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Arroz alimenta indústria da moda

A palha de arroz, uma matéria-prima de que Portugal também dispõe, pode ser uma boa fonte para a produção de fibras têxteis mais sustentáveis, podendo o resultado substituir as fibras produzidas a partir de petroquímicos e até o algodão e, dessa forma, reduzir a carga poluidora da indústria da moda.

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De acordo com um novo estudo promovido pela Laudes Foundation, os resíduos agrícolas estão a ser subvalorizados na busca por novas matérias-primas inovadoras. Um erro, aponta o think thank holandês, uma vez que há fluxos de resíduos agrícolas viáveis no sul e sudeste da Ásia para criar fibras de nova geração sem a carga poluente do poliéster ou do algodão, que exige muitos químicos e água.

E ao contrário de outras inovações que estão a ser mais faladas, as fibras provenientes de resíduos agrícolas têm o potencial de escalar quase de imediato, ao mesmo tempo que assumem características que são familiares e desejadas pela indústria de vestuário.

«Para encorajar o sector a mudar, é necessário ter uma solução viável e com escala», sustenta Anita Chester, diretora de materiais na Laudes Foundation, em declarações ao Sourcing Journal.

Realizado pelo Institute for Sustainable Communities, o World Resources Institute e a Wageningen University and Research, o estudo, batizado “Spinning Future Threads”, encontrou grandes quantidades de resíduos agrícolas em oito países – Bangladesh, Camboja, Índia, Indonésia, Paquistão, Sri Lanka, Tailândia e Vietname – e analisou mais de 40 colheitas para encontrar as mais adequadas à produção de fibras para a indústria da moda.

Potencial para Portugal

A palha de arroz mostrou ser uma dessas colheitas, sendo abundante em todos os países, tendo muita celulose que é facilmente extraída e é adequada à indústria têxtil. Após a colheita, «o resíduo que fica para trás é queimado, o que causa poluição. Vivo em Deli e quando é altura da colheita, é caótico porque os ventos trazem poluentes das quintas próximas», conta Anita Chester ao Sourcing Journal.

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Além da questão da poluição, a utilização da palha de arroz faz igualmente sentido economicamente. Não só os agricultores garantem mais uma fonte de rendimento, como os investigadores, através do mapeamento espacial, conseguiram identificar pelo menos 10 localizações específicas onde a disponibilidade de palha de arroz a grande escala coincide com uma capacidade de processamento existente ou potencial num raio de 100 quilómetros e, em alguns casos, de apenas 50 quilómetros.

Para Portugal, esta pode ser igualmente uma potencial fibra a considerar, tendo em conta que há alguma abundância de palha de arroz, que atualmente serve sobretudo para alimentar o gado, embora, num projeto especial do Centro de Artes do Papel, esteja igualmente a ser usado na produção de papel e, num projeto de investigação do LNEG – Laboratório Nacional de Energia e Geologia tenha sido analisada a sua valorização energética.

De acordo com o INE, em 2020 foram produzidas em Portugal 132,8 mil toneladas de arroz, numa superfície de cerca de 26 mil hectares, concentrados essencialmente no Alentejo, Centro e Área Metropolitana de Lisboa.

Outras fibras

«Para reduzir a sua crescente dependência de combustíveis fósseis, a indústria da moda tem de dar prioridade e acelerar a sua transição para um sistema circular e regenerativo», sublinha Anita Chester, numa notícia publicada no website da Wageningen University and Research. «Há uma oportunidade incrível de criar valor a partir de resíduos», sublinha.

De acordo com a informação da Wageningen University and Research, a produção mundial de fibras ficou acima dos 100 milhões de toneladas por ano em 2019 e deverá continuar a aumentar. «A indústria têxtil precisa de fontes mais sustentáveis e renováveis para melhorar o seu impacto negativo no clima. Precisamos de mais biomassa como input para os têxteis para transformar a indústria atual. Contudo, quando usamos novos resíduos de biomassa para os têxteis enfrentamos diversos desafios, como a disponibilidade e a adequabilidade, mas também desafios tecnológicos, económicos e sociais. Nem todas as fontes de biomassa são adequadas para aplicações têxteis, mas este estudo mostra uma visão promissora nos nossos primeiros passos na direção de têxteis sustentáveis», acredita Paulien Harmsen, investigadora sénior da Wageningen University and Research.

[©Pixabay/tk tan]
Além da palha de arroz, os investigadores analisaram ainda outros resíduos, apontando a palha do trigo e outros cereais, os resíduos da cana de açúcar, os restos dos frutos de onde é extraído o óleo de palma, os caules das bananas e as folhas de ananás como estando subaproveitados.