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Ásia com menos encomendas

Apesar de, em grande parte, estarem de volta ao trabalho, as fábricas de vestuário dos principais países asiáticos estão a sentir as dificuldades resultantes da pandemia, quer pelo confinamento nos próprios países, quer pelo cancelamento de encomendas por parte de retalhistas e marcas internacionais.

[©Wikimedia Commons/Fahad Faisal]

As crescentes dificuldades com o Covid-19 e as enormes perdas na sequência do cancelamento de encomendas por parte de marcas e retalhistas mundiais nos últimos meses estão a afetar os produtores na Ásia, que continua a ser o maior centro de produção de vestuário do mundo.

Em média, mais de 80% das fábricas estão a trabalhar no Bangladesh e na Índia e quase 100% no Vietname e no Camboja. A produção esteve fechada em Myanmar de 24 de setembro até 21 de outubro. Os níveis de capacidade, contudo, são outra questão, variando de 60% a 80% e muitas vezes menos, de acordo com as associações e os analistas da indústria.

As fábricas mais pequenas sofreram as maiores perdas, tendo encerrado temporariamente, ou até permanentemente, incapazes de aguentar as encomendas perdidas, assim como os efeitos dos confinamentos locais para evitar a disseminação do novo coronavírus.

Numa análise à situação da Ásia, Mustafizur Rahman, associado no Centre for Policy Dialogue (CPD), em Daca, afirma, citado pelo Sourcing Journal, que «as fábricas estão a continuar a abrir na maior parte dos países, apesar da pandemia. O Vietname geriu muito bem a situação da pandemia, embora tenha sido fortemente afetado pelos cancelamentos dos mercados mundiais. O Bangladesh e a Índia tiveram de enfrentar uma dupla calamidade, com o aumento do Covid-19 no país. Mas o negócio está de volta».

Índia

Na Índia, que no ano fiscal terminado em março de 2020 registou exportações de vestuário de 15,4 mil milhões de dólares (cerca de 13 mil milhões de euros), os números variam de estado para estado, com o centro do vestuário de malha de Tirupur, no sudeste da Índia, a registar um regresso de mais de 90% das fábricas à laboração. Tirupur representa quase um quarto das exportações de vestuário da Índia, de acordo com os analistas.

Índia [©UUCSJ/Kathleen McTigue]
Embora unidades produtivas noutra áreas, como na região de Nova Deli-Noida, estejam 60% abertas, os números gerais de exportação para a Índia têm subido consistentemente mês a mês. Por exemplo, em julho, as exportações de vestuário aumentaram 32,2% em comparação com o mês anterior.

No entanto, o total das exportações da Índia entre abril e agosto é desanimador, com uma evolução de -47,1% em comparação com igual período do ano passado. Analistas da indústria acreditam que o forte confinamento na Índia entre 24 de março até meados de junho foi, em grande parte, o motivo desta redução, a que se somou o grande número de trabalhadores migrantes que regressou às suas aldeias.

As fábricas que respondem ao mercado interno estão ainda em situação pior, com apenas aproximadamente 40% abertas, uma vez que os stocks anteriores continuam por vender e a fraca procura do consumidor impede os retalhistas de comprar.

No dia de hoje, 28 de outubro, a Índia regista, segundo o Worldometers, 7,99 milhões de casos de Covid-19 e mais de 120 mil mortos.

Bangladesh

O Bangladesh tem mais de 95% das fábricas a laborar de acordo com a presidente da Associação de Produtores e Exportadores de Vestuário do Bangladesh, Rubana Huq.

O país é o segundo maior produtor mundial de vestuário, a seguir à China, empregando mais de 4 milhões de trabalhadores.

Os analistas estimam que as fábricas estão a funcionar, em média, a 80% da sua capacidade, numa altura em que os retalhistas mundiais encontram-se ainda a tentar lidar com os seus próprios problemas de stock.

