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As vantagens do poliéster reciclado

A reputação do poliéster é como uma montanha russa, com altos e baixos ao longo dos anos – dos inestéticos fatos informais e da poluição por microfibras até ao activewear de performance. Neste momento, o poliéster reciclável, com um quociente ambiental elevado, está sob os holofotes.

Estima-se que o mercado global do poliéster chegue aos 39,3 mil milhões de dólares (cerca de 34,3 mil milhões de euros) em 2025, com uma CAGR (taxa de crescimento anual composta) de 6,3%, segundo um relatório do Research and Markets (ver Recycled Polyester is Helping Lift Fiber’s Sales and Image). O crescimento do consumo mundial de têxteis sustentáveis foi o fator que mais impulsionou o crescimento, aponta o relatório.

A alta resistência e a elasticidade do poliéster, aliadas a uma imagem que se aproxima cada vez mais da sustentabilidade tendo em conta o aumento da percentagem de mercado do poliéster reciclado, poderão impulsionar o crescimento da matéria-prima, ao longo dos próximos sete anos. O segmento do vestuário deverá contar com uma maior aceleração, com uma CAGR de 6,7% até 2025, prevê o relatório. «Há uma maior procura por poliéster reciclado, mas ainda é pequena em comparação com o poliéster virgem», afirma Karla Magruder, fundadora da Fabrikology e líder do Textile Exchange’s Recycled Polyester Working Group.

Karla Magruder realça que, ainda que as estimativas coloquem a matéria-prima reciclada com um crescimento de 14% no mercado do poliéster, muita da sua utilização é para enchimentos e aplicações industriais. «Para filamentos de poliéster é necessária uma qualidade mais elevada», explica.

O poliéster virgem representa o maior segmento de mercado e estima-se que gere uma receita de 16,45 mil milhões de dólares até 2025. De acordo com o relatório, o poliéster reciclado terá «um crescimento promissor no mercado, sendo que o aumento se deve a uma maior consciência ecológica em todo o mundo».

As inovações das empresas

Peter J. Spitalny, presidente e fundador da Stein Fibers, que trabalha maioritariamente com as indústrias de mobiliário, decoração e transportes, acredita que o aumento da competitividade dos preços foi a principal razão do aumento da procura por poliéster reciclado. «O mercado do poliéster reciclado passou por uma expansão dramática», reconhece Spitalny. «Tem havido uma melhoria gigante na qualidade do poliéster reciclado», assegura. A Stein Fibers tem instalações nos EUA, em Lafayette, na Geórgia, e em Spartanburg, na Carolina do Norte. O presidente da Stein Fibers refere ainda que, nos EUA, há um investimento estrangeiro significativo em unidades fabris de poliéster reciclado que estão a «substituir muita da fibra virgem».

Já Kevin Hall, presidente e CEO da Unifi Inc., produtora da marca de poliéster reciclado Repreve, anunciou, numa recente conferência com analistas, que as vendas da empresa no quarto trimestre cresceram 5,9% em relação ao mesmo período do ano passado, graças ao portefólio de produtos de valor acrescentado da Repreve.

«As receitas dos produtos de valor acrescentado excederam os 300 milhões de dólares no ano fiscal de 2018 em relação ao ano anterior», adiantou Hall. «A forte performance dos produtos de valor acrescentado foi essencial para o crescimento das vendas internacionais, que aumentaram 19% no quarto trimestre, em relação ao ano anterior. Tudo isto conduziu a um maior avanço rumo ao nosso objetivo de reciclar 20 mil milhões de garrafas de plástico até 2020. Nessa perspetiva, estou feliz por poder anunciar que, recentemente, ultrapassámos a marca das 12 mil milhões de garrafas, uma conquista com muito significado», acrescentou. Além disso, o presidente da Unifi revelou que a empresa ajudou os clientes a atingirem os objetivos em matéria de sustentabilidade, ao vender produtos premium fabricados com poliéster Repreve, à medida que o reconhecimento da marca cresce.

