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Apple sente o pulso

Apesar dos esforços constantes de associação a figuras influentes e instituições de renome no contexto da moda mundial, a Apple não conseguiu ainda posicionar o seu novo produto entre a primeira linha de acessórios de moda de luxo. A principal convidada do evento que decorreu dia 9 de março em São Francisco, na Califórnia, foi a supermodelo Christy Turlington Burns, cujo rosto deverá conduzir os desígnios da marca entre a resiliente indústria da moda. A manobra publicitária da Apple incluiu também Karl Lagerfeld, Anna Wintour e a modelo Karlie Kloss, a quem foi dada uma apresentação antecipada do novo produto, anterior à exposição do modelo de relógio na boutique Colette em Paris, no último outono. As promessas da Apple sobre o novo relógio multifuncional foram, no entanto, recebidas com pouca expectativa pelos aficionados da moda. Nas plataformas de media sociais onde os fashionistas do momento ditam tendências e rebatem aspirantes, o relógio continua a ser um mero dispositivo tecnológico e não conseguiu escalar rumo à posição de principal acessório de moda da estação, como pretendido pela marca americana. A modelo holandesa Julia Van Os desvalorizou o impacto do gadget no plano da moda e afirmou, em entrevista à Reuteurs, depois de uma colaboração com Stella McCartney na Ópera de Paris: «Não ouvi ninguém falar disso», afirmou. «É um mundo diferente, mais tecnológico e distante da moda. As pessoas não usam esse tipo de relógio no universo da moda». Um vendedor dos conceituados grandes armazéns parisienses Printemps revelou que o relógio Apple, cujos preços variam entre os 350 dólares e os 10 mil dólares, para a gama mais alta do produto, não será incluído no inventário da loja. «É necessário que compreendam. Nós somos uma loja de marcas de luxo e o Apple Watch é um produto tecnológico», explicou o representante da Printemps, que entre os seu reportório contempla marcas como Rolex, Montblanc e Longines. O novo produto da Apple, que estará à venda a partir de abril, permite a conexão ao smartphone da marca e a sincronização de mensagens, alertas e marcações na agenda, entre outras funcionalidades. Um diverso conjunto de aplicativos possibilita o registo da atividade desportiva do utilizador, contratação de serviços ou até a abertura de portas telecomandadas à distância. O visor do relógio pode ser alterado e configurado em função das preferências estéticas do utilizador como se de um ecrã digital se tratasse. Os jornais internacionais publicitaram a apresentação de segunda-feira entre as páginas do seu segmento de negócios, reservando a secção de moda para os habituais desfiles de inverno e para o lançamento de itens de luxo como os relógios da Bulgari e Boucheron. O consultor de luxo Robert Burke considera que o relógio Apple «simplesmente não teve um forte impacto» no mundo da moda. Baseado temporariamente em Paris a acompanhar os desfiles da temporada, Burke acrescenta que «a Apple tem tentado alcançar o mundo da moda antes do lançamento, mas o relógio continua a despertar uma sensibilidade inerentemente tecnológica». «O mundo da tecnologia e o dos relógios são muito diferentes», afirma. «Se por um lado, existe um certo fator de novidade e atração neste produto, até ao momento apelou mais aos vanguardistas da tecnologia», explica. Porém, admite a capacidade de mutabilidade e adaptação da marca às respostas que tem obtido da indústria da moda e tem conseguido «sintonizar a sua estratégia». Entre outras medidas, a Apple publicou um anúncio de 12 páginas na edição de março da revista Vogue, uma medida que conseguiu retomar o debate sobre o novo lançamento da marca. Turlington afirmou usar a sua versão customizada do relógio no evento da passada segunda-feira, mas elogiou-o primeiramente pelas suas funcionalidades enquanto dispositivo fitness, acrescentando que a tem ajudado na monitorização do seu treino de preparação para a meia-maratona na Tanzânia e a ajudará, afirma, «a bater a marca de quatro horas na próxima maratona». Porém, os benefícios apontados poderão não suscitar interesse junto daqueles que, primeiramente, querem um relógio esteticamente atraente. Roseanne Morrison do Tobe Report, que define as influências da moda e da estética sobre os consumidores, adiantou que o facto de necessitar de carregamentos diários e uma constante associação a um smartphone da marca são fatores desencorajadores. «Não é atraente do ponto de vista feminino. Neste momento, não é sexy» afirmou, acrescentando que carece de «caráter feminino». Nicole Phelps, diretora executiva da plataforma Style.com, que esteve presente na cerimónia de apresentação do relógio na boutique Colette em setembro, ressalvou uma qualidade que destaca a marca americana e a coloca em vantagem entre os adeptos da moda. «A indústria da moda está 100% apaixonada pelo iPhone», disse. «O Apple Watch assemelha-se a um produto da Apple, tem um aspeto elegante, e existe já um mercado de suporte». Mas rematou, questionando a utilidade dos instrumentos que o relógio Apple disponibiliza sob este formato: «as pessoas quererão usar estas ferramentas no seu pulso?».