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Apostar na ITV

A Nicarágua pretende investir significativamente no desenvolvimento da sua indústria têxtil e vestuário (ITV), cujo domínio económico faz deste sector um elemento chave para o desenvolvimento do país. Contudo, para tal, terá de conquistar parceiros e mercados.

A Nicarágua precisa de um investimento de 160 milhões de dólares para a construção de uma base de produção de têxteis sintéticos, que permitirá duplicar as exportações, fixando-as em 2 mil milhões de dólares nos próximos cinco anos, e a compensação das perdas decorrentes do fim do Regime de Preferências Tarifárias (TPL), revelaram porta-vozes do governo.

A nação centro-americana está atualmente a negociar com quatro empresas têxteis estrangeiras, incentivando-as a financiar a sua base embrionária de tecnologia têxtil avançada.

300 milhões de metros quadrados

Carlos Zuniga, vice-diretor da Corporação Zona Franca, revelou que a Nicarágua exporta 400 milhões de metros quadrados equivalentes (PME) de vestuário de malha e tecido. No entanto, importa cerca de 30% dos materiais necessários à produção dessas peças. Isto significa que, para satisfazer as suas necessidades e, possivelmente, as da América Central, terá de instalar, pelo menos, 300 milhões de PME de capacidade de produção.

«Precisamos de cerca de 160 milhões de dólares», afirmou Zuniga, acrescentando que a Nicarágua antecipa que tais investimentos, caso se concretizem, terão um efeito multiplicador, atraindo mais fabricantes de vestuário para o país. «Os investidores constatarão que existem novos investimentos nos tecidos que utilizam para a confeção das suas peças de vestuário», prosseguiu Zuniga. «E quando ponderarem qual o destino a tomar na região, irão escolher a Nicarágua», sublinhou.

Se estes efeitos multiplicadores se materializarem, a indústria têxtil e vestuário da Nicarágua poderá, gradualmente, aumentar as exportações para 2 mil milhões de dólares até 2020, superando os 1,3 mil milhões de dólares alcançados este ano, que representaram um declínio de 5%, principalmente devido à supressão da disposição do TPL dos Estados Unidos da América.

A Nicarágua deverá continuar a vender a maioria da sua quota de vestuário aos EUA, ainda que o país esteja a aumentar as vendas destinadas a novos mercados na América do Sul, Canadá, Coreia do Sul e Europa, apontou Zuniga.

Elevados custos de energia

O executivo admitiu que os preços da energia – os mais elevados da região – são um obstáculo à conquista de investidores. No entanto, devido aos custos laborais extremamente baixos (30% a 40% inferiores face à média regional), a Nicarágua permanece mais competitivo do que a sua principal rival, as Honduras, assim como face à Guatemala ou El Salvador.

De acordo com Zuniga, a Nicarágua está a transformar a sua matriz energética, tendo como objetivo gerar 80% de energia a partir de fontes renováveis ​​em 2020, embora alguns especialistas considerem que esta é uma meta demasiado ambiciosa.

Zuniga revelou que as tarifas de energia elétrica rondam os 21 cêntimos do dólar por quilowatt, em comparação com o valor mais baixo de 16 cêntimos por quilowatt praticado noutros países da América Central. No entanto, «os custos de eletricidade não são essenciais, por oposição aos custos laborais», ressalvou.

Por sua vez, a estabilidade laboral tem aumentado em resultado do acordo salarial coletivo de quatro anos, obtido pelo governo com o sector privado e os sindicatos. As despesas sociais (férias ou segurança social) são também inferiores às praticadas nas Honduras. Paralelamente, o PIB deverá crescer 4,5% este ano, superando a média regional.

Perda de postos de trabalho

O TPL, no entanto, tem sido um contratempo ao rápido crescimento da cadeia de produção do país. «Perdemos 5.000 empregos», reconheceu Javier Chamorro, diretor executivo do lobby de exportação e investimento Pro Nicaragua, «embora não tenham ocorrido quaisquer encerramentos».

Chamorro referiu que a maioria das perdas decorre da redução da dimensão dos produtores de calças e jeans, que têm agora de importar denim e outros tecidos de sarja dos EUA ou México, ao invés de importarem materiais provenientes do Paquistão e China.

Chamorro revelou que o TPL foi responsável ​​por 25% das exportações de têxteis do país, que por sua vez constituem 30% de todas as exportações da Nicarágua, pelo que a perda tem sido significativa. No entanto, observou, as empresas estão a reformular os negócios e a deslocar-se para outros segmentos de produção competitivos, como camisolas, t-shirts e outras malhas, além de vestuário desportivo e outdoor. Em resultado dos baixos custos laborais e proximidade de mercado, a Nicarágua permanece competitiva, afirmou Chamorro, superando os rivais asiáticos em encomendas de fast-fashion e reabastecimentos rápidos de stock.

Nichos competitivos

«Antecipamos que as empresas migrem para nichos mais competitivos, como polos ou vestuário de exterior», apontou Javier Chamorro, acrescentando que antecipa uma recuperação das exportações em 2016.

Paralelamente, o governo da Nicarágua procura assegurar o investimento por meio de programas de promoção da produtividade do trabalhador e know-how através da formação técnica. Como parte desse esforço, espera estabelecer um Instituto de Formação Técnica no próximo ano.

«Se aumentar a produtividade laboral, um indivíduo pode produzir mais peças, reduzindo o custo por peça», explicou Chamorro, afirmando ainda que a indústria corresponde aos padrões internacionais de produtividade, com uma taxa de 65% a 75%. Simultaneamente, admitiu que a produtividade da Nicarágua é menor do que a do México, mas semelhante à da América Central e do Vietname, embora este último apresente um custo laboral menor.