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As barreiras da reciclagem

O algodão é a fibra natural mais popular do mundo, sendo preferencialmente utilizado no fabrico de vestuário. Porém, o seu processo de reciclagem é particularmente desafiador, impedindo a sucessiva utilização e conduzindo à produção de elevadas quantidades de desperdícios.

O ideal seria que todas as peças de vestuário de algodão pudessem, simplesmente, ser recicladas e transformadas em novas peças de roupas. Permitira reduzir, em milhões de toneladas, os resíduos presentes nos aterros e que a indústria da moda usasse uma quantidade significativamente menor de material virgem, por sua vez, reduzindo o uso de água, pesticidas e produtos químicos associados ao processo de tingimento.

A reciclagem de vestuário de algodão não é simples. Para criar uma nova peça de roupa a partir de roupas velhas, estas devem ser primeiramente transformadas em matérias-primas. Mas esse processo de “trituração” tende a diminuir a qualidade do algodão porque reduz o comprimento da fibra. O comprimento da fibra desempenha um papel importante na determinação da resistência e suavidade dos fios de algodão. Essas características são potenciadas pelo tamanho da fibra, razão pela qual as variedades de algodão com comprimentos de fibra extralonga, como a tipologia supima, são altamente valorizadas e o motivo pelo qual as marcas de moda se debatem com a dificuldade de integrar elevadas quantidades de algodão reciclado nos seus produtos.

A Levi’s, por exemplo, que recentemente iniciou um enorme programa de reciclagem de vestuário nos EUA, só pode utilizar até 20% de algodão reciclado numa peça de vestuário, de forma a que a peça satisfaça os padrões de qualidade necessários. A empresa está a testar uma mistura de fibras recicladas com fibras de fibra longa como solução para o problema. No entanto, até à data, não surgiu qualquer tipo de solução em grande escala, que pudesse efetivamente transformar a indústria.

A H&M Consciente Foundation, financiada pela família Persson, que detém a retalhista de vestuário sueca, espera obter uma resposta através do concurso Global Change Award. Estão a oferecer 1 milhão de euros, a dividir pelos cinco vencedores capazes de apresentar ideias pioneiras que permitam «fechar o ciclo» – do ponto de vista da sustentabilidade isto significa reciclar materiais usados e transformá-los em algo novo.

O concurso não está focado em qualquer forma específica de o fazer; uma nova técnica para a reciclagem de algodão não é uma prioridade explícita. «Queremos encontrar novas abordagens em toda a cadeia de valor da indústria da moda, alterando a forma como peças de vestuário são concebidas, produzidas, expedidas, compradas, usadas e recicladas», explicou um porta-voz da fundação. Mas é claro que encontrar uma maneira de reciclar algodão facilmente, sem prejudicar a sua qualidade, pode ser algo revolucionário e uma competição poderá acelerar o processo. «O maior potencial reside em encontrar novas tecnologias que permitam reciclar fibras com qualidade inalterada», apontou o mesmo porta-voz.

A contradição inerente está no facto de ser a H&M a liderar a iniciativa – a marca de fast-fashion que contribui copiosamente para o paradigma do vestuário barato e descartável. O algodão é a fibra mais usada pela H&M e, até agora, a enorme quantidade que consome é um problema de sustentabilidade que não foi ainda capaz de resolver. «Fechar o ciclo» permitiria continuar a produção de grandes volumes de vestuário, apenas com menos consequências nefastas.

Em qualquer dos casos, o prémio concedido a cinco pessoas não é particularmente elevado no contexto dos cerca de 16 mil milhões de euros que a H&M arrecadou em vendas no ano passado. Contudo, o planeta beneficiará de qualquer progresso feito pela indústria da moda rumo à sustentabilidade, especialmente no que diz respeito à reciclagem de algodão.