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As megatendências do negócio têxtil

A abertura do iTechStyle Summit fez um movimento circular, automatizou fábricas e partilhou a economia. Em destaque também uma história pessoal para dar alento aos mais desanimados.

A história de Joan Ginestà, atual CEO da produtora espanhola de tecidos técnicos Marina Textil, funde-se com a dos têxteis. Natural de Barcelona, viu os pais perderem o emprego nos anos 80, durante uma crise no sector. Foi um «péssimo estudante de medicina» e resolveu procurar emprego na indústria, apesar dos alertas. Sem surpresa, ficou desempregado nos anos 90.

«Tomei duas decisões quando estava desempregado. Uma era de que devia falar bem inglês. Outra é que nunca mais ia trabalhar no têxtil. Arrependo-me da primeira, mas não da segunda», contou o empresário espanhol, durante a primeira sessão do iTechStyle Summit’18, um evento organizado pelo Citeve em colaboração com a Associação Selectiva Moda e coordenação científica da Universidade do Minho que começou hoje no Terminal de Cruzeiros do Porto de Leixões.

António Amorim, presidente do Citeve

Ginestà esteve desempregado algum tempo e pensou muito. Lançou-se a desenhar coleções, mas sem grande sucesso porque eram copiadas na China. «É muito duro trabalhar 24 horas por dia, sete dias por semana, um ano inteiro, e a investir cada vez mais em coleções e desenhos para que as máquinas trabalhem 5 ou 6 meses por ano. Tomei uma decisão radical, não queria nunca mais fazer uma coleção de moda. E quis fabricar tecidos para que as pessoas estivessem protegidas», contou.

A sua empresa desenvolveu inicialmente um tecido que tinha como alvo a polícia, mas que, depois da publicação de normas europeias, encontrou outro cliente: os trabalhadores da indústria de alumínio. 17 anos depois ainda está no mesmo bem-sucedido negócio e, agora sim, Joan Ginestà acredita no futuro.

Braz Costa, diretor-geral do Citeve

O arranque desta cimeira consagrada aos têxteis deu conta das megatendências do negócio e que contam uma história, tal como Ginestá, de um futuro de tecidos úteis e técnicos, fábricas automatizadas, digitalização e preocupações ambientais.

Laura Balmond, da Fundação Ellen MacArthur, apresentou a “Circular Fibres Initiative”, na área da economia circular, que pretende retirar do meio ambiente as microfibras de materiais perigosos que se soltam durante as lavagens e reduzir a pegada ecológica da indústria, que polui com o equivalente a 50 mil milhões de garrafas de plástico por ano. «Primeiro queremos retirar as substâncias preocupantes, aumentar a taxa de uso das roupas, melhorar radicalmente a reciclagem, fazer um uso efctivo dos recursos» revelou a diretora de projeto da Fundação Ellen MacArthur. A iniciativa passa por «trabalhar com empresas e organizações para responder a estes desafios que elas sozinhas não conseguem», sublinhou.

Meike Tilebein, do instituto alemão DITF, adiantou que a organização está também a explorar formas de diminuir a pegada do sector, com uma crescente automatização nas fábricas que, entre outros, ajudaria a reduzir o desperdício visto que estaria em contato direto com o consumidor e só avançaria com a produção dos artigos que fossem efetivamente encomendados. Esta “digital textile micro factory”, já apresentada na última edição da feira Techtextil da Messe Frankfurt, permite que os produtos «sejam fabricados de uma forma competitiva e muito regional», com impressão digital e trabalho em rede, consumo otimizado de material e rapidez. «É uma mudança grande para os designers. Precisa de uma alteração organizacional. O passo seguinte é ter um modelo virtual da pessoa, com um avatar, um modelo da roupa, para provar. Só se gostarmos é que clicamos no botão de produção», elucidou a investigadora do DITF.

Já Jacques-Hervé Levy, CEO do IFTH, o homólogo do Citeve em França, deu conta do impacto da tecnologia no luxo e da adesão crescente dos mais ricos, por exemplo, às compras online, que aumentaram 27%.

Lutz Walter, secretário-geral da ETP

Sobre a economia partilhada, Lutz Walter, secretário-geral da plataforma ETP da Euratex, trouxe exemplos de gigantes como a Uber e o Airbnb para mostrar que a indústria têxtil não pode escapar a esta tendência. «Por exemplo, a taxa de utilização de um carro é 8%, tal como de uma casa de férias e os sapatos de homem é de 5%. Porque é que temos tantos sapatos? E roupa?», questionou na defesa da eficiência que pauta as escolhas profissionais mas não as pessoais. A resposta parece estar nos serviços de aluguer de vestuário, cada vez mais na crista da onda.