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As emoções dos wearables

Um grupo de investigadores do MIT está a desenvolver uma tecnologia wearable cujo principal objetivo é facilitar o diálogo dos seus utilizadores em cenários reais, auxiliando, por exemplo, indivíduos com síndrome de Asperger a perceberem as emoções humanas.

Os dispositivos wearable atualmente disponíveis no mercado são, na sua maioria, tecnologias focadas no utilizador. Como observa a Fast Company, as pulseiras de tracking da Fitbit recolhem dados de fitness sobre o seu utilizador, os óculos Snap Spectacles captam o mundo através dos olhos de quem os usa e até mesmo o Apple Watch oferece informação focada no individuo. Mas e se, em vez disso, os wearables fossem desenvolvidos para que o utilizador pudesse ouvir e interagir com o mundo que o rodeia?

Este é o objetivo subjacente de uma nova panóplia de projetos, incluindo um recentemente anunciado por um grupo de investigadores do MIT e outro em desenvolvimento numa startup de Houston.

Os investigadores do MIT vão apresentar o seu projeto na conferência Association for the Advancement of Artificial Intelligence, que decorre até quinta-feira, dia 9, em São Francisco, EUA, mostrando como a inteligência artificial pode ser usada para detetar a emoção num discurso em tempo real e, em seguida, comunicar isso a outra pessoa.

O sistema recorre à transcrição de palavras, amostras de som e dados de uma pulseira Simband da Samsung, incluindo leituras de eletrocardiogramas de um palestrante e medidas da temperatura da pele, e armazena-a numa rede neural. A rede é treinada com base em fragmentos de discurso humano para usar todas essas informações de forma a detetar os estados emocionais dos falantes.

A emoção resultante, uma vez detetada, pode então ser transmitida a outra pessoa. Esta técnica pode ser aplicada, por exemplo, a pessoas com síndrome de Asperger ou com outras complicações que possam dificultar a perceção das emoções humanas. Estes indivíduos podem agora receber feedback em tempo real sobre os parceiros com quem dialogam, afirma Mohammad Mahdi Ghassemi, um dos coautores do artigo científico do MIT.

«Se quisermos navegar de um ponto em São Francisco para outro em Boston, podemos recorrer à tecnologia – Apple Maps, Google Maps ou qualquer outra – e ela irá navegar entre o ponto A e o ponto B. Navegar numa conversa sobre o dia da Ação de Graças pode ser igualmente complicado e não há orientação sobre isso», explica Ghassemi. «Se recebermos uma avaliação de que o estado da conversa está, digamos, constrangedor ou negativo, a pulseira Simband da Samsung vai vibrar duas vezes», sugerindo que o melhor será mudar de tema, acrescenta.

Neste campo, os smartwatches já têm vindo a ser explorados como ferramenta para pessoas com dificuldades auditivas e visuais, funcionando como um canal de entrada alternativo.

A consultora de acessibilidade Molly Watt, com lesões visuais e auditivas, descreveu numa publicação no seu blogue em 2015 o seu sucesso com o Apple Watch. O dispositivo permitia-lhe trocar mensagens simples com amigos e familiares apenas com alguns toques.

O dispositivo The Vest, desenvolvido pela startup NeoSensory, em Houston, vai ainda mais longe: traduz sons em vibrações de 32 motores distribuídos no tronco de um utilizador. Os cofundadores da NeoSensory, David Eagleman e Scott Novich, ambos neurocientistas, acreditam que o The Vest tem potencial para ajudar pessoas com deficiência auditiva a aprenderem a reconhecer sons e até palavras faladas, se estas treinarem para reconhecer as diferentes vibrações do dispositivo.

A investigação revelou que os utilizadores podem aprender a perceber os sinais normalmente recebidos através de um sentido quando é entregue através de outro, o que significa que as pessoas surdas podem aprender a sentir sons ou que as pessoas cegas podem ouvir imagens, aponta Eagleman, diretor científico da empresa e anfitrião da série televisiva The Brain with David Eagleman, transmitida pela PBS.

A equipa da NeoSensory tem vindo a aperfeiçoar os protótipos do The Vest com vista à produção dos dispositivos ainda este ano, indica Novich, diretor de tecnologia.

«Podem ser usados debaixo da roupa», afirma. «Ninguém vai saber que o utilizador está a usá-los, são realmente silenciosos e a bateria aguenta um dia inteiro», conclui.