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As novas famílias

Mais do que nunca, os pais contemporâneos sentem a pressão de educarem crianças bem-sucedidas.

Com um custo de vida cada vez mais elevado, uma carreira profissional num crescendo de exigência e numa constante requisição de perfeição por parte das redes sociais, constituir família tornou-se na verdadeira arte de equilíbrio, em constante diálogo com as novas tecnologias. O retalho está atento e tem vindo a adaptar-se à nova “normalidade” familiar.

Os casais têm vindo a adiar o desejo de ter filhos. De acordo com os Centros de Prevenção e Controlo de Doenças nos EUA, a idade média dos pais pela primeira vez aumentou, de 21 para 25 anos nos últimos 50 anos. De 2000 a 2008, a gravidez em mulheres na casa dos 20 anos desceu, enquanto a taxa para mulheres com mais de 30 subiu, analisa o portal de tendências WGSN.

A tendência surge pela intervenção de diferentes fatores, incluindo os avanços científicos na fertilidade, a pressão social para as mulheres apostarem nas suas carreiras profissionais e, claro, a instabilidade económica que impede os casais de casarem e terem filhos mais cedo.

Internacionalmente, as questões financeiras também têm controlado os relógios biológicos. Enquanto a China está a começar a aliviar a sua rigorosa política de um filho, a Índia procura novas formas de travar o crescimento da população. Neste país, a população deverá atingir 1,53 mil milhões de pessoas em 2050, mas milhares de casais concordaram em esperar dois anos para ter filhos em troca de recompensas monetárias do governo.

Segundo os especialistas, o adiamento do primeiro filho poderá ter importantes implicações sociais. Em entrevista à CBS News, Joanne Stone, diretora de medicina materno-fetal do Hospital Mount Sinai em Nova Iorque, referiu que a idade materna no primeiro parto é um tema muito importante. «Se uma mulher tem 44 anos e é o seu primeiro filho, pode não conseguir voltar a engravidar no futuro. Por isso afeta o que vai acontecer à população, que por sua vez afeta o tamanho da população, o crescimento futuro da população, bem como a composição da população», explicou Stone. Por outro lado, os pais mais velhos são financeira e emocionalmente mais preparados para criar e educar os filhos.

Equipas de pais

Termo cunhado pelo Centro para Investigação Política e Económica (CEPR na sigla original), os pais “tag-team” trabalham em horários alternados, entre responsabilidades laborais e cuidados infantis. De acordo com um relatório de 2006 elaborado pelo CEPR, mais de 25% dos casais com dois rendimentos incluem um adulto que trabalha em horário não-padrão (isto é, segundo um cronograma que inclui noite ou fins-de-semana).

A responsabilidade parental em sistema “tag-team” não se esgota nos EUA. Na Coreia do Sul, as avós têm, por norma, os netos ao seu encargo, mas à medida que os casais adiam o nascimento do primeiro filho, os avós também vão ficando mais velhos e menos capazes de contribuir para a edução dos petizes. Deste modo, os pais partilham as tarefas com as mães, economizando dinheiro e gastando tempo de qualidade com os filhos.

A importância da licença de maternidade

O que é que a Libéria, Suazilândia, Papua-Nova Guiné e os EUA têm em comum? Nenhum destes países oferece licença de maternidade paga. E, apesar de empresas como a Netflix, Adobe e Twitter terem pacotes de maternidade generosos, o governo norte-americano permanece dividido quanto a esta questão.

A Suécia, Croácia, Canadá, Itália e Reino Unido servem de exemplo neste território, mas outros países estão a entrar na onda. A Índia anunciou recentemente que está a pensar estender a licença de maternidade das 12 para 24 semanas, num esforço para encorajar mais mulheres a amamentar e a ajudar a reduzir as altas taxas de desnutrição infantil.

Do ponto de vista internacional, a licença de paternidade também está a tornar-se num problema de Estado e países como a Suécia, Canadá, Croácia, Reino Unido e França têm vindo a oferecer políticas generosas aos novos pais, o que representa uma mudança progressiva na igualdade de género nas famílias.

Famílias LGBT

As famílias LGBT são um grupo de consumidores que não deve ser ignorado. Segundo um novo estudo da Nielsen, nos EUA, as famílias LGBT gastam mais 10% em compras do que o agregado familiar médio norte-americano. Também gastam mais 7% do que os consumidores não-LGBT, numa média de 4.135 dólares por ano, no retalho.

