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As viagens e tributos da moda nacional

Sob o alerta para uma indústria e um planeta mais sustentáveis, os criadores de moda nacionais voltaram à Invicta para antever o outono-inverno 2019/2020. No âmbito da 44ª edição do Portugal Fashion – e com uma nova organização espacial – passaram pela Alfândega do Porto cerca de 37 mil visitantes.

Luís Buchinho

Depois das chamadas de atenção do primeiro dia de desfiles, entre sexta-feira e domingo, nomes como Luís Buchinho, a dupla Alves/Gonçalves ou Sophia Kah apresentaram coleções de autêntico tributo ao género feminino.

Luís Buchinho homenageou as mulheres que se destacaram na aviação do século XX, explorando materiais como o couro, os pelos falsos, os tecidos laneiros, os feltros e as malhas, nomeadamente em t-shirts com estampados concebidos pelo próprio designer. «A t-shirt é o objeto de design de excelência do vestuário a todos os níveis. É uma peça intemporal, de um minimalismo extraordinário com um propósito completamente fabuloso. Como tenho um lado muito gráfico e um lado ilustrativo sempre muito presente nas minhas coleções, quis demonstrar isso de uma maneira um pouco mais aplicada ao vestuário», justificou.

Katty Xiomara

Já Diogo Miranda optou por criar é uma espécie de guarda-roupa para Éliane, personagem de Catherine Deneuve no filme “Indochina”, «transformando as partes náuticas com um toque feminino, com cores compactas e clássicas para o cliente sentir que pode usar uma peça durante muitas estações», revelou ao Portugal Têxtil. A coleção inclui motivos náuticos como riscas e correntes, usadas numa forma feminina e um visual clássico. O designer usou tafetá para criar mangas exageradas e volumosas em contraste com saias plissadas, em tons como cinza claro, bege, preto, azul marinho e dourado.

Por sua vez, Katty Xiomara apresentou uma coleção com um tributo às mulheres e dedicada a Hello Kitty, que celebra 45 anos este ano, tal como a criadora de moda. «É um tributo à mulher. Achei importante reconhecer que o que sou deve-se ao trabalho de muitas mulheres», numa coleção que mistura influências nipónicas entre vermelho, branco, rosa e preto. «Esta é uma coleção de reflexão, de saudade, de paixão e de agradecimento. Queria deixar o meu testemunho traduzido numa fórmula de moda», explicou.

Alves/Goncalves

A dupla Alves/Gonçalves propôs uma coleção onde «o glam se encontra com o streetwear», afirmou Manuel Alves. «São novas formas de vermos a mulher na rua, mais emocionalmente falando. A mulher encontra novas maneiras de se impressionar a si própria e os outros. Ser cosmopolita, ver o mundo com outras formas, com outras dimensões… reinventar-se», resumiu.

Sophia Kah também apostou no elogio à mulher, quebrando com o romantismo da estação passaram para criar uma coleção «destemida», sublinhou a designer que veste nomes como Beyoncé, Sarah Jessica Parker ou Kylie Minogue. A coleção denominada “Tiger Souls” flutua entre pretos e azuis noite e apontamentos escarlate e fúcsia vibrantes. «Inspirei-me em mulheres da minha vida que considero dinâmicas, que lutam pelos sonhos e criei um guarda roupa para várias situações, com rendas pretas, rosa choque e franjas», confessou.

Da sustentabilidade à transformação

De Guimarães, a marca Pé de Chumbo, fundada por Alexandra Oliveira, apresentou uma coleção apoiada na sustentabilidade, respondendo assim ao fashion alert para a sustentabilidade da moda do Portugal Fashion. Os vestidos em fios de veludo ou cetim, blusas com folhos e mangas balão, saias volumosas e calças de cinta subida fazem a festa da Pé de Chumbo. «Temos três texturas diferentes. A primeira parte dos losangos em lãs, depois temos uma parte de fios reciclados e temos um fio acetinado com mais brilho. Usámos coisas que estavam encostadas em armazém, criámos uma textura diferente e utilizamos um pelo de poliéster feito com o plástico da reciclagem», revelou a criadora.

Pé de Chumbo

Luís Onofre, que foi recentemente nomeado presidente da Confederação Europeia do Calçado, apresentou uma coleção «bastante intensa, dedicada ao frio», sob o tema après ski, convertido num estilo mais irreverente e urbano.

Carla Pontes quis, pela primeira vez, quebrar com os tradicionais desfiles, com uma coleção que pretende ser «um recordar das motivações para a criação de moda e da pertinência que deve existir para se criar produtos novos», afirmou. A designer de Barcelos apresentou «uma instalação viva, em que é demonstrada a versatilidade das peças e a pertinência e os elementos mais distintivos que do meu trabalho, que tem a ver com a forma como as peças são modeladas e abraçam os corpos», explicou. Teresa Martins também transformou a passerelle com dança e uma viagem até à Índia. «Foi uma celebração de fusão de dois conceitos e a imensidão de culturas entre Portugal e a Índia», resumiu.

Ao contrário do esperado, aquele que seria um dos pontos altos do evento, o regresso da Impetus ao Portugal Fashion – que participou na edição de outubro de 200 –, com a marca I Am What I Wear, acabou por não se concretizar.

Carla Pontes