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As condições de trabalho em Myanmar

Numa altura em que a indústria têxtil e vestuário tem dificuldades em fazer previsões sobre as trocas comerciais para este novo ano, a gigante da moda rápida H&M convidou as partes interessadas para um evento em Myanmar, cujo objetivo foi olhar para as questões laborais como pilar da estabilidade.

O primeiro evento “Fair & Equal”, em Yangon, no passado mês de dezembro, contou com a presença de oradores representantes de marcas, fábricas e sindicatos. A conferência organizada pela retalhista sueca no centro de aprovisionamento emergente de Myanmar sublinhou que, embora o apoio a práticas laborais mais sustentáveis ​​esteja a ajudar a fomentar a indústria de vestuário do país, o ritmo da reforma precisa de se intensificar para assegurar relações industriais mais maduras dentro da indústria, garantindo o respeito pelos direitos humanos e as boas condições de trabalho, analisa o portal just-style.com.

À margem do evento, a diretora de sustentabilidade da H&M, Anna Gedda, afirmou que existem ainda muitos desafios para a criação de locais de trabalho justos e igualitários, alguns dos quais ultrapassam o controlo direto dos fornecedores. Muitas dessas questões perduram há anos: apenas 22% das fábricas de vestuário à escala global que fornecem a H&M têm acordos de negociação coletiva e só 18% têm representação sindical, informou Gedda.

«Ao mesmo tempo, sabemos também que muitos trabalhadores em muitos países não são capazes de cobrir as suas necessidades básicas ou as das suas famílias e não são capazes de se fazer ouvir – não têm um lugar na mesa de negociações», continuou Anna Gedda.

A liberdade de associação e o direito à negociação coletiva são direitos fundamentais, insistiu a diretora de sustentabilidade. São igualmente fatores-chave para abordar outros direitos humanos, como os salários dignos e as condições de saúde e segurança.

O país anfitrião do evento, Myanmar, que começa agora a destacar-se no mapa do aprovisionamento depois de décadas de isolamento e controlo estatal da indústria, é um exemplo disso.

O país do sudeste asiático está a assistir a um rápido crescimento na sua indústria de vestuário depois da transição para um governo civil, nomeado em abril passado, e da eliminação progressiva, desde 2011, das sanções impostas pela comunidade internacional devido a abusos por parte do ex-governo militar.

As marcas ocidentais, incluindo a Adidas, Gap e a H&M, voltaram a Myanmar, usando o país como um centro de produção.

Por enquanto, a marca sueca está otimista em relação ao progresso social de Myanmar. Além disso, a responsável de produção do grupo H&M, Helena Helmersson, ressalvou que as melhorias nas relações de trabalho precisam de ser evidentes para que a H&M destine o seu aprovisionamento a um determinado país. A empresa não assina contratos de produção a menos que a equipa acredite que tal poderá ter um impacto positivo nas relações de trabalho locais.

O bom funcionamento das relações industriais, por seu turno, melhora as condições de trabalho e, ao resolver os conflitos de forma mais eficaz, a produção torna-se mais estável. Por conseguinte, aumenta também a previsibilidade sobre salários e, finalmente, sobre os preços.

A este respeito, Myanmar tem ainda muito trabalho à sua frente à medida que reingressa no mercado de vestuário internacional e, particularmente, no ocidental.

Ronnie Than Lwin, secretário-geral da Confederação de Sindicatos de Myanmar, sublinhou durante o evento que Myanmar, sob o regime militar anterior, não tinha liberdade de associação. «A cultura da liberdade de associação é nova para o nosso povo, foi reintroduzida recentemente na nossa sociedade», explicou.

Ronnie Than Lwin alegou que em 2015 havia mais de 37 sindicatos nas fábricas de vestuário, mas 22 deles foram desfeitos pela administração.

Gary Lee, diretor executivo da trading Kei Lock Fashion, com sede em Hong Kong, destacou que as empresas precisam de oferecer mais formação aos gerentes de fábrica para que estes trabalhem com os sindicatos. «Como proprietário de uma fábrica, sou positivo em relação aos sindicatos», assegurou. «Mas acho que a maioria dos gerentes de nível médio tem alguns equívocos sobre os sindicatos», referiu.

Lee acrescentou que está a tentar educar os seus diretores sobre o papel dos sindicatos nas relações industriais, nomeadamente na construção de confiança e estabilidade.

Não obstante, em Myanmar, muitas das fábricas que asseguram contratos com marcas internacionais são de propriedade estrangeira. Isso significa que os gerentes são, muitas vezes, estrangeiros. «Por isso, não é fácil construir a confiança entre a administração e os trabalhadores e os sindicatos», explicou Lee, acrescentando que o diálogo social é importante e exige a entrada não apenas das fábricas e dos trabalhadores mas também do governo.

Jenny Holdcroft, secretária-geral adjunta do sindicato mundial IndustriAll, afirmou no evento que é importante que a H&M tenha defendido a necessidade de relações industriais funcionais. Holdcroft sublinhou que os sindicatos capacitam os trabalhadores e aumentam a moral através do sentimento de pertença a uma organização. «Acho que estamos a criar as condições para que isso seja possível no futuro», afirmou. «Acho que isso é importante, embora, por enquanto, a maioria dos proprietários e gerentes do sector de vestuário sejam conservadores e queiram continuar com um modelo de baixo custo que lhes permita fazer negócios», acrescentou a secretária-geral adjunta do IndustriAll.

Quanto a Myanmar, os oradores mostraram-se otimistas sobre o futuro da sua indústria de vestuário. «Espero que o mercado de Myanmar possa desenvolver um ambiente mais sustentável para as empresas através do diálogo social», declarou Gary Lee no final do evento promovido pela H&M. «Trabalhando com as marcas, estou confiante de que podemos desenvolver um bom mercado de produção», concluiu o diretor executivo da Kei Lock Fashion.