O grupo Burlington introduziu recentemente uma nova geração de produtos sustentáveis, batizada ReGenesis. Trata-se de uma coleção destinada a cidadãos preocupados com o ambiente e amantes do ar livre. A coleção ReGenesis é produzida a partir de uma gama de matérias-primas recicladas inovadoras, de novos parceiros ligados à sustentabilidade, como a Eco Circle e a Seaqual, que se juntaram a ligações mais antigas como a Repreve e a Thread para oferecer aos consumidores uma vasta gama de produtos recicláveis.

«Adoramos o ar livre e acreditamos que dar um novo rumo aos resíduos é uma forma de fazermos a nossa parte, de modo a garantir que as gerações futuras têm tantas ou mais oportunidades que nós num ambiente sustentável», confessa Nelson Bebo, vice-presidente do departamento de vendas do grupo Burlington. «No futuro, todas as criações da nossa Enthusiast Collection de tecidos de performance terão, pelo menos, 30% de conteúdo reciclado. O nosso compromisso é ir o mais longe possível pelos nossos consumidores, criando tecidos que usam novas matérias-primas sustentáveis e são produzidos em fábricas amigas do ambiente, com o foco na redução da nossa pegada ambiental», elucida.

As fibras Eco Cricl da Teijin utilizam um sistema de circuito fechado para dar uma nova vida a vestuário usado. O processo separa e elimina aditivos e corantes e purifica o poliéster reciclado, devolvendo-lhe a qualidade e a função originais.

Com o objetivo de reciclar o plástico encontrado nos oceanos, as fibras da marca Seaqual são obtidas a partir de resíduos de garrafas de plástico e de outros plásticos encontrados no Mediterrâneo, resultando em fios que contêm cerca de 93% a 95% de polietileno tereftalato (PET) e 3% a 7 % de plástico proveniente do oceano, revelou a Burlington.

O grupo Burlington está atualmente a trabalhar com a American & Efird (A&E) para promover os materiais que a ReGenesis utiliza para fazer t-shirts. Nelson Bebo refere que o conceito, que está prestes a ser lançado, parte de uma combinação entre os produtos ReGenesis da Burlington e uma linha de costura sustentável da A&E, incluindo a fibra Repreve da Unifi, «para criar a próxima geração de camisas completamente sustentáveis».  «Este ano, o nosso foco passa pela combinação de novas tecnologias, com benefícios notáveis e superiores para os consumidores na plataforma Repreve», esclarece Kevin Hall. «Também oferecemos estas tecnologias na nossa linha de poliéster virgem, mas o nosso foco primordial é o reciclado. As principais inovações nos produtos que fornecemos, a serem apresentadas este ano, incluem a termorregulação, grande poder de cobertura e uma melhor absorção ou gestão da humidade», destaca.

As dores de crescimento

Peter J. Spitalny admite que um dos maiores problemas do aumento do poliéster reciclado no mercado é, atualmente, obter um título fino ou até micro com defeitos mínimos, a fim de ser misturado com materiais como o algodão ou viscose, para vestuário ou têxteis-lar. Outro dos problemas, aponta Karla Magruder, é o facto de a China estar a proibir todo o desperdício de poliéster, «então quando há menos disponibilidade, as empresas regressam ao poliéster virgem».

O Polyester Working Group conta atualmente com 59 empresas, que estão comprometidas em aumentar o uso de poliéster reciclado em 25% até 2020. Entre elas está a Adidas, que, em julho, garantiu que, integrada na sua prioridade de utilização de materiais sustentáveis, está a sua «ambição máxima» de substituir todo o poliéster virgem usado nos seus produtos por poliéster reciclado «em todos os produtos e em todas as aplicações, onde houver essa possibilidade, até 2024». A coleção de vestuário da primavera de 2019 da marca conta já com cerca de 41% de poliéster reciclado.

Não há dúvida que existe interesse pelo poliéster reciclado, particularmente como uma alternativa ao poliéster virgem. Karla Magruder sublinha que o poliéster reciclado ficou bem classificado nos índices de impacto ambiental, como o Made By ou o HiGG, com base na forma como é produzido e pelo facto de tirar garrafas de plástico do fluxo de resíduos. Também se tem trabalhado no sentido de garantir que o poliéster reciclado atinge uma verdadeira circularidade. «A procura e o desejo é aumentar o uso do poliéster reciclado», assume Magruder. «O poliéster reciclado vai continuar a evoluir e a Textile Exchange tem trabalhado muito nesse sentido», assegura,