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As cores da moda estão a ser trabalhadas no Porto

A sustentabilidade, a música e até a chuva são algumas das inspirações dos membros da Intercolor, que, até ao dia 24 de novembro, estão no Porto a decidir as cores que vão inspirar as coleções para o outono-inverno 2020/2021. Os representantes de 16 países chegam também a beber inspiração das cores da Invicta.

Decorre no Porto, na sede da ANIVEC – Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confecção, que é membro oficial da Intercolor desde 1990, o evento que irá definir a paleta de cores que será a base de inspiração para as coleções do outono-inverno 2020/2021. “Generations Colour/Colour Generations” foi o mote lançado aos membros da Intercolor, plataforma internacional que reúne representantes de organismos nas áreas da moda, vestuário, têxtil, design e cor de 16 países, nomeadamente Portugal, França, Grã-Bretanha, Itália, Espanha, Dinamarca, Finlândia, Alemanha, Hungria, Suíça, Japão, Coreia, Tailândia, Turquia, China e EUA.

César Araújo

«O objetivo principal destas reuniões é dar uma orientação às empresas do sector têxtil e do vestuário. Portugal, ao fazer parte deste grupo, vai ajudar a definir e a antecipar a moda. As ideias que saírem deste encontro, combinadas com o forte know-how português, vão permitir a criação de produtos inovadores e, sobretudo, vão ajudar Portugal a posicionar-se internacionalmente. Podemos ser mais do que parceiros de confiança na produção, podemos ser também agentes internacionais criativos e sofisticados no desenvolvimento do sector do vestuário e da moda»,
afirmou ontem, na sessão de abertura, César Araújo, presidente da ANIVEC.

As cores que pintam o Porto

À semelhança dos encontros anteriores, em cidades como Guimarães (a primeira cidade portuguesa a acolher o evento, em 2012), Marselha, Milão ou Banguecoque, a ideia é que os participantes vivam a cidade e se inspirem pelas cores que predominam nos locais onde reúnem, afirmou Niels Holger Wien, presidente da Intercolor.

«Procuramos as cores das cidades onde estamos. Queremos criar coisas novas a partir do que absorvemos nas viagens. Este encontro debruça-se também nas cores locais que queremos tornar globais. O objetivo é criar um mood que se adapte a vários mercados», explicou Wien, enquanto apresentava fotografias tiradas pelos participantes de locais como a Casa da Música, de uma garrafa de Vinho do Porto e de azulejos encontrados na Invicta. «As pessoas, o vestuário e as cores da cidade vão inspirar-vos», assegurou César Araújo.

A perspetiva portuguesa

Esta quarta-feira, no primeiro dia do certame, o único aberto ao público, os membros da Intercol apresentaram as suas inspirações, que serão a base de um debate das tendências e a análise dos pontos comuns entre as várias propostas, que posteriormente dará origem à paleta de cor.

As cores nacionais foram pensadas pelo Modatex, que é o parceiro técnico escolhido pela ANIVEC para esta área. «Começámos por colher informação sobre o Zeitgeist, de forma a perceber como as próximas gerações vão integrar as cores na sua vida. A moda é mais do que uma expressão pessoal, também incorpora valores pessoais. Uma geração rodeada de tecnologias traz desafios como a Inteligência Artificial ou a Análise de Dados, o que leva a uma grande questão: existe uma ordem natural das coisas? Provavelmente não», revelou, na sua apresentação, Isabel Moutinho, investigadora responsável pelo grupo de trabalho português que congrega psicólogos, sociólogos, designers de moda, presidentes de empresas e professores/formadores, entre outros.

A resposta conduziu ao livro de António Damásio, “A Estranha Ordem das Coisas”. O macrotema escolhido pelos portugueses está dividido em três subtemas: o The Stranger, focado na evolução do conhecimento e no desafio que a tecnologia representa para o seres-humanos, o Order, a nova ordem que é feita de ética, responsabilidade e sustentabilidade, e o Of Things, voltado para a evolução sensorial do toque, «que passou de presencial e ruidoso para ser fluído e com um filtro, como nos ecrãs». As cores que vão predominar ainda estão por definir, mas a proposta da delegação portuguesa defende que as coleções de outono-inverno 2020/2021 se vão dividir em duas paletas de cor. «As cores vibrantes serão objeto de desejo, já que estão relacionadas com os dispositivos eletrónicos, em linha com a ética do futuro. Um conceito oposto é o das cores relacionadas com a questão da sustentabilidade», elucidou Isabel Moutinho.

A chuva e os millennials

As propostas dos restantes participantes, sob o mote “Generations Colour/Colour Generations”, abarcaram desde a cultura dos países de origem aos hábitos e comportamentos dos millennials. Nello Morelli, representante italiano, falou sobre a inter-generation, conceito baseado num estudo sociológico, que divide os cidadãos em quatro gerações, onde cada uma tem preferência por uma paleta de cores diferentes. Por exemplo, os nascidos entre 1995 e 2010, com tendência para serem «mais imaginativos e narcisistas», esclareceu Morelli, preferem tons entre o verde e o azul.

