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«As margens das empresas estão a ser manifestamente afetadas»

Questões como o aumento dos custos energéticos e o conflito na Ucrânia deverão impactar os resultados das empresas de têxteis-lar portuguesas este ano, aponta Luís Ribeiro Fontes, secretário-geral da ANIT-Lar, que tem tentado encontrar soluções junto do Governo para estes desafios.

Luís Ribeiro Fontes

O ano de 2021, tal como o de 2020, foi de crescimento para a maior parte das empresas de têxteis-lar. De acordo com os números da ANIT-Lar – Associação Nacional das Indústrias de Têxteis-Lar, no ano passado as exportações subiram 13,1% em volume e 14% em valor face a 2019 e 25,8% e 25,4%, respetivamente, em comparação com 2020, para um total de 74 mil toneladas e 851 milhões de euros. Um valor que, refere Luís Ribeiro Fontes, secretário-geral da ANIT-Lar, é «o mais elevado de sempre».

Contudo, esta indústria exportadora, que envia roupa de cama, de banho, de cozinha, tapeçaria e não só para mais de 140 países, com destaque para França, EUA, Espanha, Reino Unido, Itália, Alemanha, Bélgica, Suécia, Canadá e Países Baixos, enfrenta grandes desafios em 2022, sobretudo por causa do aumento de custos e da incerteza social e económica que começa a afetar os consumidores, como dá conta o secretário-geral da ANIT-Lar nesta entrevista ao Portugal Têxtil.

De que forma o aumento dos custos da energia está a impactar a indústria de têxteis-lar?

Obviamente de forma muito grave. Esta indústria é uma utilizadora intensiva, seja de energia elétrica e/ou de energia térmica e, de acordo com a vigência dos respetivos contratos de fornecimento de eletricidade e/ou de gás natural, todas as empresas já foram, ou vão ser a curto prazo, confrontadas com aumentos brutais da fatura energética. O consumidor final não tem poder de compra para aceitar aumentos significativos nos produtos que encontra nas prateleiras; os clientes da indústria dificilmente aceitam correção de preços na dimensão desejável para a indústria; a indústria irá trabalhar menos; os resultados de 2022 tenderão a refletir esta realidade.

Que medidas poderiam ser tomadas para mitigar esse impacto?

Para o bem e para o mal, Portugal é um Estado-Membro da União Europeia e, neste contexto, está sujeito a regras que tem de cumprir, nomeadamente preservando questões como as “ajudas de Estado”, que não sendo devidamente enquadradas podem penalizar ainda mais a indústria, como o passado ensina, e todas as regras ligadas à defesa da concorrência. Há medidas que estão a ser apresentadas ao Governo e que não se mostra oportuno enunciar. De qualquer modo, há intervenções que vão para além do momento atual e que se prendem com a necessidade de aportar celeridade às medidas, programas ou apoios, bem como à sua formalização e pagamento. Por exemplo, a medida “Apoiar Indústrias Intensivas em Gás” aguarda, desde 18 de abril, que seja aberta a fase de candidatura. Sendo que esta iniciativa se enquadra no “Quadro temporário de crise para apoiar a economia no contexto da invasão da Ucrânia pela Rússia”, aprovado pela Comissão Europeia a 23 de março, e que todos os seus pressupostos se mantêm, o que falta para que as empresas possam apresentar as suas candidaturas? Completando com outro exemplo e que vimos de comunicar ao Governo para a sua rápida intervenção, recordamos a “Linha de apoio à economia Covid-19 – empresas exportadoras da indústria e turismo”, que tinha o objetivo de potenciar a manutenção dos postos de trabalho. No âmbito desta medida, cerca de 20% do empréstimo pode ser convertido em “fundo perdido” se cumpridas as condições regulamentadas. Pois bem, são várias as empresas que nos dão nota que o Banco Português de Fomento ainda não liquidou ao banco aquela quantia, eventualmente após terem sido cumpridas todas as formalidades, assim se agravando a tesouraria das empresas por falta de celeridade processual.

Como está a correr esta primeira metade de 2022 em termos de negócio?

