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Aprendiz de alfaiate

Num atelier de uma cave de Savile Row é difícil passar ao lado de Emily Squires, uma mulher entre a dúzia de homens alfaiates de meia-idade que se dobram, sentados em bancos próximos, a fazer costuras e a preparar fatos e casacos para a elite internacional. Vestida com um jumpsuit cinzento e botas Dr. Marten, a jovem de 29 anos, especialista na confeção de casacos na Henry Poole & Co é a imagem de uma nova geração que traz uma energia renovada a um ofício tradicional. Dois dos seus casacos foram mostrados na Semana de Moda Masculina de Londres na semana passada como parte de uma mostra de vestuário de Savile Row, a rua de Londres que há muito é uma referência para a moda de homem mas que enfrenta atualmente um futuro incerto. No ano passado, Squires ganhou um Golden Shears, o “óscar” do mundo da alfaiataria britânica, por um coordenado com um casaco em veludo azul e calças de equitação xadrezes. Emily Squires está ainda a colher os frutos do sucesso, embora a maior parte das suas missões seja bastante mais conservadora – encomendas para um casaco de fato e um casaco de smoking, que rondam os 2.400 euros estão entre as peças arrumadas numa prateleira por cima do seu banco. «Cada trabalho que se recebe é diferente. Nunca se sabe o que se vai fazer», afirma. Squires pega num conjunto de peças de tecido cortadas de acordo com as especificações exatas do cliente na loja em cima e um bilhete que descreve o que pretende. «É um casaco com dois botões, com um bolso no peito, palas nos bolsos, cortes laterais e sem aberturas», lê. «É um tecido bastante leve, com 10oz ou 11oz. É uma flanela em azul-marinho – vai ficar muito bem. Depois de engomado e com vapor, consegue-se uma forma muito bonita», acrescenta. Squires é uma de meia-dúzia de novos recrutas a trabalhar na Henry Poole, que foi criada em 1806, e está entre um número crescente de mulheres em formação na Savile Row. Dos estimados 30 diplomas em confeção de casacos entregues pela associação comercial Savile Row Bespoke nos últimos quatro anos, pelo menos 20 foram para mulheres. Um sinal encorajador de uma indústria que se está a renovar – mesmo que na Henry Poole alguns dos veteranos trabalhem em equipamentos que parecem tão velhos quanto eles. Mas o contraste entre o negócio e a criatividade louca da semana de moda é gritante. A quarta edição da London Collections: Men atraiu grandes nomes como Burberry e Tom Ford e compradores e imprensa internacionais de 37 países. As coleções foram tipicamente ecléticas, variando de fatos elegantes a golas polo e t-shirts, sportswear colorido e até saltos plataforma para homem. A organização sustenta que o evento dá visibilidade à herança de moda masculina «sem rival» de Londres. Mas embora o mercado de massas de vestuário de homem esteja a crescer na Grã-Bretanha – a analista de mercado Mintel aponta para um crescimento de 12% nos últimos cinco anos –, o futuro do segmento de topo é menos claro. «O segmento superior do mercado tem sido sustentado pela procura estrangeira, sobretudo da China e do Extremo Oriente», revela Richard Perks, diretor de pesquisa de retalho na Mintel. «É um grande exportador, é ótimo para o marketing da Grã-Bretanha. Mas é um mercado muito rarefeito», ressalva. Houve uma altura em que um cliente precisava de recomendação só para cruzar a porta de um alfaiate em Savile Row, mas muitas empresas lançaram-se no pronto-a-vestir e colaboraram com marcas da high-street. A Gieves & Hawkes e a Hardy Amies mostraram coleções de pronto-a-vestir na semana passada, mas a Henry Poole continua a fazer apenas vestuário por medida. «Somos uma alfaiataria bastante tradicional e é isso que as pessoas querem de nós», acredita Emily Squires. O processo de fazer uma peça de vestuário do zero, que pode demorar até três meses, é «algo especial – é uma experiência. Penso que eles ainda querem isso», sublinha. E acrescenta, de forma otimista, que «na questão da moda, temos simplesmente de nos colocarmos lado a lado. Há espaço para ambos». Paul Frearson, um alfaiate com 50 anos de experiência que está a dar formação a Squires, preocupa-se com o futuro, contudo, é sobretudo com o aumento das rendas que os alfaiates de Savile Row enfrentam. «Sempre fui bastante otimista, mas começo a questionar-me se poderemos ou não sustentar o que fazemos», confessa. Frearson realça as recentes aquisições da Gieves & Hawkes, Hardy Amies e Kilgour pela empresa de investimento privado de Hong Kong, Fung Capital. «Estas empresas tradicionais estão agora sob o mesmo teto – mas nós queremos individualidade», afirma. O alfaiate espera que o futuro esteja nas mãos de pessoas como Squires e outro ex-aprendiz, Rory Duffy, que se estabeleceu agora em Nova Iorque. «O que queremos é que pessoas como a Emily comecem um negócio, continuem o feito à medida», conclui.