Início Notícias Vestuário

As pessoas no centro da indústria

Embora conscientes dos desafios que a transição digital e sustentabilidade ambiental estão a impor na indústria da moda, foi nas pessoas que se centraram os discursos associativos e políticos proferidos na entrega dos Prémios de Excelência Empresarial 2019

César Araújo

São as pessoas que estão no centro da moda, destacou César Araújo, presidente da ANIVEC, na intervenção que fez ontem, 5 de dezembro, antes da entrega dos Prémios de Excelência Empresarial 2019, uma iniciativa do CENIT – Centro de Inteligência Têxtil e da ANIVEC – Associação Nacional das Indústrias de Vestuário e Confecção. «É preciso salientar isto numa altura em que assistimos à hipervalorização da tecnologia e à desumanização das relações interpessoais», afirmou, lembrando que «na indústria de vestuário nacional trabalham mais de 90 mil pessoas. Se juntarmos o sector têxtil já são 140 mil e se ainda somarmos o sector do calçado, são mais de 190 mil trabalhadores». Segundo o presidente da ANIVEC, «isto significa que a fileira enfrenta um enorme desafio e responsabilidade no campo da sustentabilidade social». Uma responsabilidade acrescida por se tratar de uma indústria «composta maioritariamente por empresas familiares, que emprega maioritariamente pessoas com laços de parentesco, tem um enorme peso nos mercados de trabalho locais, desempenha um papel decisivo na coesão territorial e gera importantes dinâmicas socioeconómicas em muitas comunidades regionais», apontou. Além disso, acrescentou, nas regiões Norte e Centro do País «há concelhos em que mais de 50% dos postos de trabalho na indústria transformadora dessa região são assegurados por empresas de vestuário e em que mais de 70% do emprego feminino se encontra na indústria de confeção».

Como tal, a competitividade do sector tem um papel fulcral nas expectativas das populações de «ter uma vida digna e perspetivas de futuro», pelo que o dirigente associativo afirmou, perante o Ministro do Planeamento, Nelson de Souza, e a plateia de empresários, que «um agravamento dos custos dos fatores de produção pode pôr em perigo a sustentabilidade social da fileira moda», ao mesmo tempo que relembrou que as empresas deste sector competem num mercado mundial. «Cabe-nos a todos, mas também aos decisores públicos, encontrar soluções que favoreçam a dignidade do trabalho sem pôr em causa a sustentabilidade social e a competitividade internacional das empresas», referiu.

Conjugar criatividade e negócio

Quanto aos restantes desafios, César Araújo assumiu-se confiante que «o sector saberá encontrar um modelo de desenvolvimento que lhe permita, por um lado, ultrapassar as dificuldades da transformação digital e, por outro, aproveitar as extraordinárias oportunidades que se abrem ao nível da ciência, da tecnologia, da inovação, do design ou do marketing».

Neste âmbito o CENIT e a ANIVEC têm promovido algumas atividades, afirmou Luís Hall Figueiredo, citando o exemplo dos Prémios de Excelência Empresarial e do Concurso Europeu de Jovens Designers, cuja final decorreu também ontem à noite. «Estamos a levar o talento à indústria e aproximar a criação da produção. Os jovens designers europeus representam a inovação estética e as tendências de moda que queremos aliar à capacidade de desenvolvimento de produto e de fabricação da nossa indústria», salientou o presidente do CENIT. «Se no caso do concurso valorizamos o design de moda e o talento jovem, já com os prémios de mérito empresarial estamos a reconhecer a qualidade de produto, a capacidade de inovação e o desempenho exportador das empresas da fileira. Trata-se, pois, de celebrar a criatividade mas também a gestão empresarial. Dois fatores críticos de competitividade que tentamos conjugar, tendo em vista a capacitação da indústria da moda para a conquista de mercados e consumidores cada vez mais exigentes», resumiu.

ITV acima da média no Portugal 2020

Nelson de Souza

O Ministro do Planeamento, por seu lado, sublinhou o dinamismo e competitividade da indústria têxtil e vestuário. «O sector têxtil e vestuário esteve com uma elevada dinâmica nas oportunidades proporcionadas pelo Portugal 2020 para a sua modernização, para a sua inovação e também para a sua internacionalização», garantiu Nelson de Souza.

No total, assinalou, foram aprovados quase 1.100 projetos, que equivalem a um investimento de 750 milhões de euros, divididos por projetos de investigação e desenvolvimento (40 milhões de euros), projetos conjuntos de internacionalização (60 milhões de euros) e projetos de investimento produtivo, de inovação, de modernização e de qualificação (mais de 500 milhões de euros). «Estes investimentos mereceram incentivos de apoio de 400 milhões de euros e os pagamentos já efetivamente transferidos para as empresas ascenderam a 225 milhões de euros, ou seja, este sector já tem uma taxa de execução elevadíssima face à média do Portugal 2020 – neste momento tem 60% executados», revelou o Ministro do Planeamento.

Antes, Nelson de Souza tinha enumerado três desafios que vão pesar na indústria têxtil e vestuário, assim como no país: a transição digital, a sustentabilidade climática e a sustentabilidade demográfica.