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Aprovisionamento sob alta tensão

Em 2017, a cadeia de aprovisionamento global enfrenta riscos que vão desde o roubo de cargas a atos de terrorismo, sendo que estes últimos continuam a ser uma das principais ameaças em território europeu, de acordo com um novo relatório.

A previsão da British Standards Institution (BSI) antecipa também protestos relativos a salários e outras questões laborais na Ásia ao longo do corrente ano, advertindo que as questões de segurança e de responsabilidade social e os riscos de continuidade dos negócios vão exigir uma monitorização atenta em algumas regiões.

O relatório anual “Global Supply Chain Intelligencel” do grupo, analisado pelo portal Just-style, observa que no ano passado vários incidentes começaram enquanto risco de segurança, responsabilidade social ou de continuidade dos negócios e desencadearam outros problemas na cadeia de aprovisionamento.

A crise migratória europeia é talvez o melhor exemplo de um evento que começou como um risco de segurança, antes de se transformar num risco para a continuidade dos negócios, uma vez que os países impuseram controlos nas fronteiras, algo que resultou na exploração de migrantes que procuravam trabalho em determinadas regiões.

Com os riscos como a crise migratória em crescendo, a BSI considera imperativo que as organizações trabalhem em conjunto, adotando uma abordagem holística de gestão de riscos de forma a garantir que estão informadas e preparadas para abordar várias questões preocupantes.

O relatório tem como base os dados da Supply Chain Risk Exposure Evaluation Network (SCREEN) da BSI, que faz uma avaliação contínua de 25 fatores de risco em vários países e estabelece depois uma visão geral das principais ameaças e tendências da cadeia de aprovisionamento por região.

Europa

A BSI registou mudanças notáveis nas tendências e táticas de roubos de cargas na Alemanha e Itália em 2016. Uma taxa cada vez mais elevada de roubos de cargas atormentou a Alemanha, estimando-se que quase metade de todos os roubos de transportes de carga aconteceu porque os assaltantes cortavam as lonas dos reboques para roubar a carga, um incidente comum devido ao uso generalizado de reboques em solo europeu.

A Europa também experimentou ataques terroristas em Nice, em julho, e em Berlim, em dezembro, além de incidentes e detenções que aconteceram um pouco por todo o continente este ano. Esses ataques, em particular, enfatizaram a ameaça dos terroristas poderem explorar a cadeia de aprovisionamento para perpetrarem ataques.

América

Em 2016, as cadeias de aprovisionamento na América enfrentaram vários riscos relacionados com a segurança, responsabilidade social corporativa e continuidade dos negócios.

O roubo de cargas continua a ser uma preocupação, com o aumento mais dramático a acontecer no Rio de Janeiro e em São Paulo. O aumento anual dos incidentes, combinado com os fracos esforços para os conter, sugere que o Brasil pode continuar a enfrentar esse risco em 2017.

A BSI registou também graus variados de melhorias na proteção da responsabilidade social corporativa na América Latina em 2016. A equipa da SCREEN reduziu a classificação relativa à ameaça de trabalho infantil no Equador e no Panamá, reconhecendo os esforços para erradicar o problema.

No Equador, o governo reduziu a taxa de trabalho infantil dos 16% observados em 2007 para menos de 3%, com o Panamá a conseguir baixar a taxa de trabalho infantil no país para cerca de 4%, um valor que representa uma redução de 50% desde 2012.

Embora a maioria dos países da América Latina tenha melhorado o seu histórico de responsabilidade social corporativa, países como o Peru não conseguiram avançar muito no ano passado.

O relatório anual “Global Supply Chain Intelligencel” concluiu ainda que os 10 países com maior incidência de terrorismo na cadeia de aprovisionamento representam 664 mil milhões de dólares (aproximadamente 591 mil milhões de euros) em exportações globais, incluindo 96 mil milhões de dólares em exportações para os EUA – destacando o significativo volume de comércio internacional em risco de interrupção por grupos terroristas.

Ásia

No ano passado, as forças políticas da Ásia responderam a níveis crescentes de riscos na cadeia de aprovisionamento – mas muitas políticas foram meramente reativas e frequentemente levaram a novas ameaças à integridade ou continuidade da cadeia, refere a BSI.

Por exemplo, a mudança de posição em relação às greves na China foi principalmente impulsionada por esforços concertados do governo para limitar as greves no país, depois de anos de crescente desorganização.

Embora as greves ainda tenham ocorrido em grande número em território chinês no ano passado, o número de greves caiu pela primeira vez nos últimos anos. As greves em fábricas baixaram 31% – incluindo vestuário, bens de consumo e centros de produção eletrónica –, com dois terços das províncias a testemunharem um declínio das greves na produção.

No entanto, uma área de preocupação emergente é o crescimento das greves no sector da logística, incluindo transportes, processamento de encomendas e entregas, que saltou de nove incidentes em 2014 para 40 no ano passado.

A Ásia assistiu também a um aumento nas preocupações com os direitos laborais no Bangladesh, não só na indústria do vestuário. Uma pesquisa de dezembro de 2016 sobre as favelas de Daca encontrou uma incidência de trabalho infantil muito maior do que aquela que estudos anteriores do governo sugeriram.

O documento revelou também práticas abusivas em fábricas de vestuário que empregavam crianças. Mais de 37% das jovens afirmaram ser forçadas a trabalhar horas extraordinárias e muitas ganhavam apenas metade do salário mínimo nacional mensal para os trabalhadores da indústria.