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Aposta tripla na ITV

Digitalização, dimensão e cooperação são três elementos fundamentais para o futuro crescimento da indústria têxtil e vestuário, na visão partilhada por Manuel Gonçalves, administrador da TMG, António Braz Costa, diretor-geral do CITEVE e Luís Todo-Bom, gestor e professor do ISCTE.

Manuel Gonçalves, António Braz Costa, Luís Todo-Bom e Mariana D'Orey

No debate promovido durante o Simpósio da ITV, Manuel Gonçalves mostrou-se otimista quanto ao futuro, salientando que «em Portugal temos um cluster têxtil forte, com vários know-hows, com a capacidade de trabalhar toda uma coleção para clientes de A a Z», o que «torna Portugal um centro de abastecimento forte e importante para a próxima década».

A própria crise de covid-19 trouxe uma evolução que pode ser positiva para a indústria têxtil e vestuário nacional. «Diria que a maior sensibilização para a sustentabilidade e o aumento do negócio online serão fatores que certamente irão contribuir para o desenvolvimento da nossa indústria na próxima década», referiu.

Ainda assim, é preciso que as empresas se adaptem. «As empresas vão ter que fazer uma aposta maior na inovação dos materiais porque quando falamos de sustentabilidade ambiental não nos podemos esquecer dos materiais. Temos de olhar para as nossas plataformas industriais e ver como reduzimos a pegada carbónica», apontou.

Além disso, «é muito importante que as empresas trabalhem os materiais mas trabalhem também a digitalização, encontrem novas formas de fazer negócio, encontrem novos modelos de negócio, porque isso é que lhes vai permitir manter a competitividade», assegurou. Há, atualmente, clientes que «querem desmaterializar todo o processo de desenvolvimento de coleções», exemplificou o administrador da TMG, assim como se sente uma tendência para a customização. «Acho que, cada vez mais, os clientes vão querer fazer as peças de vestuário à sua medida e com as componentes e os acessórios que desejam», acredita.

O futuro das matérias-primas

Também António Braz Costa reforçou a importância das matérias-primas no futuro. «É necessário olhar cá para dentro, olhar para o interior de Portugal e vizinhos e perceber onde é que temos fonte de matéria-prima que possa ser utilizada no sector têxtil e de vestuário», afirmou.

António Braz Costa

O diretor-geral do CITEVE colocou ainda a tónica na cooperação, entre as empresas e entre a indústria e o sistema científico e tecnológico. «Sabemos que, nos próximos anos, vamos ter que intensificar essa capacidade de cooperação», afirmou, acrescentando que será importante para isso «manter um sistema científico e tecnológico que esteja capacitado e que esteja com capacidade de antecipação» e, por outro lado, «as empresas estarem preparadas e organizadas» para a inovação. «Direi que qualquer empresário tem que ter um quarto de folha A4 onde escreva três ou quatro frases, onde se perceba qual é que é a sua estratégia para ter uma capacidade de inovação contínua», resumiu António Braz Costa.

Para Luís Todo-Bom, o cluster é uma vantagem competitiva e «um conceito muito poderoso» para a indústria têxtil e vestuário, mas falta dimensão às empresas portuguesas. «O que distingue os países ricos dos países pobres são três variáveis: dimensão, inovação e internacionalização», admitiu. «Nós temos um problema de dimensão das nossas empresas», reconheceu.

Luís Todo-Bom

Segundo o gestor e professor do ISCTE, «no sector temos cerca de 10 empresas com mais de 40 ou 50 milhões de euros de vendas. Se tivéssemos 50 empresas no sector que vendessem mais de 40 milhões de euros, isto fazia toda a diferença porque a capacidade de inovação, a capacidade de introdução das novas tecnologias e da indústria 4.0 eram completamente diferentes do que são com pequenas empresas». Por isso, além da capitalização de que fala o estudo da ATP, Luís Todo-Bom somou a dimensão. «Devia haver um programa de reestruturação, de crescimento das empresas com capitalização. Aí sim, passávamos a ter empresas com capitalização e com balanços sólidos para promover inovação e internacionalização de uma forma mais consistente e mais robusta e aparecer nos mercados internacionais com outra capacidade com que nós, neste momento, não aparecemos, com pequenas empresas que, digamos, passam a vida a tentar sobreviver, que é o que acontece com as pequenas empresas», justificou.

Criar um índice de sustentabilidade

Um dos passos pode ser a alteração do sistema fiscal, que permita uma maior atividade de aquisições e fusões. «Tem que se criar um mecanismo que melhore a dimensão das nossas empresas em que todos ficamos a ganhar», considera. «Temos que saber fazer crescer as nossas empresas por fusões e aquisições. O crescimento orgânico não é suficiente», assumiu.

Manuel Gonçalves

O professor deixou ainda a sugestão de criação de um índice de sustentabilidade de iniciativa portuguesa para ser apresentado em Bruxelas, numa altura em que se está a preparar a legislação europeia sobre o tema. «Se as associações não tomam iniciativa, provavelmente vão ser os burocratas da Comissão que vão produzir o índice e não fazem a mínima ideia do que é uma empresa, não fazem a mínima ideia de onde é que vêm os produtos, onde é que as matérias-primas são compradas, quais são as tecnologias utilizadas, etc. A minha sugestão é simples: o CITEVE, com as competências que tem, constrói um índice de sustentabilidade para o sector, partilha com a associação, a associação partilha com a Euratex e a partir daí é lutar em Bruxelas para que o índice de sustentabilidade seja algo que proteja as empresas e que projeta este cluster», concluiu Luís Todo-Bom.