inutilizadas a seguir e dificilmente se retomaria e, atualmente, acho que os desenvolvimentos estão muito mais assertivos. A questão do 3D facilita – usamos o Browzwear.

Que benefícios advieram da utilização desse software?

En termos de custos de desenvolvimento, temos uma redução de mais de 20%. Basta pensar que, normalmente, temos três etapas: clientes para quem desenvolvemos o produto todo; clientes para quem desenvolvemos em parceria; e clientes que entregam o produto desenvolvido e, praticamente, só temos que industrializar. Com a apresentação em 3D, em termos de protótipos, a parte da estamparia praticamente já não é feita, é aprovada digitalmente e, depois, já fazemos uma última peça só para ver como fica a malha. E, por exemplo, se forem quatro ou cinco cores, já só fazemos uma cor e as outras cores já não são necessárias. A par disso, reduzimos o número de tentativas, melhoramos lead times e há uma responsabilidade maior porque não há não sei quantas amostras que foram feitas. Antigamente, tínhamos clientes que pediam um ensaio em várias cores e eram rolos de malha com mínimos de 18 ou 20 quilos por cor. Em seis cores, são 150 quilos de malha que, provavelmente, não vão ser reutilizados. Se estiverem estampados, pior. Na questão do 3D, isto é muito imediato, conseguimos perceber logo qual é o feedback. Temos inclusivamente clientes que já aprovam digitalmente o fitting. Obviamente, passámos por um período de transição em que era necessário fazermos uma peça física e o ficheiro 3D até percebermos quais eram as fragilidades, mas há clientes que já aprovam tudo digitalmente. Sente-se que, tradicionalmente, quem é mais experiente no sector, quem está há mais tempo, gosta mais do toque, de sentir, de ver, acha que não é a mesma coisa. A vantagem das novas gerações é que estão muito mais permeáveis às tecnologias e conseguem também ter uma abordagem diferente, são mais sensíveis a aprovar digitalmente porque, por vezes, também há coisas que nós, na indústria, discutimos durante semanas e que o consumidor final não valoriza. Gastávamos muito tempo e muito dinheiro com isso. Agora, por vezes, há clientes que são mais práticos na decisão e que estão a tornar o processo, obviamente, mais sustentável. Claro que, inicialmente, a ideia é: “ok, fazemos em 3D. E isso fica mais barato?”. Não, não fica porque os softwares são muito caros, formar as pessoas fica muito caro, são pessoas muito especializadas, mas, pelo menos, conseguimos reduzir lead times, e aí falamos em tirar uma ou duas semanas ao processo de desenvolvimento.

Que importância assume a inovação para o grupo?

Tradicionalmente, gostamos de nos desafiar e temos algumas iniciativas em curso. Tem a ver tudo com maior eficiência. É nisso que estamos a trabalhar mais afincadamente este ano, na eficiência de processos. E, para alguns processos, obviamente passa pela incorporação de novas tecnologias e, acima de tudo, análise de dados. Tentarmos antecipar algumas situações em que há históricos, em que há médias, para tentar antecipar alguns problemas.

O facto de terem uma unidade dedicada à nanotecnologia gera competências acrescidas?

Sim. Para nós, traz-nos, obviamente, acabamentos exclusivos, que controlamos, que estão patenteados, apesar de serem abertos a outras empresas que os queiram incorporar. Temos duas categorias principais: o têxtil e o bem-estar. Temos a questão dos cremes, da casa, saúde, bem-estar, etc. e, no têxtil, incorporamos diretamente nos nossos produtos e temos clientes de vestuário de trabalho, de caça, pesca, que nos enviam peças e nós tratamos já a peça final com os nossos acabamentos. Temos desenvolvimento contínuo com novas matérias-primas e tentamos explorar outro tipo de corantes – temos muitos testes com café, com chocolate, etc. Há tecnologias, que também já experimentámos, que nos permitem melhorar a afinidade dos corantes e, com isso, reduzir as temperaturas de tingimento, reduzir em 20% ou 30% a temperatura necessária para fixarmos o corante no substrato. Temos isso tudo em curso, mas, se tivesse que destacar, continuo a achar que o nosso melhor produto é da Success Gadget, com o antibacteriano e o antimosquito. O antimosquito tem resultados excecionais, mas como é muito mais específico, a aplicação é muito reduzida. Onde ele realmente faz falta é onde as pessoas têm menos capacidade de compra, enquanto o antibacteriano podemos usar como bem-estar para todos. Com o covid, temos resultados excelentes, por exemplo, e na desinfeção temos também para superfícies, mas a incorporação em peça creio que o antibacteriano, para nós, é quase um standard. É um excelente produto.

Em termos tecnológicos, tem havido outras apostas?

No caso da Modelmalhas, temos uma parceria com a Smartex. Apesar de o implementarmos numa fase tardia, conheço e tive feedback do processo desde o início, quase quando aquilo era praticamente o Gilberto [Loureiro] e fomos sempre falando muito da tecnologia, fomos sugerindo melhorias e temos também isso atualmente. E creio que teremos também algumas novidades, entretanto.

Por onde passam a ambições do grupo Diastêxtil?

A ambição geral do grupo é a consolidação, sem dúvida. Neste momento, não estamos muito focados em crescimento face à conjuntura que temos. Estamos a fazer investimentos, mas numa perspetiva de consolidar. Mas nada é estanque e, se calhar, amanhã temos uma oportunidade ou um desafio de um cliente para crescermos com uma nova unidade e, provavelmente, diremos que sim, para fazê-lo juntos. Gostamos muito de desafios dos clientes. Desafiamos e somos desafiados e estamos disponíveis para colaborar com qualquer coisa. Mas, nesta fase, o nosso foco é consolidar. Manter tudo já será um grande desafio. Se mantivermos as nossas pessoas bem, já será um grande desafio e é nisso que estamos focados.

Como encara 2023?

Acho que vamos ter muitas oportunidades, mas com uma abordagem diferente daquilo que estamos habituados. Infelizmente ou felizmente, sinto que a forma de abordagem dos clientes está a mudar. Também fruto do covid, perdemos muito a relação pessoal e, por vezes, somos mais frios nas relações e nas abordagens e aí acho que os portugueses têm um bocado de sorte, porque somos mais próximos e gostamos de estar mais com as pessoas e criar relação, receber e visitar, e acho que isso será bom para nós, Portugal. Mas, tirando a questão energética que não podemos controlar ou, pelo menos, não depende muito de nós, apesar de haver perspetivas de algum tipo de suporte por parte do Governo para que as coisas fiquem mais ou menos estabilizadas, acho que o têxtil é um sector em adaptação. Nunca vamos ter muita visibilidade porque, na realidade, se olharmos para o histórico, e é nisso que nos devemos fixar, não há grandes planos que tenham sido concretizados nos dois sentidos, no bom e no mau. Havia um projeto para o têxtil a 10 anos que foi concretizado em cinco no caso da proposta da ATP, há uns anos. Agora, tudo o que precisamos de fazer pode não ser possível acontecer, como pode acontecer muito mais rápido. Se formos ver a questão da digitalização, a pandemia acelerou, e de que maneira. A energia fotovoltaica, a mesma coisa. Se calhar, há 11 anos, éramos um bocado malucos, era quase vaidade ter painéis no teto. Hoje, para muita gente, é uma necessidade. É um desafio constante. É o melhor e o pior do têxtil. É a incerteza e o desafio constante. Por isso é que gostamos ou não gostamos.