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As roupas que dizem tudo

Imagine um mundo onde as pessoas vivem enfiadas dentro de um bodynet, uma peça de vestuário sem fios, baseada numa rede de computadores que lhes permite fazer telefonemas, verificar o e-mail, ver televisão, ouvir música e até mesmo pagar as contas enquanto se caminha pela rua. Michael Dertouzos, o director do Institute of Tecnology’s Laboratory for Computer Science, em Massachussets, previa este cenário no seu livro “What will be”, 1997. Parece impossível? Bem, desde essa altura, a tecnologia e a moda mediática têm vindo a prometer aos consumidores que roupas inteligentes deverão brevemente vestir-nos a rigor. Contudo, excepto um pequeno projecto piloto no ano passado, que envolvia casacos com instalação telefónica feitos pela fabricante de jeans Levi Strauss e pela Dutch, uma companhia electrónica da Philips, este tipo de vestuário continua a ser uma rara comodidade. Mas, esta situação começou a mudar este Outono quando uma empresa de vestuário finlandesa, a Reima, se tornou na primeira empresa europeia a lançar uma linha completa de vestuário tecnologicamente activo. O seu primeiro produto é o Smart 3305, uma parka de esqui com um cinto destacável (que pode ser comprado separadamente) que permite ao utilizador fazer uma chamada telefónica em GSM, basta que para isso puxe um microfone que se encontra no ombro. “Pode comparar-se com um walkie-talkie, que é também uma forma de comunicar mas com um alcance limitado”, adianta o director geral, Pentti Hurmerinta, “a única diferença é que este tem um alcance global”. A Reima tem como principais alvos os montanhistas, os esquiadores e os alpinistas, e a campanha de marketing trata estes produtos como sendo equipamento de protecção. Outros potenciais clientes são as escolas de esqui, equipas de resgate e empresas que empregam trabalhadores ao ar livre tal como empresas de construção. Para o início do próximo ano, a Reima irá lançar uma nova versão que oferece telefonemas sem fio com duas bandas, e também uma camisola interior que pode monitorar a pulsação de quem a veste. Também para a próxima estação espera-se a produção de um bolso com um web browser incorporado, que poderá ser utilizado em camisolas ou casacos. Exibe num monitor slides que saem do bolso e o browser faz uma ligação wap à internet. A Smart Clothing (Roupa Inteligente) não sai barata: o cinto é vendido por cerca de 345 euros, o casaco por 356euros. A Reima espera vender cerca de 500 peças casaco/cinto em conjunto nas lojas de desporto e este ano pensa vender cerca de 4500 peças através das lojas de telecomunicações. A empresa projecta vender cerca de 30 mil peças no próximo ano, sendo que o cinto irá deter cerca de 90% do mercado. Isto irá ultrapassar em grande número a venda dos 2500 casacos da Levi’s aquando da primeira experiência. A Levi’s colocou os casacos à venda em muitas lojas espalhadas por toda a Europa, com um preço entre os 690 euros e os 1000 euros. Cada casaco tinha um telemóvel e um leitor MP3 cozido no casado. A empresa diz que o casaco foi um sucesso, mas nem toda a gente concorda. “Eles mantinham-se nas prateleiras”, afirma Matt Devlin, uma vendedor na Bikeadelic, uma loja de motos em Londres que vende roupa de desporto citadina, “nós vendemos um ou dois, e acho que o patrão deu um ao filho”. Enquanto a Levi’s não se comprometer com qualquer outro tipo de roupas inteligentes, a Philips Design, uma unidade de pesquisas dentro da empresa, está a trabalhar na próxima geração de vestuário electrónico. A Philips criou materiais que conduzem electricidade, sensores bordados e tecidos com interruptores, uma instalação eléctrica e displays flexíveis como parte da “armadura”. E apesar do presidente da Philips Design, Stefano Marzano, não querer comentar sobre datas, ele adianta que “nós estamos a explorar com uma outra marca de vestuário oportunidades para o mercado de consumo de massa”. Mesmo assim, colocar roupas inteligente no mercado é uma tarefa difícil, o que explica o facto de existirem mais promessas que produtos. “Se fosse fácil todos estariam a fazê-lo”, afirma Alberto De Conti, o líder da equipa de inovação da Levi’s. Por exemplo, os fabricantes de vestuário e produtores de electrónica, têm diferentes abordagens ao R&D. Empresas de vestuário levam normalmente 18 meses a colocar um novo produto no mercado, quatro a cinco anos é o normal para uma empresa de electrónica. Para além disso, os designers de electrónica nunca se tiveram que preocupar no passado em ter que tornar as suas “engenhocas” imunes a máquinas de lavar e de secar. Marzano diz que a tecnologia de costura em roupas e acessórios existente não atinge as economias de escala necessárias para produzir produtos baratos de apelo massivo. Mas, segundo Marzano, os novos materiais da Philips Design têm uma produção menos cara, conferindo-lhes um maior potencial de mercado. Pentti Hurmerinta afirma que, inicialmente, as roupas inteligentes têm que oferecer mais do que uma novidade de forma a evitar o estigma de moda a curto-prazo. Por isso a Reima está a concentrar-se em roupas que são “funcionais e práticas”. Ele está convencido que dentro de 10 anos a tecnologia usável será tão comum como os telemóveis. “O mercado potencial é tão grande quanto para os telemóveis”, afirma entusiasmado. Se o dirigente tiver razão, todos poderemos vestir bodynets mais cedo do que a Dertouzos imagina.