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Aranha tece inovação na Adidas

A gigante alemã do sportswear anunciou o desenvolvimento de uns novos ténis produzidos a partir de seda de aranha sintética. Além de mais leve, o tecido usado tem elasticidade, é resistente e completamente biodegradável, permitindo à Adidas somar mais pontos nas suas credenciais “verdes”.

Leve, elástica e incrivelmente resistente, a seda de aranha encerra um mundo de potencialidades. A AMSilk, a produtora alemã da seda sintética Biosteel, estima que uma teia de fibra da seda de aranha «da espessura de um lápis pode apanhar um avião Boing 747 Jumbo carregado com o peso de 380 toneladas».

As versões sintéticas estão a ficar mais próximas de replicar estas propriedades naturais. Além disso, como normalmente são feitas a partir de matérias-primas naturais, a fibra é completamente biodegradável e uma alternativa sustentável aos sintéticos derivados de petróleo, como o poliéster e a poliamida. Depois de anos de investigação, as empresas estão finalmente a produzir seda sintética em quantidades suficientemente grandes para que possa ser usada em produtos comerciais, onde a Adidas vê um enorme potencial.

Na cimeira Biofabricate em Nova Iorque, que teve lugar a 17 de novembro, a produtora alemã de sportswear revelou o primeiro conceito de ténis fabricados com seda sintética, batizado Futurecraft Biofabric. A parte de cima é produzida inteiramente com Biosteel, que a Adidas afirma ser 15% mais leve do que os sintéticos convencionais.

«Num ano de inovações revolucionárias da Adidas, o anúncio da parceria com a AMSilk – e a revelação dos ténis Adidas Futurecraft Biofabric – é mais um passo no nosso compromisso para redefinir a indústria do desporto», afirma James Carnes, vice-presidente de estratégia de marca da Adidas, explicando que «estamos prontos para lançar alguma coisa no próximo ano. Será pequeno. Será em quantidades limitadas. Terá um preço mais elevado porque é a primeira vez que estaremos a fazê-lo. Mas queríamos começar o processo de escalar e torná-lo disponível».

O lançamento será semelhante, ou até um pouco mais rápido, do que os ténis da Adidas produzidos a partir de plástico recolhido no mar, em parceria com a Parley for the Oceans, segundo James Carnes (ver O mergulho das marcas). Este mês, 7.000 pares desses ténis ficarão disponíveis, cerca de um ano depois do projeto ter sido anunciado, e no próximo ano a Adidas planeia ter um milhão de pares no mercado.

Carnes referiu que a Adidas está a planear usar o Biosteel para mais do que um modelo de ténis. «Serão múltiplos ténis em algum ponto», revela. «Tem potencial também para ser pensado para outros usos», acrescenta. Um deles pode ser o vestuário.

As matérias-primas que a AMSilk utiliza para criar o Biosteel são produtos naturais, como beterrabas e cana de açúcar. A empresa usa bactérias para fermentar os açúcares nesses produtos, tal como se faz bebidas alcoólicas, exceto que neste caso as bactérias criam seda sintética em bruto. É então fiada, não sendo tão resistente como a seda natural mas, refere Jens Klein, CEO da AMSilk, a empresa continua a trabalhar no material. «Com este desenvolvimento estamos a criar novos padrões no que diz respeito à funcionalidade de têxteis renováveis», sublinha.

Para a Adidas, os ténis fazem parte de uma aposta mais vasta na área da sustentabilidade, que resultou também na produção de ténis com plástico reciclado retirado do oceano. Embora esse projeto procure “fechar o ciclo” – em que o que existe é usado uma e outra vez na produção de novos produtos, sem necessitar de matérias-primas virgens –, Carnes espera que este novo projeto possa terminar completamente o ciclo.

Mesmo o plástico reciclado é proveniente de petróleo originalmente, que não pode voltar a ser colocado no ambiente. Mas os ténis com seda sintética retirada de beterraba podem ser compostados no final da vida. James Carnes adianta que podem também ser colocados “detonadores” para ajudar a que se biodegrade mais rapidamente. Partes como a sola continuam a ser feitas de materiais convencionais, mas a Adidas quer trabalhar nuns ténis que, no futuro, possam ser completamente biodegradáveis.

À medida que a Adidas e a AMSilk atingem escalas maiores, o preço dos ténis, que tem ainda de ser determinado, vai baixar, mas por agora Jens Klein admite que este modelo pelo menos dá aos consumidores a possibilidade de comprar um produto que está a repensar a sustentabilidade a um nível completamente novo.