Se nos limitássemos a comparar os números do primeiro trimestre de 2022 com igual período de 2021, diríamos que a indústria está a ter uma boa performance, crescendo na ordem dos 13%. Porém, mesmo que o primeiro trimestre ainda não reflita os efeitos do conflito armado na Ucrânia sobre o consumo, as margens das empresas estão a ser manifestamente afetadas, porquanto o crescimento em valor verificado até março não corrigiu o contínuo aumento do preço das matérias-primas, do custo energético, que já se mostrava muito relevante desde o último trimestre de 2021, e de outros custos, como seja o do transporte marítimo ou dos produtos auxiliares, só a título de exemplo. A partir de abril é percetível um abrandamento de atividade, consequência do já previsível abrandamento de consumo fruto do desconfinamento global, que está a determinar outras opções dos consumidores, mas a que acresce o efeito da subida da taxa de inflação na perda de poder de compra dos consumidores e a necessidade destes em fazerem face às despesas básicas. A procura diminuindo, determina um ajustamento da oferta e o primeiro semestre de 2022 vai confirmar.

Que outros desafios e oportunidades enfrenta a indústria de têxteis-lar este ano?

Desafios políticos, no sentido de uma possível instabilidade, parece ser um cenário afastado para os tempos mais próximos. Económicos e sociais? Alguém dizia que pode estar a caminhar-se para a tempestade perfeita! Entretanto, a nível interno, assiste-se ao anúncio de mais uma alteração ao Código do Trabalho, com cerca de 70 mexidas, parte delas tornando mais difícil a vida laboral das empresas e outras tantas aumentando ao nível das coimas por via do aumento de gravidade da infração.

Em simultâneo, prepara-se um acordo sobre a política de rendimentos em moldes muito pouco claros e não se vislumbra vontade política de ser alterado o enquadramento fiscal do trabalho suplementar aplicável ao trabalhador, ou um regime célere de implementação do layoff perante circunstâncias excecionais como aquela que presenciamos, ou um choque fiscal, que tem sido defendido por muitos. Neste contexto, e perante um futuro de muito curto prazo que é uma enorme incógnita, as perspetivas para os tempos mais próximos são de um crescendo da preocupação quanto à reação dos mercados e que irá ser mais notória fundamentalmente a partir do último trimestre do ano.

Como é que a ANIT-Lar responde a esses desafios?

Como sempre. Privilegiando o contacto direto e próximo com as empresas. Verificando as denúncias que apresentam e defendendo a proposta de soluções, trabalhando muito de perto com o Governo que, embora seja recentemente empossado, tem alguns governantes que conhecem bem os dossiers e a indústria. A Assembleia da República, pelas especiais funções que estão atribuídas àqueles que estão como Deputados da Nação, sempre foi um local que recebe bem as nossas intervenções, que pugnam por rigor técnico para que o poder legislativo as possa considerar. Mas com a Assembleia da República recentemente constituída, e primeiramente dedicada ao Orçamento do Estado para 2022, os contactos habituais, nomeadamente com algumas das Comissões Especializadas, só terão maior assiduidade a partir do início da próxima sessão legislativa.

Vai decorrer, ainda este mês, uma edição especial da Heimtextil. Que expectativas tem para este certame?

A edição de 2022 acontece a meio do ano, mas a de 2023 regressa ao mês de janeiro, como tradicionalmente sempre sucedeu. Um inquérito à indústria não permitiu concluir pela data mais consensual, tendo havido algumas sugestões para uma alteração de data para março. Mas não é uma questão em aberto, considerando que a data de 2022 tem uma natureza excecional e a opção da Messe Frankfurt é pela manutenção da realização da Heimtextil em janeiro. A expectativa é de que a feira tenha os resultados habituais, caso contrário as empresas não teriam confirmado a intenção de estar presentes. Isto é, as empresas que vão estar presentes na Heimtextil contam com a visita dos clientes habituais e, considerando as respetivas origens, que outros potenciais clientes não só entendam oportuno visitar a feira, como também estabelecerem contacto. O contexto internacional não é favorável, a confiança não está ao melhor nível, mas a indústria é dinâmica e resiliente e não irá baixar braços – a presença na edição de junho da Heimtextil o demonstra, embora com uma representação de menor dimensão, que não de menor nível.