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Arbitragem cambial no mundo da moda

No mundo da economia, arbitragem é a prÁtica através da qual os agentes económicos podem tirar partido do diferencial de preço entre dois ou mais mercados, comprando algo a um preço inferior num mercado, vendendo-o a um preço superior noutro mercado, de preferência instantaneamente para evitar o risco e que esse diferencial de preço desapareça. Actualmente, com a queda a pique do dólar americano, muitas marcas e empresas europeias decidiram diminuir as suas margens e manter os preços expressos em dólares, ao invés de aumentarem esses valores para reflectir as taxas cambiais actuais. Estas empresas, muitas delas expostas aos blocos económicos dominados pelo dólar americano, querem manter-se competitivas face aos concorrentes que transaccionam em dólares, não querendo também chegar ao mercado americano com preços astronómicos. Esta situação, de preços mais reduzidos no mercado americano, levantou assim uma excelente e lucrativa oportunidade para a arbitragem envolvendo produtos da fileira moda. Como exemplo, poderemos apontar a mala “Downtown” da Yves Saint Laurent, que custa actualmente 1.495 dólares no mercado americano e 1.796 dólares no mercado inglês. Um diferencial de 301 dólares num único artigo. Relativamente aos retalhistas que trabalham em euros, poderemos apontar o famoso site de venda de artigos de luxo Net-A-Porter. Neste site, uma mala da Burberry (Malika leather hobo bag) estÁ à venda por 720 Euros; a mesma mala à venda na Saks Fifth Avenue estÁ cotada em 895 dólares (cerca de 605 euros à cotação actual). Os consumidores europeus mais inteligentes e atentos podem, assim, poupar nas suas compras, ou mesmo fazer dinheiro, comprando artigos e acessórios de moda nos Estados Unidos para consumo ou comercialização na Europa. Para limitar o aproveitamento oportunista da situação criada pelos preços inferiores no mercado americano, algumas marcas, como a Prada e a Gucci, colocaram em prÁtica algumas medidas que limitassem o número de artigos que cada cliente pode comprar. Estas marcas estão verdadeiramente preocupadas que os seus produtos acabem nos circuitos e mercados paralelos, leilões do eBay ou em esquemas de trading triangular, situações que não são as ideais para uma marca no segmento de luxo. Este tipo de medidas, imposição de limites mÁximos de compras por cliente, apenas funcionarÁ no curto prazo e pode provocar alguns estragos a essas mesmas marcas. Em primeiro lugar, quer os consumidores, quer os profissionais que se dedicam à arbitragem estão cada vez mais criativos na forma como exploram este tipo de diferencial de preço, sendo cada vez mais difícil controlar os fluxos de mercadorias para mercados ou esquemas paralelos. Em segundo lugar, os consumidores globais são cada vez mais astutos e conscientes do valor das coisas, mesmo nos segmentos de luxo. Os consumidores viajam mais, comparam preços nos sites da Internet e perguntam-se: Porque é que um produto exactamente igual custa 20 a 40% mais na Europa? Muitos consumidores podem-se sentir enganados e insultados quando descobrem as diferenças, desligando-se para sempre da marca em questão. Alguns podem escolher por restringir as suas compras ao mercado americano, onde sabem que vão obter melhores preços. Nenhum destes cenÁrios é bom para as marcas, onde os mercados internacionais representam importantíssimas fatias do seu negócio. Por último, a desvalorização do dólar face ao euro parece estar longe do seu fim. Até quando os preços expressos em dólares poderão ser mantidos artificialmente sem afectar as margens? O mercado americano, representa cerca de 20% das receitas das marcas situadas no segmento de luxo e, mais cedo ou mais tarde, esta redução de margens irÁ influenciar seriamente os resultados das empresas. Face à actual situação, existem no mercado muitas oportunidades de arbitragem no mundo da moda. Se as mais visíveis passam pelo retalho de artigos de luxo, essas mesmas oportunidades podem ser também encontradas noutras zonas da fileira moda. A ITV portuguesa detém um importante grau de exposição à zona dólar, pelo que os responsÁveis das empresas deverão estar atentos a este tipo de situações.