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Artistas chineses recrutados pelo luxo ocidental

Marcas de luxo internacionais como a Audemars Piguet, Rolls-Royce ou Max Mara e designers como Vivienne Westwood estão a recrutar o talento emergente chinês para coleções cápsula e outras parcerias que fazem a ponte entre o oriente e o ocidente.

As colaborações entre marcas de luxo e artistas não são novidade na Ásia. Basta recordar o pavilhão itinerante da Chanel, desenhado por Zaha Hadid, que começou a sua viagem em Hong Kong, em 2008, a exposição da Gucci “No Longer/Not Yet” no Minsheng Art Museum, em Xangai em 2015, ou a “Art of Collaboration” da Bottega Veneta no UCCA, em Pequim, no verão seguinte. O que é novo, no entanto, é o foco das marcas de luxo ocidentais em artistas contemporâneos chineses.

Audiência alargada

Para Cheng Ran, artista multimédia que foi convidado pela relojoeira suíça Audemars Piguet a criar uma obra de arte que refletisse a cidade natal da empresa, Le Brassus, os benefícios de trabalhar com uma marca deste nível são evidentes.

«Permitiu que o meu trabalho fosse visto por uma audiência mais ampla e mais internacional e deu-me a liberdade de criar algo realmente extraordinário», afirma em declarações ao South Morning Post.

A obra, um vídeo com imagens de paisagens que se sucediam ao ritmo de um relógio mecânico, foi apresentada pela primeira vez na exposição “To Break The Rules, You Must First Master Them” da Audemars Piguet no Museu Yuz em Xangai, em 2016, e novamente exibido na sala VIP do Art Basel Hong Kong, em 2017.

Na mesma linha, a Rolls-Royce convidou o reputado cineasta e fotógrafo chinês Yang Fudong a fazer um filme inspirado no quartel-general da fabricante de automóveis no sul de Inglaterra. “Moving Mountains”, que estreou em Hong Kong em março, tem como ponto de partida uma famosa fábula chinesa sobre determinação, força de vontade e perseverança.

Territórios desconhecidos

Para alguns artistas, porém, o objetivo de tais colaborações é precisamente desafiar-se, desafiar a marca e explorar territórios criativos desconhecidos.

No outono passado, quando o diretor criativo da Max Mara, Ian Griffiths, desenvolveu uma coleção cápsula inspirada no trabalho do artista chinês Liu Wei, não estava claro como o estilo urbano do artista iria combinar com as linhas limpas e elegantes da marca. «Não existe tal coisa como um ajuste natural», alguém tem de ceder, reconhece Liu, que acabou por desenvolver também uma instalação para o desfile da Max Mara.

Vivienne Westwood e o K11 Art Mall de Xangai realizaram recentemente uma exposição coletiva em grande escala batizada “Get A Life!”, que juntou não apenas moda e arte, mas também ativismo ambiental, um tema em voga num país severamente afetado pela poluição.

«Todos conhecem Westwood como designer de moda. Mas poucos, especialmente na Ásia, sabem que a designer é também uma ativista ambiental», sublinha Adrian Cheng, fundador do K11 Art Mall, enfatizando a importância deste tipo de projetos interdisciplinares.

Espada de dois gumes

Já Michael Xufu Huang, cofundador do museu de arte contemporânea M WOODS, em Pequim, ávido colecionador e um ícone de estilo, adverte sobre os possíveis riscos desta troca de influências.

«Acho que o que a maioria das parcerias pode oferecer é a visibilidade, que invariavelmente aumenta a comercialização de um artista. Mas, ao mesmo tempo, ninguém quer ver artistas, especialmente jovens artistas, a tornarem-se demasiado comerciais. É uma espada de dois gumes», analisa.