Início Notícias Moda

Aposta dupla

Manuel Alves e José Manuel Gonçalves juntaram-se há 30 anos e criaram uma das principais referências portuguesas na moda de autor. A Alves/Gonçalves tem, desde então, prosperado com um leque fiel de consumidoras mas também com projetos paralelos que lhes granjearam o respeito dos seus pares e do público.

Sem descurar o lado criativo e até artístico, Manuel Alves é perentório a afirmar, com a frontalidade que lhe é característica, que «a moda é um negócio e quem não entender isso não vale a pena estar cá». Ao Jornal Têxtil, num artigo publicado na edição de abril (ver O negócio da moda), o designer explicou que «uma peça de vestuário tem uma ideia adjacente e há o desenvolvimento dessa ideia que é a matéria-prima, o tecido, a construção, o volume, são uma data de considerações que temos de ter quando executamos uma peça de vestuário. Mas sobretudo há uma função, que é vestir».

Ao longo de quase três décadas, a dupla Alves/Gonçalves estabeleceu um verdadeiro negócio com criações de pronto-a-vestir e em atelier vocacionadas para o segmento alto. «O atelier é para um target alto. As clientes não são só ricas, são pessoas muito interessantes. Tenho clientes com 18 anos que são as filhas, mas geralmente são pessoas já mais maduras. Têm capacidade de comprar, podem escolher quem lhes vai fazer a roupa e são pessoas que querem coisas únicas», sublinhou. «A minha cliente tanto tem um vestido Gucci, como um vestido Saint Laurent, como um vestido Chanel, como um vestido da Balenciaga, mas também tem dois ou três meus», acrescentou.

Na mais recente coleção, para o outono-inverno, a dupla de designers inspirou-se no streetwear. «Foi uma coisa rápida, não tivemos muito tempo de fazer a coleção, por causa do trabalho para as companhias aéreas e de atelier, e há coisa de três ou quatro meses andámos muito direcionados para a rua, uma curiosidade imensa por quem são as pessoas que andam na rua. Vi que existem pessoas com uma criatividade enorme, espontaneamente, que produzem coisas lindíssimas e pensei: porque é que nós, desta vez, não fazemos isso», explicou. «Já ninguém quer fazer vestidos bonitos, toda a gente sabe fazer vestidos bonitos. Querem é desconstruir tudo e a ideia do clássico e acrescentar algo ao clássico que seja emotivo. As camadas mais jovens sabem ler a moda. Têm uma cultura adquirida capaz de percecionar, entender e saber ler, como se lê um livro», acredita.

Apesar do sucesso comercial, que lhe permite gerir um atelier com 12 pessoas, Manuel Alves destacou que «a marca não é fácil. Quem quiser entender, entende, quem não quiser entender, não entende. A lei das coisas é deixar correr para o lado que for mais conveniente para os outros. Nós queremos seduzir e seduzir não é tentar agradar».

O negócio da Alves/Gonçalves está apenas implantado em Portugal e o designer está convicto – e a longevidade da marca prova – que é possível singrar em território nacional. «A única coisa que tentamos é desenvolver, dentro do que é possível dentro deste país, um percurso credível, de respeito, com sério sentido de responsabilidade e diversificar um bocadinho a nossa forma de trabalhar sob o ponto de vista do negócio em si, de modo a permitir que isto continue de forma saudável», apontou.

Mas sempre pronta a aceitar novos desafios, a dupla vai agora lançar um site de vendas online, para chegar mais facilmente aos clientes que não se podem deslocar a Lisboa. «As pessoas telefonam-me da Madeira a perguntar como podem comprar uma coisa e nós dizemos-lhes para irem ao site ver do que gostam e em que tamanho querem. Somos abertos a isso», concluiu Manuel Alves.