Música e entretenimento, em particular, representam uma importante tranche do orçamento das famílias LGBT – estas, são 23% mais propensas a participarem num festival ou evento de música do que as famílias não-LGBT.

O novo “normal”

Em 2015, uma “família normal” pode representar realidades muito diferentes. Longe vão os dias de famílias nucleares com dois pais heterossexuais, uma filha, um filho e um animal de estimação.

As famílias atuais surgem numa variedade de sexos, géneros, raças, genealogias e idades. De acordo com um estudo realizado pela Netmums.com, apenas 60% das famílias no Reino Unido têm pais casados e filhos biológicos, 20,5% das famílias são de pais que não estão casados, 10% das famílias são monoparentais e 6,1% são famílias compostas por uma mistura de filhos biológicos e enteados. No total, a investigação revelou 35 tipos de famílias.

O tempo das “mães sociais”

Tal como os adolescentes, as mães contemporâneas sentem a pressão para serem perfeitas numa cultura de partilha 24 horas por dia, 7 dias por semana, nos novos media.

A “soccer mum” do final da década de 1990 e início de 2000, que se caracterizou por uma dedicação feroz aos interesses artísticos, à educação e às atividades extracurriculares dos filhos, deu lugar à “social mum”, uma influenciadora do Instagram que cataloga online a vida da sua família.

Aplicações baby-sitter

As famílias contemporâneas usam aplicações móveis (Apps) para se organizarem no trabalho, para atividades desportivas e, também, para planearem viagens e entretenimento. Usar Apps para tomar conta das crianças revela-se uma evolução natural.

A Nest Cam funciona como um monitor digital do bebé, conectando uma pequena câmara HD diretamente a uma aplicação no telemóvel de um dos pais. A Nest oferece streaming de vídeo e áudio ao vivo e os pais podem ver o movimento do bebé no berço, monitorizar as brincadeiras das crianças ou fazer o check-in da baby-sitter.

Para as novas mães, a Baby Nursing App da Seven Logics regista todas as atividades relacionadas com o bebé, incluindo intervalos de alimentação e quantidades, horários de sono, de mudança de fralda, etc.

Para crianças mais velhas que começam a explorar a liberdade que vem com o crescimento, a aplicação FamilyWhere usa serviços de localização que permitem que as famílias façam o check-in uns dos outros através dos seus telemóveis.

Resgates nostálgicos

De acordo com um estudo da Nielsen, mais de 70% das crianças americanas com menos de 12 anos usam tablet. Outra pesquisa realizada pela Common Sense Media revela que quase 40% das crianças americanas entre os 2 e os 4 anos têm algum tipo de dispositivo de ecrã de toque em casa. Apelidada de “geração app”, estas crianças são as primeiras a contactarem com a tecnologia digital desde o nascimento.

Como resultado, os pais estão a resgatar os brinquedos mais nostálgicos, na esperança de complementarem a inteligência artificial e gratificação instantânea dos dispositivos móveis com brinquedos táteis que incentivam a imaginação e a criatividade.

Fundada em 1932, a marca dinamarquesa de brinquedos LEGO continua a ser uma das favoritas das crianças e dos pais, uma vez que incentiva a criatividade, estimula a resolução de problemas e ativa o “instinto construtor” dos indivíduos. Em 2014, a marca assistiu a um crescimento de dois dígitos nos EUA, Reino Unido, França, Rússia e China.

O nascimento do “hen”

Fruto do movimento atual dos pais contemporâneos em direção à promoção da autoexpressão e autoexploração dos filhos, desde 2012, dois infantários de Estocolmo adaptaram o pronome de género neutro “hen” para se referirem a todas as crianças. Na Suécia, vários livros infantis apresentam novos personagens principais de género neutro e, de acordo com a Newsweek, também a Noruega está adotar o termo “hen”.

No retalho, a Target anunciou recentemente que irá introduzir nas lojas um corredor de brinquedos sem género, depois de uma mãe ter criticado a retalhista por manter os brinquedos de construção afastados das meninas. Retalhistas como a Tesco, Sainsbury’s e a Boots também se livraram da sinalização de género.

À medida que os pais começam a privilegiar brinquedos que vão ajudar os filhos a expressar-se livremente e encorajam a individualidade, a decisão da Target pode indicar uma mudança mais vasta no mercado de produtos unissexo, incluindo o vestuário. Marcas como Princess Free Zone, Girls Will Be e Svaha já têm vindo a desafiar as normas de género ao providenciarem vestuário não-tradicional – como camisas com robots, tubarões e astronomia para meninas e peças em rosa e roxo para meninos.