Bangladesh [©ILO/Marcel Crozet]
Entre julho e setembro, que foi o primeiro trimestre do ano fiscal 2020/2021 no Bangladesh, houve um crescimento de 1% em comparação com o mesmo período do ano passado, com o vestuário em malha a revelar um aumento de 7% e o vestuário em tecido uma queda de 5%. Depois de diversos cancelamentos, os fortes descontos exigidos pelos retalhistas mundiais e o confinamento do país em abril, os analistas referem que o volume de negócios da indústria em junho, de 1,99 mil milhões de dólares, expôs uma quebra de 8,6% em comparação com igual mês do ano passado.

Em 2019/2020, as exportações de pronto-a-vestir do Bangladesh desceram 18,1%, para 27,95 mil milhões de dólares, em comparação com 34,13 mil milhões de dólares em 2018/2019.

No dia de hoje, o Bangladesh contabiliza mais de 403 mil casos de Covid-19, que já resultaram em 5.861 mortes.

Vietname

Embora quase 100% das fábricas estejam a trabalhar no Vietname, a maior parte está a operar a uma capacidade muito mais baixa, como mostram os números das exportações da indústria têxtil e vestuário, que baixaram 12,1% nos primeiros sete meses do ano em comparação com o período homólogo do ano passado, para um valor aproximado de 16,18 mil milhões de dólares, segundo o Ministério da Indústria e do Comércio do Vietname.

Vietname [©ILO/Aaron Santos]
O sector registou exportações de cerca de 32,6 mil milhões de dólares em 2019, um crescimento de 6,9% em comparação com 2018, de acordo com o gabinete de estatística do país. Recentemente, têm surgido rumores de uma possível imposição de taxas por parte dos EUA nas importações do Vietname, o que está a aumentar a incerteza.

O país tem sido pouco afetado pela Covid-19, contando apenas com 1.173 casos e 35 mortes desde o início da pandemia.

Camboja

Praticamente todas as fábricas estão a trabalhar no sector do vestuário no Camboja. Apesar de estarem a trabalhar a uma capacidade mais próxima da total em comparação com outros países, as exportações baixaram 5,4%, para cerca de 3,78 mil milhões de dólares, no primeiro semestre deste ano, em comparação com mais de 4 mil milhões de dólares no mesmo período de 2019, segundo o Ministério do Trabalho do país.

Camboja [©Banco Mundial/Chhor Sokunthea]
Ken Loo, secretário-geral da Associação de Produtores de Vestuário do Camboja, eplica que o declínio geral se deve à suspensão do trabalho nas fábricas e a menos encomendas.

O país tem apenas 290 casos de Covid-19 e não registou qualquer morte.

Myanmar

As fábricas estiveram fechadas de 24 de setembro até 21 de outubro – para responder ao aumento de casos de Covid-19, o Governo emitiu uma ordem para os cidadãos ficarem em casa nas áreas de Yangon e região próxima, onde se situa a maioria das unidades produtivas.

O sector do vestuário teve uma série de interrupções desde fevereiro, não apenas devido ao cancelamento de encomendas e aos efeitos da pandemia no país, mas também por causa da dificuldade em assegurar importações da China, de onde são provenientes 90% das matérias-primas para a indústria de vestuário local.

Myanmar [Nikkei Asia]
As exportações de vestuário registaram um valor de 2,73 mil milhões de dólares entre outubro e maio, no ano fiscal de 2019/2020, de acordo com os dados do Ministério do Comércio, em comparação com 4,6 mil milhões de dólares no ano fiscal de 2018/2019.

Myanmar regista até hoje 47.666 casos e 1.147 mortes resultantes de Covid-19.

Apesar do impacto da pandemia de coronavírus, Mustafizur Rahman acredita que «a Ásia vai manter a liderança em termos de sourcing. Não é muito fácil substituir um volume tão grande de aprovisionamento de uma região».