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As novas ameaças do México

A indústria têxtil e vestuário mexicana estima um crescimento de 4% este ano, mas o país está a conhecer novas ameaças à sua performance. Estas incluem os trâmites do Acordo Trans-Pacífico (TPP) e a proposta do candidato presidencial Donald Trump para a construção de um muro na fronteira com os EUA.

Um salto de 6% a 7% no valor exportado deverá conduzir a caminhada mexicana em 2016, prevê Juan Alfonso Ayub, presidente da Canaintex (Cámara Nacional de la Industria Textil), acrescentando que a procura interna deverá aumentar à medida que a desvalorização do peso mexicano estimula a substituição das importações (ver O reflexo do superdólar). «Vai ser um ano melhor», assegurou Ayub ao just-style.com, referindo-se particularmente aos têxteis e não ao vestuário. «Estamos a ter mais procura dos EUA e uma queda acentuada nas importações subvalorizadas» da Ásia, que estavam em crescendo há dois anos.

Neste encadeamento, Ayub considera que o TPP poderá ser uma ameaça para o país, numa altura em que o México continua a perder quota de mercado para o Vietname e outros rivais asiáticos. O pacto do qual o México é membro foi acordado entre os EUA, Japão, Austrália, Nova Zelândia e outros países do Pacífico, como Malásia e Vietname, em outubro (ver Detalhes do TPP). «Estamos muito preocupados, este país [Vietname] é um risco evidente para nós e dispõe de grandes subsídios do governo», sublinhou. «Há 15 anos éramos o primeiro ou segundo principal fornecedor dos EUA. Agora somos o quinto ou sexto», acrescentou.

Para se precaver do impacto do TPP, a segunda maior economia da América Latina negociou um plano a 16 anos para a redução dos impostos para os 80 principais produtos têxteis e de vestuário. No entanto, o presidente da Canaintex considera que é insuficiente para proteger os fornecedores da competição vietnamita ou o risco de a China começar a usar o país vizinho para triangular exportações. «Oitenta produtos não são nada», advogou. «Há 1.300 categorias de têxteis que podem ser afetadas». A Canaintex vai, por isso, fazer lobby junto dos legisladores mexicanos para que estes mantenham as preocupações do sector têxtil em mente quando forem debater o TPP.

Juan Alfonso Ayub refere que os fabricantes que enviam sobretudo algodão e produtos de poliéster para os EUA estão já a procurar desenvolver artigos de valor acrescentado para abastecerem as empresas locais com pacote completo, que procuram rivalizar com os concorrentes asiáticos.

Mais produtos de moda e tecidos estampados, como denim com liocel, modal ou bambu, bem como fios de poliéster, são alguns exemplos apontados por Ayub, acrescentando que o México também está a aumentar a sua produção de sintético, microfibra e malhas e tecidos com propriedades de performance. Há também planos para desenvolver tecidos à base de agave.

De acordo com o responsável, o México está a desenvolver mais 30 a 35% de produtos de nicho e de valor acrescentado do que há cinco anos. Nos jeans, por exemplo, os pontos de preços subiram para até 120 dólares (aproximadamente 107 euros) em comparação aos anteriores 30.

Arturo Vivanco, presidente da filial Guadalajara da Canaive (Câmara Nacional da Indústria de Vestuário do México), um lobby da indústria têxtil e vestuário, refere que o sector ainda aguarda receber mais informações sobre o acordo final do governo com os 11 países do TPP. «Não nos disseram muito e o TPP está praticamente à nossa porta», observou. Além do Vietname, «vamos ter mais concorrência da Malásia, Bangladesh e Afeganistão pelo que precisamos de entender como todas as regras vão funcionar».

O muro de Donald Trump

Lado a lado com o TPP, está a animosidade crescente de Donald Trump para com o México e as ameaças constantes da construção de um muro na fronteira mexicana com os EUA para conter a imigração. O diretor da Canaive, Jose Manuel Martinez, estima que este muro poderá resultar numa perda de 2,2 mil milhões dólares ou 20% dos 11 mil milhões no comércio de produtos têxteis e de vestuário entre o México e os EUA no seu primeiro ano, caso venha a ser construído.

O candidato presidencial republicano «não entende o quão integradas estão as nossas economias e como estão a tornar-se cada vez mais integradas a cada dia», afirmou Martinez. «A quantidade de matérias-primas que importamos gera empregos nos EUA, a quantidade de vestuário que exportamos cria postos de trabalho no retalho nos EUA. Se Trump avançar com a construção do muro, os EUA vão sofrer. Vão ter um problema geopolítico», explicou.

Comércio com os EUA

Os EUA exportaram 6,5 mil milhões de dólares em têxteis e vestuário para o México no ano passado, sendo que 4 mil milhões se referem a tecidos e 1,5 mil milhões remetem para peças de vestuário que foram depois costuradas no México, de acordo com a American Apparel and Footwear Federation (AAFA).

Por sua vez, o México expediu têxteis e vestuário no valor de 4,2 mil milhões de dólares para os EUA, dos quais mais de 3 mil milhões se referem a vestuário e cerca de mil milhões a têxteis, de acordo com a Canaive. Jose Manuel destacou ainda que a indústria de vestuário do México também tem vindo a fortalecer-se depois de angariar novos contratos de sourcing de retalhistas globais de fast-fashion. Um desses jogadores é a C&A, empresa que em outubro passado lançou uma nova campanha para produzir localmente 90% dos jeans vendidos no México. «Isto também beneficia o algodão dos EUA», concluiu Martinez.