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As bolsas da pele de McQueen

Como alerta à navegação, não se trata de bolsas de couro da marca, mas de acessórios desenvolvidos a partir da pele do designer britânico desaparecido em 2010. Uma estudante de moda, Tina Gorjanc, quer produzir em laboratório pele de Alexander McQueen a partir do ADN dos seus cabelos.

A ideia controversa e até eticamente questionável partiu da finalista da Central Saint Martins, em Londres – instituição onde, no passado, despontou também a criatividade do malogrado designer de moda.

Envolta numa espiral depressiva que, depois da morte da mãe, encaminhou o designer para o suicídio, a curta vida de Alexander McQueen bastou, porém, para que o talento rebelde deixasse um legado inestimável no mundo da moda – vestiu líderes como Mikail Gorbatchov, artistas como David Bowie ou Lady Gaga e, seis anos depois, poderá voltar do mundo dos mortos.

Em junho, no desfile final da Central Saint Martins, Tina Gorjanc apresentou um protótipo do projeto Pure Human sendo que, na página online da iniciativa, é possível ter uma ideia do que se pode esperar, com acessórios desenvolvidos a partir da pele de porco. Há blusões, bolsas e mochilas desenvolvidas com a pele mais parecida com a humana e até pequenas sardas e réplicas das tatuagens de McQueen para se poder conhecer o verdadeiro alcance do projeto da estudante de moda. Manipulando os genes que controlam a produção de melanina, Gorjanc conseguiu ainda obter diferentes tons de pele. «Queria mostrar o material com as tatuagens e a manipulação das sardas do bronzeado», revelou à Quartz. «Acho que foi muito importante para mostrar essa conexão entre o blusão e McQueen», justificou.

Segundo a estudante de moda, o Pure Human procura apontar as lacunas existentes na proteção da informação genética humana e, na página do projeto, pode ler-se: «O Pure Human foi concebido como um projeto de design crítico, que visa colmatar as lacunas no que diz respeito à proteção da informação biológica e avançar o debate usando a estrutura legal em vigor».

Com este propósito, em maio, Tina Gorjanc apresentou um pedido de patente sobre tecidos produzidos em laboratório a partir de material genético de uma fonte morta (como cabelo e unhas). Não é possível fazer um pedido de patente do material genético em si, mas a fórmula “materiais produzidos em laboratório a partir de ADN” abriu caminho.

Embora Tina Gorjanc adiante já ter sido abordada por potenciais compradores que querem produzir os artigos para venda, a jovem designer sublinha que o mais provável é, caso consiga levar o projeto a bom porto, exibir os produtos numa galeria. Gorjanc está mais focada na tecnologia, que pode ser útil na criação de couro sustentável, cultivado em laboratório e que não implique sofrimento animal.

Ao que tudo indica, Alexander McQueen usou os próprios cabelos numa coleção de 1992, batizada “Jack the Ripper Stalks His Victims”. Como revelou à Quartz, Gorjanc já teve a permissão dos atuais proprietários da coleção, cuja identidade não quis revelar, para recolher o material.

Tina Gorjanc, que nutre uma confessa admiração pela biotecnologia, teve a ideia para o projeto depois de ler sobre o caso de Henrietta Lacks, uma americana cujas células foram recolhidas sem o seu conhecimento, em 1951. Essas células têm sido, desde então, vitais à investigação, utilizadas para chegar à vacina contra a poliomielite ou à clonagem. A sua história foi contada por Rebecca Skloot no popular livro, “The Immortal Life of Henrietta Lacks”.

A extensão da propriedade de alguém sobre a sua informação genética ainda é uma área nublosa em direito. Nos EUA, em 1984, por exemplo, um médico patenteou células extraídas a partir do tecido de John Moore. Este último, que não sabia que o seu material genético estava a ser usado, perdeu a batalha legal em torno dos direitos da patente.

Glenn Cohen, especialista na intersecção entre bioética e direito na Harvard Law School, afirma que é «muito comum» os investigadores recolherem tecido e usá-lo em investigação. Atualmente, no entanto, os pacientes são solicitados a assinar um formulário de cedência, abandonando quaisquer interesses comerciais, acrescenta.

Nos EUA perde-se também a propriedade de tecidos “abandonados”, como cabelos deixados no chão depois de um corte de cabelo, mas ninguém pode patentear o próprio ADN.

Já no Reino Unido, o direito de propriedade é ainda menos rigoroso. «No Reino Unido não há nenhum direito de propriedade sobre o tecido humano», afirma Jeff Skopek, professor de direito na medicina, ética e política em Cambridge. «Então, tecnicamente, McQueen não tinha propriedade sobre o cabelo».

Tina Gorjanc, por sua vez, diz ter consultado um advogado de patentes e que o que está a fazer é «completamente legal». Mas a designer, ou qualquer outra pessoa no Reino Unido que pretenda usar o ADN de alguém falecido, enfrentará, provavelmente, desafios legais, de acordo com Skopek. O “Human Tissue Act”, por exemplo, exige muitas vezes que a pessoa consinta que os seus tecidos sejam utilizados – McQueen não o fez. Gorjanc pode assim precisar da aprovação de um comité de ética e a lei de proteção de dados poderá também ser aplicada.

Há mais margem de manobra se o tecido for anónimo, mas este não é, claramente, o caso. No entanto, a marca Alexander McQueen não parece ter quaisquer objeções em relação aos planos da jovem designer. «No meu desfile final, um dos representantes da McQueen veio ver o meu projeto», afirma.