Os representantes da Finlândia, França, Tailândia e EUA inspiraram-se em temas como a sustentabilidade, a natureza e o orgânico, numa comunhão com a tecnologia. «Na Finlândia há um regresso à natureza, como acontecia há milhares de anos, mas agora com preocupações ambientais», indicou a representante finlandesa Tuija Maija Piironen.

Os representantes franceses também se inspiraram nas preocupações ambientais, mas com uma componente mais ligada às tecnologias e à necessidade de abstração das mesmas. A tecnologia e a sustentabilidade, mas com ligações ao oceano e à água, inspiraram os tailandeses. Já os representantes dos EUA, baseados nas catástrofes naturais e nas doenças que são presença forte no quotidiano dos norte-americanos, foram beber inspiração igualmente na sustentabilidade que, recordou o representante dos EUA, Michael Nolte, «é mais do que uma tendência».

A chuva e o vestuário que os dinamarqueses utilizam quando está a chover (cores fortes como o vermelho e o amarelo) foram as inspirações da Dinamarca. Quanto à Turquia, as referências passaram pela inteligência artificial, o futuro e a arte, onde predominam os tons mais escuros, pensados para as gerações futuras que vivem no “talvez”. Por sua vez, os representantes do Japão inspiraram-se na sua própria cultura, e no que dizem ser «as grandes diferenças» entre as gerações mais velhas e as mais novas» nipónicas. «Os mais velhos têm muitos segredos e sabedoria e isso atrai os mais novos. As cores refletem a diversidade das duas gerações» apontou Kahoru Ohsawa, representante do Japão.

Os millennials e as gerações mais ligadas à tecnologia e ao ego, onde não há limites de género, inspiraram os representantes da China, Hungria e Espanha. Da China, Xia Zhao defendeu uma «atenção às novas gerações que crescem com a internet e querem uma vida mais calma». Da Hungria, Eszter Révész assegurou que «as cores não dependem da idade, do tamanho ou do género» e «não há limites para as diferentes gerações, onde a cor é uma expressão pessoal». De Espanha chega a ideia de que «os mais jovens não se sentem representados nas definições da sociedade do género e da sexualidade. Eles não acham que existam cores para cada um dos sexos, mas sim que há uma vasta gama de cores que representam a sua diversidade», adiantou Miguel González.

O Reino Unido também quebra com as noções de gerações e de ideias pré-concebidas, reconhecendo a necessidade de «perceber as sinergias entre as várias gerações», destacou Christine Foden. De igual forma, a Suíça fala na necessidade de «dar voz às crianças que nasceram na globalização, na diversidade cultural, onde se trabalha em ligação com todo o mundo e localmente», desvendou Evelyne Roth, representante suíça. A Coreia do Sul inspirou-se no «conflito» entre os babyboomers e a geração Z «para demonstrar as diferenças é necessário encontrar equilibro», sublinhou Namhee Lee, representante sul coreana, país que se inspirou na arte, no quebrar de estereótipo do género e na questão “o que é a beleza?”. Niels Holger Wien, presidente da Intercolor, é também representante da Alemanha e usou a música como inspiração, especificamente o que ouvem os mais jovens, como o hip-hop e a eletrónica.

O debate das cores

Antes da apresentação das inspirações dos diferentes países, houve tempo para uma conversa moderada por Dolores Gouveia, consultora de tendências, design e marketing, que contou com a presença de Joana Jorge, project manager da ModaLisboa, Rui Miguel, presidente do Departamento de Ciência e Tecnologia Têxteis da Universidade da Beira Interior (UBI) e Ana Silva, diretora de sustentabilidade da Tintex. No ar ficou a possibilidade de ligação entre a ModaLisboa e a Intercolor. «Seria muito entusiasmante. Estamos sempre à procura de novos territórios e parcerias. Há, provavelmente, muitas formas de desenvolver a cor e de falar sobre ela numa semana da moda. Estamos sempre à procura de parcerias e pode-se falar mais da cor num momento em que há emoções envolvidas. As pessoas procuram experiências», admitiu Joana Jorge.

Dolores Gouveia, Joana Jorge, Rui Miguel e Ana Silva

Rui Miguel, da UBI, revelou as propostas dos alunos no que toca às cores, inspiradas pelo lettering, pelo renascimento dos monogramas, pelos influencers, pelo esbatimento das barreiras de género e pelos millennials. Quanto à sustentabilidade, Ana Silva, da Tintex, falou sobre a necessidade de desenvolver processos de tingimento sustentáveis. «Temos um processo de tingimento e estamos a tentar desenvolver cores naturalmente tingidas, mas não apenas em cores naturais», indicou.